Mariah Prado – Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Soares

Mariah Prado se formou em relações públicas em 2017 e, desde cedo, trocou o expediente em empresas pelo empreendedorismo. Teve uma marca de doces gourmet, uma papelaria e, em 2015, decidiu vender produtos eróticos. 

Nessa época, constatou nossa triste realidade: as mulheres não falam sobre o próprio prazer. Muitas até o ignoram e trocam por outros deleites, como focar 100% no bem-estar de outras pessoas, especialmente, filhos e parceiros.

Em dezembro do ano passado, há quase um ano, Mariah criou a Share Your Sex, uma plataforma para ajudar a mudar esse cenário e promover o debate sobre sexualidade, de forma direta, sem tabus, muito menos, baixarias ou assédio. Em menos de um ano, a plataforma já interage com mais de 250.000 mulheres.

Nessa educação sexual da era millennium, Mariah lançou o “Manual do Sexo Oral”, um PDF com 79 páginas riquíssimo, com alto nível de detalhes sobre a anatomia feminina e masculina, além de várias dicas para dar e receber prazer para homens e mulheres.

A ideia ocorreu após uma pesquisa com 1.070 entrevistadas sobre o tema, que apontou uma série de dificuldades. Para começar, 97% das participantes afirmaram que gostam de receber oral, mas dessas, somente 31% chegam ao orgasmo, e que 14,8% jamais gozaram durante essa prática.

Além disso, 52% reclamaram que demoram muito para gozar. E 37% relataram medo, insegurança e dificuldade na hora de receber um oral.

Entre as principais preocupações, infelizmente, está o próprio corpo: aspecto, formato e cheiro da vulva. A seguir, Mariah fala sobre o Manual, a Share Your Sex e a sexualidade feminina.

Mariah Prado – Foto: Divulgação

HB – Como veio a ideia de criar o Manual do Sexo Oral?

MP – Sempre tivemos muitos pedidos de dicas no grupo das sys (como nos chamamos carinhosamente) querendo melhorar a performance no sexo oral. Essa demanda e vontade de aprender a dar mais prazer sempre existiu. E quando existe demanda, as ofertas aparecem, né… O problema é que todos os produtos lançados eram sempre feitos único e exclusivamente pensado para o prazer masculino, pouco se importando com o prazer da mulher. No nosso manual, a gente ensina as técnicas tão desejadas, mas vai muito além. A gente fala sobre saúde, comunicação, sobre inseguranças em relação à vulva (hoje, o Brasil é o país que mais faz cirurgias íntimas do mundo, o que evidencia quantas pessoas com vulva estão inseguras e insatisfeitas). O ponto principal no manual é ajudar as mulheres a aprenderem a sentir prazer o tempo todo, ando e recebendo o sexo oral. Não precisa ser como num jogo de ping pong!

Como veio a ideia de criar o Share Your Sex?

Sempre empreendi, sempre gostei de mexer com vendas e, no ensino médio, comecei a vender alguns produtos eróticos. Quando entrei na faculdade o cenário mudou, me deparei com uma realidade nova: as mulheres não falavam abertamente sobre sexualidade ou sobre prazer. Como faria para vender produtos se elas sequer falam sobre o tema? Pensando nisso, eu e mais duas mulheres, que também vendiam produtos, decidimos criar um grupo no Facebook só para mulheres, onde todas pudessem falar sem medo de julgamentos ou assédios. Poucos meses depois, paramos de vender os produtos e aos poucos as meninas foram se afastando até se desligarem do grupo. Chamei algumas amigas para me ajudarem na moderação e em pouco tempo o grupo tinha virado uma comunidade unida e vibrante. A comunidade hoje tem mais de 180 mil mulheres com perfis verificados e desde o ano passado é também uma startup!

Nós, mulheres, normalmente somos privadas de educação sexual. Como se sexo fosse um desejo masculino. Tem a mesma impressão? Por quê?

Completamente. O que ensinam para as mulheres se distingue em muitos pontos do que é ensinado para os homens sobre o corpo e a sexualidade. Enquanto a masturbação para eles é normalizada, para as mulheres é abominada e crescemos ouvindo “tire a mão daí” “isso é sujo” “é feio”. Essas falas repetidas ao longo dos anos faz com que a gente de fato acredite que se tocar não é “coisa de menina” e nos afasta de uma relação saudável com a nossa sexualidade.

