Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 - Foto: Getty Images
Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 – Foto: Getty Images

Por Nina Lemos

Eu tinha 38 anos quando ouvi de uma cabeleireira: “Aproveita para ter cabelo comprido enquanto você pode”. Levei um tempo para entender o que ela queria dizer. Mas era isso mesmo, em breve eu não poderia mais ter cabelo comprido, eu seria proibida porque, para mulheres mais velhas, isso é algo que não se usa.

A culpa desse meu primeiro contato marcante com o ageismo – preconceito contra a idade – não era da moça que aparava o meu cabelo. Ela, também mulher, repetia um chavão que faria mal a ela, a mim, a todas nós. Segundo essas tais regras – que, sim, ainda existem, por mais que mulheres tenham passado a contestá-las e dizerem não -, depois de fazer 40 anos, teríamos de virar mulheres comportadas, vestidas em tons de nude.

Nossa sexualidade seria anulada, claro. Teríamos de nos comportar. Nada de sair para a balada, ficar loucas, dar vexame, pintar o cabelo de verde. Isso seria para os “jovens”. Mas por quê? Algo muda no nosso cérebro depois que passamos dos 40? Nosso gosto para roupas, por exemplo, muda?

Não. O motivo é preconceito mesmo. E, mais uma vez, ele atinge mais as mulheres que os homens. Quando vamos à praia de biquíni com nossos 50 anos, somos consideradas corajosas. Se formos famosas, sites de fofocas exibirão fotos nossas com legenda: “Aos 50, fulana vai à praia de biquíni”. Alguma vez você viu esse tipo de notícia quando um homem, seja da idade que for, foi à praia de sunga?

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Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 - Foto: Getty Images
Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 – Foto: Getty Images

Em 2013, a atriz Betty Faria deu esse recado bem claro. Na época com 72 anos, ela foi atacada por cometer o crime de ir à praia com a neta usando um biquíni em um dia de calor. Diante da repercussão do fato, desabafou: “Velha baranga, sem espelho, e outras ofensas, passada a raiva, me fizeram pensar, querem que eu vá à praia de burca? Que eu me esconda, que me envergonhe de ter envelhecido? E a minha liberdade?”.

Nesses cinco anos, o termo ageismo ficou mais conhecido. Mas, mesmo assim, mulheres foram notícia no último verão por “desafiarem o tabu da idade e usarem biquíni com mais de 50”. Espera! Que tabu? O que elas estão fazendo de tão revolucionário? Não era para isso ser normal? Estamos falando do simples direito de ir à praia, gente!

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Uma das artistas mais importantes dessa luta (sim, é uma luta, e é séria) é ela, a maravilhosa Madonna. Pois é, o tempo passou para ela também. Que bom! Se não tivesse passado, seria porque Madonna teria morrido, e isso, definitivamente, é uma coisa que a gente não quer.

Madonna, aos 59 anos, manda a letra: “Não ouse envelhecer. Envelhecer é um pecado. Se você ousar envelhecer, você vai ser criticada, avaliada e, definitivamente, você não vai tocar na rádio”. Madonna disse isso em dezembro de 2016, ao receber o prêmio da revista Billboard de Mulher do Ano.

A cantora também protagonizou uma performance-protesto no famoso baile do MET, em Nova York, no mesmo ano. Ela apareceu vestindo um modelo Givenchy que deixava o bumbum à mostra. Virou escândalo. No dia seguinte, ela esclareceu que tinha “chocado” de propósito: “Meu vestido foi uma manifestação política. O fato de que as mulheres não possam expressar sua sexualidade e serem ousadas depois de uma certa idade é prova de que vivemos em uma sociedade com preconceitos em relação à idade e sexista”.

Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 - Foto: Getty Images
Madonna com look Givenchy no MET Gala, em 2016 – Foto: Getty Images

Ela disse ainda que sempre foi rebelde. Por que deixaria de ser agora? Essa é uma das questões centrais. Por que teríamos de mudar? Teríamos de nos esconder e esperar pela morte enquanto homens como George Clooney (56 anos) continuam arrancando suspiros e se comportando naturalmente como pais de primeira viagem sem serem julgados?

Cada vez mais mulheres dizem não para esses padrões. Olhem em volta, as moças que assumem os cabelos brancos de jeito superestiloso são uma prova. E, sim, terminando este texto de onde ele começou: podemos usar a roupa que quisermos, inclusive muitas de nós estão se cansando até de usar maquiagem.

Eu, aos 47, não estou com cabelo comprido porque não quero, mas ele está preto-rosa. Isso, inclusive, porque a tinta pega superbem na raiz branca. Velhas loucas? Que se dane. Vão ter de nos aturar.