Renata Figueiredo veste TIG – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Renata Figueiredo não deu muita bola quando sua mãe, apaixonada pela Bahia, decidiu comprar uma casa para a família em Trancoso, praia que frequenta desde os anos 1970, quando lá havia apenas o mar e algumas poucas casas de pescadores. Acostumada a viagens internacionais por conta do trabalho à frente da TIG (antes da pandemia fazia praticamente uma a cada mês), a estilista considerava o destino baiano uma possibilidade bastante remota.

Mas eis que tudo mudou com o surto da Covid-19. “Construímos a casa em 10 meses e agora é difícil sair de lá. Vou pelo menos uma vez ao mês e fico uma semana”, conta Renata, que descobriu no contato com a natureza a energia que precisava para enfrentar o novo modelo de vida e de trabalho, difícil, incerto. “Uma hora tudo abre e temos que ter peças suficientes. Logo, fecha de novo e ficamos com estoque excedente. E ainda ter que balancear a questão de funcionários, processos de produção e de criação.” Além da TIG, que comanda ao lado da sócia Adriana Mauro, também toca a marca Fabio Yukio de beachwear com o estilista que dá nome à label.

Bolsa Loewe – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

A casa em Trancoso, inaugurada em setembro do ano passado, teve efeitos incanceláveis em Renata. “Ela me abriu uma nova história.” Passou a olhar com mais atenção e cuidado para processos e materiais que passavam despercebidos no seu dia a dia. Como a casa em estilo pescador foi toda construída com material de demolição – até as telhas são antigas e reaproveitadas – ela descobriu pequenas comunidades de produção artesanal local, como cerâmicas, e até garimpou peças de uma tribo indígena que fica nas proximidades da região.

Renata Figueiredo veste TIG – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Aliás, respeitar o lugar onde se constrói e interferir o mínimo possível na paisagem é prioridade para ela. “Sempre achei absurda a construção de castelos na praia, que alteram totalmente o cenário local”, diz. A casa em Trancoso prova que o luxo está na simplicidade e no respeito à natureza, à história do lugar e às pessoas que lá vivem. Nada ali é excessivo. A decoração frugal, onde a luz do sol entra por todos os ângulos, tem ainda algumas peças de antiquário, muita palha e cestarias.

Detalhe da suíte com cordas, palha e cestarias; bolsa comprada em Cartagena – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

O oposto do maximalismo de Renata em seu apartamento em São Paulo. Em um prédio antigo da cidade, ela adaptou seu décor para adequá-lo o máximo possível ao estilo da construção – exatamente a mesma preocupação que teve ao projetar a casa na Bahia. “Os europeus estão mais acostumados a esse tipo de preservação local”, conta a dona de um apê paulistano totalmente french girl, com direito a tapete rosa na sala.

Rasteira da Valentino – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Tendo a natureza mais presente em sua vida, o impacto do pé na areia vai muito além do descanso eventual. “O mar, o sol, a praia e o verde interferem e regulam até o meu relógio biológico”, conta a estilista, que dorme e acorda mais cedo, naturalmente, quando está na Bahia. Sente a saúde e a mente mais fortalecidas. “Nessas horas, vemos como somos pequenos em relação ao poder gigante da natureza, que vai te envolvendo, te moldando. É meu remédio”.

Peças de cerâmica Calazans e bijoux compradas em Cartagena – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

Não é por acaso que a última coleção da TIG foi batizada de “Escape”. “Tudo a ver com esse meu momento em Trancoso, que não são férias, até porque consigo trabalhar melhor daqui e arejar meu processo de criação”, conta Renata. Peças fluidas, amplas, confortáveis, coloridas, tecidos naturais, muito linho e estampas étnicas funcionam como um escape da realidade. Quase nada com salto, uma coleção mais pé no chão. “A privação que estamos vivendo é tão grande que é preciso voltar o olhar para outras coisas e começar tudo de novo.”.

Bolsa Cult Gaia – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi

E ela recomeçou. Pouco antes da pandemia, Renata terminou um casamento de 17 anos. Mas foi no meio desse turbilhão pandêmico que ela reabriu seu coração – e foi para um antigo colega de faculdade, com quem está casada e divide os dias alternados de maximalismo paulistano e minimalismo baiano. Assim, na medida certa de cada um.

Renata usa vestido TIG, sandálias Valentino e joias de seu acervo pessoal – Foto: Pato Rammsy, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi