Foto: divulgação
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por Dudi Machado/ fotos Christian Maldonado/ styling Giovana Rifatti/set design Tissy Brauen

Percorrer a carreira multidisciplinar Alba Noschese é também entender os caminhos do design das últimas cinco décadas. Aliando moda, decoração e arquitetura, acompanhou os gostos e os modos dos paulistanos durante esse período. “Fui muito feliz na minha carreira, pude exercitar plenamente minha criatividade, algo que é latente em mim. Tenho muitas ideias e desejos. Mesmo agora, depois de uma longa trajetória, sigo gostando muito do que faço”, resume. Aos 72 anos, esta virginiana incansável segue seu lema de privilegiar a qualidade e a excelência em tudo o que faz. Atualmente, Alba e a sócia, Fabienne Chalabi, comandam o escritório Noschese & Chalabi, que concebe a decoração de festas e de projetos arquitetônicos. Fã de designers da escola de Bauhaus, dos modernistas brasileiros e do bom e velho antiquário, tem talento e conhecimento de causa para fazer o mélange na medida certa.

A casa onde Alba recebe Bazaar para este editorial, no bairro Alto de Pinheiros, na capital paulista, foi construída por seu pai, o engenheiro Francisco de Paula Machado de Campos, fundador do Museu de Tecnologia de São Paulo, um visionário, segundo a própria. No décor, uma mistura das heranças das famílias de Alba e do marido, dos gostos do casal e de seu olhar particular, especialmente pelo Brasil. Panelas mineiras de pedra-sabão, mesas de trabalho antigas, um armário de paracatu e uma coleção rara de cerâmica saramenha (o primeiro tipo de louça manipulado no País; feitas de barro, são frágeis e pouca coisa sobreviveu à passagem do tempo) convivem em harmonia com cadeiras Brno em aço e couro, um lustre francês de cristal de rocha, quadros com retratos de antepassados e galhos dependurados no teto, resquícios de uma decoração de Natal que nunca mais saíram dali – fantasias permitidas.

Alba teve o privilégio de ser aluna da segunda turma a se graduar pelo IAD, o Instituto de Artes e Decoração, fundado em 1959, em São Paulo. “Foi ali que entendi tudo, naquele momento o IAD era como um curso superior, só depois se transformou em algo menos importante. Era tudo muito sério, tive professores incríveis, foi lá que peguei pela primeira vez numa lapiseira de desenho.” Recém-formada, associou-se às amigas Maria Alice Milliet e Maria Aparecida Eston, no que resultou em uma parceria de 14 anos atuando em projetos de decoração. O trio também teve uma loja, a Espaço Novo, inaugurada em 1970 na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, tradicional endereço da decoração paulistana, a primeira a lançar um olhar sofisticado para o artesanato brasileiro. “Vendíamos cerâmicas, palhas, gaiolas, objetos indígenas, enfim, tudo que está em alta agora, mas que, na época, era totalmente desvalorizado”, resume. Tempos depois, por um acaso comercial e do destino, deixou de lado a decoração e, junto ao marido, o empresário Claudio Noschese, embarcou em outra empreitada – o começo de seu affair com a moda. “Tínhamos um ponto no Shopping Iguatemi e criamos uma loja de produtos importados, como cashmeres, gravatas, lenços etc., que se chamava Via Láctea.

No início, tudo foi ótimo, mas, em seguida, o governo fechou as importações e tivemos de repensar o negócio.” Nessa segunda etapa, Alba transformou a loja em uma multimarcas jovem, com conceito inovador, que se diferenciava do que o mercado de varejo oferecia. “O espaço era todo em tons de azul-marinho, a vitrine cheia de estrelas, Ricardo Ohtake desenhou o logo.” Nas prateleiras, muitas das grifes que estavam começando, como a Zoomp. Em paralelo, Alba começou a desenvolver alguns produtos. Precursora da customização, tingiu tênis em cores que não existiam por aqui e desenhou coleções de camisetas. O sucesso foi instantâneo e serviu como embrião para o lançamento de sua própria marca, a Armazém – primeiro comercializada dentro da Via Láctea, depois se tornou carro-chefe da empreitada. “Era uma moda jovem, tinha uma malharia incrível, sandálias pesadas, plataformas de corda. Meu olho é exigente, sempre procurei ter a melhor matéria-prima, o melhor corte e os melhores aviamentos.”

Nesse momento, fim dos anos 1980, as marcas nacionais começavam a abrir lojas próprias e, nesse cenário, manter uma multimarcas deixou de fazer sentido. O Shopping Iguatemi acabava de abrir o terceiro piso, área exclusiva onde foi inaugurada a primeira Armazém (a marca chegou a estar em 48 pontos de venda pelo Brasil). Após anos de sucesso, em 1996, ela e Claudio decidiram dar outro rumo a suas vidas e abriram mão do negócio. “Foi uma decisão difícil, estava muito engajada. Fiquei eu com a minha lapiseira na mão. Então, resolvi abrir um ateliê especializado em noivas e roupas de festa.” A empreitada durou nove anos, até o encontro com a sócia e a nova mudança. Fã do trabalho do designer Yohji Yamamoto, é ferrenha opositora do fast fashion. “Trocar paninho por paninho não leva a nada. Entendo as pessoas quererem variedade, mas acho uma pena. Tudo isso passa pela educação: quando mudam-se os valores, muda-se o desejo. O que nos falta é a base.” Sintonia perfeita.

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