Simone de Beauvoir dizia que uma mulher não nasce, torna-se. Concorda? Como foi seu processo de se tornar mulher?

Para mim, o processo de me tornar mulher é contínuo, ele nunca acaba. A cada dia o conceito de “ser mulher” muda, amplia e vou aprendendo que também posso ser mulher de outras formas, e assim vou me tornando cada dia mais a mulher que eu quero ser. Para mim, nós nos tornamos mulheres. Mas falo isso a partir da visão que eu tenho sobre o que isso representa para mim. O conceito de “ser mulher” na minha visão é muito plural no sentido de que “ser mulher” para a mim, não necessariamente é o mesmo para outras mulheres. Por isso gosto também de falar sobre “se sentir” ou “estar” mulher, entendendo que cada uma tem sua jornada particular onde quem cria as definições do que é “mulher” é ela mesma.

Desde a criação do Share Your Sex, qual foi o depoimento mais emocionante que ouviu de uma seguidora?

São tantos depoimentos e feedbacks que fica difícil escolher apenas um. Logo no início do grupo, teve um caso que mexeu muito comigo e que foi um dos maiores sinais de que a Share Your Sex era tão necessária. Teve uma sys que, assim como várias mulheres, estava em um relacionamento abusivo e violento, mas além disso ela estava em meio a uma crise de depressão. Ela conheceu o grupo, se sentiu acolhida e conseguiu ter forças para compartilhar os episódios que vinham acontecendo no seu relacionamento lá no grupo. Vendo a situação, centenas de mulheres compartilharam suas histórias e deram conselhos, fazendo com que ela conseguisse ver que não tinha absolutamente nada de errado com ela. Que o que estava errado era esse relacionamento. Ela começou a fazer terapia com uma psicóloga que foi indicada nesses comentários e depois de alguns meses ela havia conseguido sair desse relacionamento, e sua vida tinha dado um giro de 180°. Na época ela fez outro post agradecendo o carinho, contando o desfecho da história e dizendo o quanto a comunidade tinha servido como o apoio que ela precisava!

Como vislumbra o futuro do sexo?

Vislumbro de uma forma muito mais saudável, e acredito que estamos no caminho certo. Indo para o lado do bem-estar sexual e da sexualidade positiva que são vertentes que acredito muito.

E o futuro da Share Your Sex?

O futuro próximo da Share Your Sex está ligado ao nosso aplicativo, a ideia é que no próximo ano ele se torne realmente o centro da nossa comunidade, onde as mulheres poderão interagir entre si dentro dos grupos,  queremos também que ele se torne um espaço para os criadores de conteúdo voltados para a sexualidade exporem os seus trabalhos, e para os profissionais da Saúde também abordarem esse assunto. Já que está cada vez mais difícil fazer isso em outras redes como Facebook e Instagram. A ideia é abrir espaço para as pessoas falarem sobre sexualidade, e, além disso, pretendemos unificar tudo nele. A Sys Club fará parte do aplicativo, tendo jornadas personalizadas para as mulheres, entendendo que as mulheres estão em diferentes fases da relação com a própria sexualidade, próprio corpo e até com os relacionamentos. Nosso intuito é ajudar nisso, independente de qual fase ela esteja. Nesse processo, iremos trabalhar com  áudio e outros materiais focados na saúde sexual da mulher e na sexualidade dela.  A ideia também é ter um atendimento/triagem para apoiar as mulheres encaminhando para profissionais abrindo esse contato entre as profissionais e a Sys. E a longo prazo, eu vislumbro a Share Your Sex sendo uma referência sobre sexualidade feminina do Brasil, trabalhando com diferentes produtos, serviços e canais, enfim algo realmente grandioso.

Vi que tem também o “Manual do Sexo Anal”. Qual o próximo manual que será lançado?

Nosso próximo manual ainda é um segredo. Mas o próximo lançamento será dentro da nossa plataforma, a SYS Club. Vamos lançar práticas de consciência corporal. Serão áudios de 10 a 30 minutos para que as mulheres consigam ter um momento de prazer na rotina se conectando com o próprio corpo.

 

@anacarolcsoares é jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw.