Facundo com sua filha, Pina - Foto: Christian Madonaldo
Facundo com sua filha, Pina – Foto: Christian Madonaldo

Por Dudi Machado

Empresário de hoje com a cabeça no futuro, Facundo Guerra, 42 anos, é o oposto do que se imagina do estereótipo da figura do homem da noite. Não bebe, tem vida regrada, trabalha muito de dia e sai pouco de casa, é engenheiro formado pela Mauá, tem diploma de jornalista pela PUC, além de mestrado e doutorado em Ciências Políticas pela mesma instituição.“A engenharia me deu uma moldura, a maneira de ver o mundo”, diz. Melhor exemplo da filosofia pós-capitalista da qual é defensor, ele quer que seus projetos sejam bem-sucedidos em todas as esferas, não apenas nas finanças.“Transformar, tocar de alguma maneira a vida das pessoas nos espaços de convivência. Essa é minha grande sacada.”

Mais do que isso, a filosofia por trás de seus projetos visa resolver problemas – e de uma maneira não óbvia, fora da caixa –, este é seu grande talento.“Um novo negócio, para mim e para os meus sócios, nasce sempre de um problema. Por exemplo, as salas de cinema tradicionais de rua estão em franca extinção em São Paulo. Não queremos que isso aconteça, nosso próximo plano consiste nisso”, aposta.“Antigamente, ir ao cinema era um programa que, invariavelmente,vinha seguido de um jantar. Hoje, as pessoas ficam em casa com Netflix e pedem delivery. Queremos resgatar o cinema como um drive-in, juntar os dois programas num só: ter uma sala onde o espectador possa assistir a um bom filme – que não seja necessariamente um blockbuster – e que possa, ao mesmo tempo, comer bem e tomar um drink. A ideia é trazer de volta as salas com cenografia especial, à moda antiga”, detalha Facundo, que vai começar pelo Cine Belas Artes, previsto para o próximo semestre.“Esse é o futuro do capitalismo para mim. O consumo como uma expressão política.”

Faisão empalhado, cabeça de frenologia comprada pelo eBay e tijolo de cobogó - Foto: Christian Madonaldo
Faisão empalhado, cabeça de frenologia comprada pelo eBay e tijolo de cobogó – Foto: Christian Madonaldo

Seu primeiro empreendimento noturno foi a boate Vegas, no começo dos anos 2000. Não parou mais: vieram Z Carniceria, Volt, Lions, Cine Joia, Yatch, Riviera, Pan Am Club, Frank Bar, Mirante 9 de Julho, além de eventos paralelos. Sempre acompanhado dos mesmos sócios, já tem um business estruturado. Legado, transformação, verdade, diálogo – estas são as palavras que definem os projetos nos quais quer investir.

O futuro dos espaços de convivência em metrópoles como São Paulo é seu maior interesse. Além de unir cinema e gastronomia, planeja um bar de alta coquetelaria no Theatro Municipal, um restaurante na icônica torre da Gazeta, na Avenida Paulista, um bom restaurante de comida vegetariana, um grupo de barmen formado por travestis, um app que incentiva a música de rua… Exemplos de ideias que nascem de uma cabeça em constante ebulição, no compasso de uma São Paulo que também não para. “Chegou a hora do risco, não me interessa mais fazer apenas um bar ou um restaurante legal, tem de ter alguma coisa diferente, um porquê, algo novo. Quero brincar com essas estruturas definidas”, diz.

A casa de 1930 onde mora há 11 anos, e divide parte do tempo com a filha, Pina, 3 anos, fruto da união com a maquiadora Vanessa Rozan, é extensão de sua vida profissional. Localizada no Pacaembu, foi construída pelo empreiteiro responsável pelo projeto da casa vizinha,do renomado arquiteto modernista Gregori Warchavchik.“Apesar de não ter assinatura, dá para ver que o empreiteiro se inspirou pela obra do vizinho”, conta.“Fui ocupando o espaço ao longo dos anos. O que tem aqui é resultado do que encontrei durante a vida. É tudo work in progress. Tem coisas que sobraram da decoração de alguma reforma, outras saem daqui e vão fazer parte de um bar. Tudo é provisório.É um bom termômetro do que estou fazendo no momento.”

Sobre os animais empalhados (devidamente certificados) e expostos pelos cômodos, diz:“Sempre fui fascinado por taxidermia. Para mim, é uma ode à vida, não uma coisa mórbida.” O processo estético do próprio, visto os objetos e móveis que recheiam sua casa, transita dessa forma.“Gosto de ter peças sem valor artístico, mas que são cheias de valor sentimental,bonitas e interessantes.Não tento encaixar isso em nenhum padrão.” Um novo padrão, como pedem os novos tempos.