Alessandro Michele ao final do desfile – Foto: Now Fashion

Por Alessandro Michele

Eu sempre considerei o desfile de moda como um evento mágico, repleto de encantamento. Uma ação litúrgica que suspende o comum, carregando-o com excesso de intensidade. Uma procissão de epifanias e pensamentos expandidos que se instalam em uma partição diferente do sensível.

Em uma celebração que estimula expectativas, meu pensamento toma forma e se torna público. Mistura obsessões e impulsos antigravitacionais. Pausa por improbabilidade. Acaricia uma nostalgia do humano, que outros chamam de imperfeição. Costura, com a precisão do amor, os mínimos detalhes da cena, a fim de oferecê-los a uma comunidade de intérpretes.

Há o arrebatamento de um presente, neste ritual inigualável. Há a promessa de uma entrega preciosa. Luzes apagadas. A congregação permanece, esperando, com as mãos abertas. Um silêncio estridente, para receber meus batimentos cardíacos irregulares e minhas emoções.

Depois de prontas, os modelos ficam parados na passarela giratória – Foto: Now Fashion

Ofereço minha poética a essa tribo de espectadores emancipados. Que eles possam usá-la para ponderar. Que eles possam me ajudar a entendê-la. Eles podem usá-la para despertar perguntas dormentes. Ou então, eles podem simplesmente rejeitá-la, se não encontrarem uma maneira de abrir uma porta de compaixão. Eles podem ser tradutores ou traidores. O presente é uma matéria viva, um quebra-cabeças com um significado que não pertence a ninguém.

Ainda hoje, viveremos este ritual, que é sagrado para mim. Um desfile de passos irá desenhar o espaço, como sinos no templo. Alinhavos misteriosos farão um juramento solene à luz. Uma partitura de notas ampliará profecias impressas nos corpos em movimento.

Depois as modelos saíram da redoma para formar a fila final – Foto: Now Fashion

Há algo, porém, nesta cerimônia, que geralmente permanece enterrado: a luta da parturiente que acompanha o tremor da criação; o ventre da mãe, onde a poesia floresce, de forma em forma. Por isso, decidi revelar o que há por trás das cortinas. Que o milagre das mãos hábeis e da respiração contida saia das sombras. Que a inteligência coletiva que cuida da gestação seja visível, enquanto os calafrios enfurecidos continuam. Que aquela colmeia selvagem e louca que eu transformei em minha casa tenha um trono.

Porque esse é o lar que eu presto adoração: a passagem abençoada pela qual a beleza se mostra em sua essência verdadeira.

Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci

(Voice over) – Federico Fellini
Uma câmera de filmagem, alguns amigos dispostos a ajudar, uma equipe, uma equipe extraordinária, uma equipe de circo, na verdade. Uma equipe formada por pessoas que montam um show enquanto montam o circo, e o mesmo acontece quando o desmontam e já estão saindo, e a partida se torna um show.

Alessandro Michele ao final do desfile – Foto: Now Fashion

Isto é, como eu estava dizendo, talvez uma declaração de amor ao cinema, talvez um pouco particular demais, talvez narcisista – repito – sem vergonha, sem limites. Mas, enfim, foi o que eu fiz.

O cinema era apenas isso, era uma sugestão hipnótica, ritualística, algo religioso. Nós costumávamos sair, estacionar o carro em algum lugar, e todo mundo fazia fila para todos os rituais da procissão: o ingresso, a abertura das cortinas, o lanterninha, olhando para o auditório parcialmente iluminado, vendo alguns amigos.

Então as luzes diminuem, a tela do cinema se acende, e a revelação começa. A mensagem. Um ritual antigo, como sempre foi, que mudou formas e modos, mas sempre foi o mesmo: você está lá para ouvir.

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