Juliana Vasconcellos usa vestido Marco de Vincenzo e sapatos Nuu Shoes. Ao fundo aparador Hervé Van Der Straeten, escultura de Pablo Picasso e gravura de Andy Warhol – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Por Ana Ribeiro

Juliana Vasconcellos demorou para dar uma chance para a arquitetura. Criança, queria ser cantora. Na adolescência, falava em trabalhar com moda. Quando Roberta, a irmã mais velha, foi estudar arquitetura, a profissão entrou no seu radar. Chegou sua hora de decidir e ela optou por fazer a mesma escolha.

Os primeiros anos na Universidade Federal de Minas Gerais foram duros. “O curso é difícil, tem muitos trabalhos, foram muitas noites em claro”, lembra. O cansaço e a indecisão começaram a pesar. Decidiu trancar a faculdade e ir dar uma volta.

Poltrona Joaquim Tenreiro, gravuras de Burle Marx e tapete Diane Von Furtenberg para The Rug Company – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

A primeira parada foi Barcelona, onde fez um curso de moda em uma escola local. De lá foi para Nova York. Voltou a Belo Horizonte um ano e meio depois, a tempo de não perder a vaga na universidade pública. “Estava mais madura, mais focada. Me formei gostando de ser arquiteta.”

Juliana usa look Vetements e óculos Prada – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Foi por essas linhas incertas, apoiada em influências várias – o pai é engenheiro, a mãe trabalha com moda -, que Juliana encontrou a sua vocação. E mais: ao longo da carreira, foi resgatando todas as suas habilidades. Para não limitar sua liberdade criativa à arquitetura, desdobrou seu olhar para projetos de interiores e mais tarde evoluiu para o design.

Detalhe da caveira com óculos Celine – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Em 2010, mesma época em que começou a projetar interiores, Juliana comprou um apartamento no Rio de Janeiro. Era um imóvel classudo, construído no fim da década de 1940, com resquícios de art déco e o Pão de Açúcar na janela. “Para mim, é a vista mais bonita do Rio”, diz ela.

Sofá e poltrona Joaquim Tenreiro, mesa de centro Irmãos Campana e na parede obra circular de Stela Sokol – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Pois a vista foi praticamente o que sobrou do apartamento de 450 metros quadrados. Juliana botou quase tudo abaixo. Manteve o piso original da sala, de mármore branco com molduras de granito preto e rodapés de mármore carrara original. “Banheiros e cozinha foram ao chão, mudamos a configuração do espaço, fizemos um spa”, enumera. “Mantivemos a energia de quando o prédio foi construído, trazendo uma coisa contemporânea e um ar de elegância que combina com o imóvel.”

Fotografia de Henry Clark (1968) e mesa Joaquim Tenreiro – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Entre o fim da reforma, em 2011, e a versão atual do apartamento, aconteceu uma grande novidade na vida de Juliana: ela começou a se dedicar ao design. “Em 2015, participei de uma exposição em São Paulo e resolvi desenhar tudo: tapetes, sofás, poltrona. Metade dos móveis que compunham o ambiente eram meus”, conta. Daí vieram: a primeira exposição de mobiliário na feira MADE, em 2016; a primeira participação na semana do mobiliário de Milão, na galeria Nilufar, em 2017; e a criação da cadeira Girafa, sua peça de maior repercussão até agora, em 2018. “Me lembro exatamente de como ela nasceu. Meu método de trabalho é mental, visualizo a peça na minha cabeça, faço ajustes, tudo no plano da ideia. Só depois coloco no papel.”

Look Racil – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

A Girafa está na coleção permanente do Museu de Artes e Design de Nova York, no Museu das Cadeiras Brasileiras, na Bahia, e rodando o mundo em residências nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Austrália, Emirados Árabes, Nova Zelândia, Coreia, Paquistão. Está também, é claro, no apartamento da arquiteta no Rio de Janeiro. “Minhas vendas para fora do Brasil chegam a 90% do total”, diz ela, que continua se dedicando à arquitetura residencial e comercial, e também a projetos de interiores, muitos deles internacionais.

Vestido Aluf, brincos Gostou, colar Isabella Blanco e papetes Chanel – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Juliana divide seu tempo entre o apartamento no Rio e a casa em Belo Horizonte. “Rio tem mar, tem montanha, tem floresta, tem descontração. Gosto daquela energia, do ambiente democrático, amo saber que a praia é para todos. Gosto de sair de shorts e sandálias Havaianas.” Ela confessa que uma coisa boa é curtir a descontração da cidade e depois voltar para a sua casa, elegante, sólida, confortável. “É um apartamento sóbrio, tranquilo, me traz paz. Muitas vezes estamos lá e não fazemos grandes programas. Olhamos a vista, passeamos pelo Aterro, e só.”

Na Varanda, mesa Joaquim Tenreiro e cadeiras Sergio Rodrigues – Foto: Renato Pagliacci, com beleza de Sabrina Sanm

Para alguém que ama moda, e que ainda faz criações mentais de peças de roupa, Juliana está passando por uma fase minimalista. Depois de uma viagem a um lugar simples no Norte de Minas Gerais, em que levou na mala apenas jeans e camisetas brancas, adotou esse “uniforme” para a vida. Não sabe até quando. “Até hoje fecho os olhos e fico arquitetando roupas. Eu invento várias peças que não existem. É um plano B que estou adiando.”

Acima do piano, obra de Pablo Picasso