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Advogada no Congo e faxineira no Brasil: Sylvie Mutiene Ngkang fala de sua luta diária

Em depoimento a Luciana Franca, ela revela sobre o reencontro com o seu marido, após um ano sem notícias

by redação bazaar
Foto: Deco Cury

Foto: Deco Cury

por Sylvie Mutiene Ngkang em depoimento a Luciana Franca

Não vou negar que me incomodo um pouco de fazer faxina aqui no Brasil, mas faço tudo pelos meus filhos. Na África, eu era advogada, tinha casa própria e carro, podia viajar nas férias e pagava uma faxineira. Tudo mudou numa noite de 2013.

Eu morava em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, e, portanto, não foi a guerra (o conflito sangrento no leste do país que, em 20 anos, já matou mais de seis milhões de pessoas) que me trouxe ao Brasil. O que me trouxe foi uma questão política. Meu esposo era contador e também mobilizador de um partido político que saiu às ruas para se manifestar contra uma conferência da Francofonia (organização internacional). O governo não gostou e mandou militares atrás dele. Não tinha ideia de seu paradeiro e, depois de alguns meses sem notícias, toca o telefone e era ele do outro lado da linha: “Saia de casa”, falou e logo desligou, sem que eu tivesse tempo de perguntar onde estava. Soube, depois, que tinha fugido da prisão.

Não, eu não iria sair da minha própria residência. Mas, naquela mesma noite, os militares invadiram a minha casa atrás do meu marido, me ameaçaram, me machucaram, machucaram meus filhos, levaram tudo o que podiam. Foi um drama, foi quando tudo mudou. Não me lembro que dia exatamente era aquele. Peguei meus filhos menores, Jessy, então com 3 anos, e Wimmer, 1, e deixei a mais velha, Falomme, 13, com a minha mãe. Saí da capital para morar na província de Bas-Congo (cerca de 300 km de distância). Fiquei três meses por lá e trabalhava fazendo comércio. Com isso, conheci capitães de navios e um deles me ajudou a embarcar escondida com minhas duas crianças. Eu queria sair do país.

Passamos mais de 40 dias escondidos no porão do navio com outros na mesma situação. Falávamos com uma única pessoa, que cuidava da gente, levava comida. Só podíamos tomar banho à noite. Se tinha baratas e ratos por lá? Tinha de tudo. Eu estava muito cansada, meus filhos estavam muito cansados e pedi para descer na próxima parada. Achava que estava indo para a França ou para outro lugar da Europa. Não sabia que estava no Brasil. Era 18 de dezembro de 2013 e não sei exatamente onde a gente desembarcou. Não sei se foi em Santos (SP). Um dia quero voltar lá para ver tudo aquilo. Só sei que o capitão colocou a gente num táxi e fui parar num hotel em São Paulo que tinha alguém que falava francês. Pedi para dormir na recepção com meus filhos e, de manhã, veio outra pessoa e nos deixou na porta do Caritás (entidade que trabalha na defesa dos direitos humanos). A assistente social nos recebeu, meus filhos choravam de fome. Arrumaram um abrigo, onde ficamos seis meses. E nesse tempo todo, não tive notícias do meu marido.

Um dia, meu filho estava doente, com muita febre, e eu não tinha dinheiro. Fui à entidade para pedir ajuda para comprar remédio. Enquanto esperava na sala da assistente social, ouvi alguém dizer que chegou uma pessoa com um nome que eu conhecia.“O quê? Quem falou esse nome? Esse é o nome do meu esposo.” Comecei a tirar os documentos para mostrar que era o nome dele. Fiquei desesperada, pedindo para procurar esse homem. Não conseguiram localizá-lo no abrigo em que estava e deixaram recado para ir ao Caritás no dia seguinte. Fui para casa e passei a noite toda chorando. Nos encontramos no dia seguinte. Foi muita emoção, continuei chorando por mais um dia inteiro sem parar. Jessy logo o reconheceu: “Meu pai”, repetia. Foi tudo uma grande coincidência, ele não sabia que eu estava em São Paulo. Minha vida é feita de coincidências.

Meu marido foi morar com a gente. Ele fazia uns bicos que não pagavam. Arrumei um emprego registrado para fazer a limpeza em uma escolinha. Não tínhamos nada. Graças a Deus, o povo brasileiro nos acolheu. A dona da casa que aluguei e uma amiga nos deram vários móveis, e assim a gente começou.

Há um ano e meio tivemos outra filha, Beatriz. Depois de ganhar minha caçula, tive de sair do emprego porque não tinha com quem deixá-la. Eu a levava comigo, e ela chorava muito. Na África, você não deixa as crianças com outras pessoas. Ficava com dó e pedi as contas. No tempo em que fiquei em casa, aproveitei para estudar; fiz curso de copeira hospitalar e aprendi português com os voluntários da Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado). Quando saiu a vaga na creche da Beatriz, fui trabalhar em outra escola, mas ela fechou depois de cinco meses e não me pagaram tudo o que deviam. Por enquanto, meu marido faz bico em lava-rápido e eu faço faxina quando me chamam, porque preciso de dinheiro para os meus filhos de 6 e 4 anos. Consegui um bom colégio para eles, que é particular, mas tem de pagar algumas coisas, como lanche. Na festa junina, por exemplo, eu não tinha dinheiro para a pescaria, para as brincadeiras. As crianças costumam entender. De vez em quando, Jessy lembra da vida na África. Um dia perguntou ao pai: “Por que você não trouxe o carro? Na escola, todo mundo vai de carro e eu vou de ônibus”.

A primeira coisa que vem à cabeça quando me perguntam sobre o futuro são os meus filhos, quero o melhor para eles. Não sei se no Brasil ou não. A vida aqui está difícil, mas, se Deus escolheu o Brasil para mim, vou ficar. Não gosto de falar do futuro, porque sei que tudo pode mudar numa noite.