Foto: Gaelle Marcel/Unsplash

Por Ana Carolina Soares

O funcionário público Akihiko Kondo, de 38 anos, está desolado por enfrentar o fim do casamento de três anos. Seria uma dor conhecida por milhões de pessoas, mas a diferença é que o morador de Tóquio se relacionava com Hatsune Miku, um software. Kondo se declara fictossexual, ou seja, sente atração física por personagens fictícios, no caso, um programa que simula uma cantora de 16 anos.

A paquera ocorreu por meio de uma inteligência artificial, um sistema semelhante à Siri, Alexa e afins, mas que, além da voz, projetava uma imagem em holografia. Por causa de mudanças no negócio, a empresa tirou a personagem do servidor. Agora, para compensar a falta, Akihiko espalhou dezenas de bonecas de Hatsune em seu apartamento, algumas, em tamanho “real”.

Você agora pode estar se perguntando: será o crush cibernético uma tendência? Ficaremos 100% do tempo conectados, dependentes e, literalmente, apaixonados por dispositivos? Antes de tratar sobre o futuro dos relacionamentos, vale a pena olhar o cenário geral, como a tecnologia vai mudar o nosso cotidiano nos próximos anos.

Sobre a evolução da tecnologia, Cauê Silva, especialista em inovação e tecnologia desde 2004, explica que a web 1.0 era aquela em que as pessoas só recebiam informações da rede. Depois, veio a 2.0, em que além de ter a informação, também podemos inputar dados. Acabamos de entrar na web 3.0, a do Metaverso, em que criamos espaços e objetos virtualizados. Ainda sem data prevista, virá a 4.0, em que a conexão migrará para nosso corpo.

Como exemplo, há o projeto da Neuralink, empresa do bilionário Elon Musk, de conectar o cérebro a um computador por meio de um implante de chip. A inovação contou inclusive com os estudos do paulistano Miguel Nicolelis. “Inicialmente, essa tecnologia virá mesmo por meio de cirurgias. Por ser muito invasiva, deverá ser substituída por outro tipo de device, algo que fique próximo ao corpo, mas que seja de fácil remoção”, diz Silva.

Nas relações, o avanço tecnológico proporcionará incontáveis experiências. Por exemplo, antes de marcar um date presencial, será possível seguir a letra de Frank Sinatra e voar até a Lua com o crush que escolheria um avatar semelhante ao do astronauta-galã Neil Armstrong. Sem contar a realização das mais “loucas fantasias” em ambientes virtuais. “É a mesma lógica dos joguinhos: a pessoa acaba descarregando a violência nas telas e relaxando, não vai agredir o coleguinha na rua. Se as pessoas conseguirem separar o real do virtual, a tecnologia pode potencializar a felicidade e a segurança nos relacionamentos”, diz Silva.

Por exemplo, foi lançado o aplicativo Viola.AI, desenvolvido por uma empresa de Singapura, que usa blockchain para segurança dos usuários. O sistema cria registro transparente, aberto e acessível a todos que entram no app, garantindo a identidade real dos candidatos a crush.

No Brasil, o mercado erótico começa desbravar os prazeres da tecnologia. “Podemos destacar alguns apps como o Sexty.me, sobre identidade sexual; Stripchat, para quem quer experimentar sexo virtual, e tpm.hot feito por uma sexóloga recheados de conteúdos educacionais”, diz Paula Aguiar, uma das principais consultoras do setor por aqui. Paula e demais especialistas na área, como a empresária Natalia Cavalcante, dona da loja online Diversão e Amor, apontam as tendências: aumento do uso de sex toys, maior disponibilidade de wearables, proporcionando inclusão de pessoas com dificuldades de locomoção e manuseio, e investimento em designs cada vez mais amigáveis com o corpo de quem utiliza os devices.

“Sexualidade ainda é um tabu, mas, aos poucos, empresários e investidores começam a perceber a importância na sociedade. Ainda bem, cada vez mais os segmentos olham para o mercado como fornecedor de bem-estar, saúde, cuidado e segurança”, diz Lídia Cabral, fundadora da Tech4Sex. Com o avanço da tecnologia, os solteiros também tendem a encontrar seu match em menos tempo, por conta dos algoritmos aprimorados. “Mas as pessoas vão levar mais tempo para aceitar encontros pessoalmente, uma vez que as interações sociais são algo com o qual estaremos menos acostumados e muito menos familiarizados”, completa Masha Kodden, Managing Director do Inner Circle, aplicativo de relacionamentos.

Quer dizer que haverá mais casamentos virtuais, como o de um humano com um software? Especialistas dizem em uníssono: “de jeito nenhum”. “Muita gente se apaixona por seus sex toys, é até normal”, afirma Paula Aguiar. “A pessoa que passa mais tempo com devices do que com amigos e família deveria procurar já um terapeuta”, aconselha a consultora.

Até a diretora do Inner Circle aposta na prevalência do contato pele com pele. “A mágica acontece na vida real! O sentimento de pertencimento, amor e a necessidade física de sexo não serão totalmente substituídos por robôs. Os aplicativos podem levar você a ter uma ótima conexão, mas você precisa do click que só um encontro pessoal oferece”, afirma. Ou seja, ganhamos a tecnologia, para o bem e para o mal, mas a verdadeira mágica, só mesmo no mundo real. Respondida a pergunta lá de cima?