Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Soares

Imagine acordar num lugar estranho, perceber que foi sequestrada e ouvir do criminoso a sentença: “Nos próximos 365 dias, darei a chance de você se apaixonar por mim”. Socorro! Trata-se de um dos top 3 piores pavores desse nosso cotidiano em metrópoles violentas, certo? Pois a autora polonesa Blanka Lipinska usou justamente essa situação terrível para basear toda uma trilogia romântica-erótica. A primeira obra rendeu o filme 365 DNI” na Netflix, que estreou no Brasil há duas semanas e já está entre os mais vistos do ano.

Uma fama polêmica, aliás. Há inúmeros abaixo-assinados de todas as línguas no mundo inteiro para tirá-lo do ar. Dá pra entender a revolta: a cada hora, seis mulheres morrem neste planeta por feminicídio. No Brasil, mais de oito são agredidas por minuto!!! Todas, vítimas de machões que se acreditam possuidores de plenos poderes sobre um ser humano do gênero oposto.

E agora vem uma obra que romantiza essa pandemia, e pior ainda, escrita por uma mulher?!

Semana passada, li uma resenha, vi o cartaz e o trailler (cafonérrimo). “Não vi, não verei e não gostei”, martelei como primeiro veredito. Mas o assunto continuou tão em alta nas redes sociais e na condição aqui de jornalista que assina uma coluna sobre sexo, tornou-se uma pauta inevitável.

Foto: Divulgação

Antes, bati um papo com Cátia Damasceno, especialista em sexualidade e youtuber. Em quatro dias, a resenha dela sobre o filme superou 1,5 milhão de views. “As pessoas precisam distinguir a fantasia da realidade. Com essa ressalva, sim, é um filme delicioso. E não há como julgar e condenar algo você que não viu”, aconselhou à jornalista aqui.

Cátia tem razão. E, a contragosto, lá fui eu encarar o genérico polonês de “50 Tons de Cinza”…

Foto: Divulgação

Bem, detectei algumas razões plausíveis para tamanha audiência. O principal trunfo possui 1,89 metro de altura, 29 anos e barriga tanquinho: o ator italiano Michele Morrone, que interpreta Massimo, o mafioso sequestrador. O cara é extremamente…. (não colocarei aqui o adjetivo mais adequado em respeito ao meu namorado lindão e tântrico 😉 Enfim, dá até uma certa felicidade toda vez que o galã surge em cena, uma lição sobre “como ser um macho-alfa de respeito” no Christian Grey de Jamie Dornan (loirinho-mauricinho, não me deixaria prender por ele, mas em compensação, o italiano… rsrs).

As cenas de sexo também são, digamos assim, bem, mas beeem inspiradoras. A sequência do iate, que finaliza com o mergulho do bonitão no mar… E as “pegadas fortes” do mafioso? Como dizem, credo, que delícia!, rsrs

Mas para mim, o gozo da obra se encerra aí. Se você, como eu, repara em fotografia, atuações, direção, além de valorizar extremamente roteiro e diálogo, pegará ranço. A começar, pela personagem principal, Laura (Anna-Maria Sieklucka), a sequestrada que se revela uma dondoca profissional. A mocinha não trabalha em nada? Não estuda nada? O que ela faz, além de transar, comer, ir ao cabeleireiro, baladas e comprar roupas? Representante da geração “nem-nem”?

Baixinha e com um rosto perfeito, essa atriz me remeteu a Lucélia Santos, também uma “mulher pequena” (homenagem aqui a Roberto Carlos, rsrs). Ao contrário da polonesa estonteante, a brasileira estampa feições comuns, mas um sex appeal gigantesco. Lembrei de sua Maria Cecília, a “patricinha” de “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues. Nesse clássico, a personagem goza loucamente durante um estupro extremamente violento.

Foto: Divulgação

“365 DNI” também possui óbvia inspiração em “Ata-Me!”, uma maravilha de Pedro Almodóvar. Nela, Ricky (Antonio Banderas, no auge da beleza) sequestra a atriz Marina (Victoria Abril) e faz a mesma ameaça mascarada de amor: “tenho certeza que assim você também vai se apaixonar por mim”.

Foto: Divulgação

Mas por que “Bonitinha” nem “Ata-Me!” não são machistas, ao contrário do romance polonês? Porque fazem refletir, metem o dedo na ferida ao invés de maquiá-la.

“Fico preocupada quando recebo mensagens de mulheres dizendo que sonham com um homem como o Massimo”, diz a sexóloga Cátia Damasceno. “Existe no filme pelo menos quatro pontos em que o protagonista fere a Lei Maria da Penha: há violência sexual, física, psicológica e patrimonial”, completa. Mas ela não vê o “365” como algo que precise ser cancelado. “Há também os lados positivos, como a protagonista se masturbar e o sucesso mostra a enorme demanda de produtos voltados para mulheres.”

Aí fui pesquisar os principais filmes eróticos e percebi que na maioria, mesmo os clássicos, rola um baita abuso: “Nasce Uma Estrela”, “O Último Tango em Paris”, “Lua de Fel”, “Desejo e Perigo”, “O Império dos Sentidos” e até a saga “Crepúsculo”. Por que a mulher tem que se ferrar pra gozar? E por que então enredos assim seduzem tanto tanta gente? “Se o Massimo fosse feio e pobre ainda seria encantador? Aí volto para a principal questão, não misturar fantasia com realidade”, ensina Cátia.

Quando iniciou o “amor bandido”? Lembrei daqueles desenhos animados e os “dates” que retratam a Pré-História: o homem das cavernas metendo o tacape na cabeça da mulher e a arrastando, “apaixonada”.

Em 2009, os arqueólogos J.M. Adovasio e Olga Soffer descobriram que esse ritual era fake e publicaram a obra “Sexo Invisível, O Verdadeiro Papel da Mulher na Pré-História”. Nossas ancestrais eram empoderadas, caçavam, lideravam espaços comuns, além de exercer um papel fundamental no desenvolvimento de rudimentos de linguagem. O machismo surgiu durante o Império Romano (27 a.C.) e só começou a ser questionado lá na Revolução Francesa (1789).

Todo esse frenesi em torno de “365 DNI” demonstra que precisamos de mais 1.000 anos para que enredos assim não nos pareçam atraentes.

Enfim, as cenas de sexo são Uau…? Com certeza! Porém, acho mais saudável curtir outros romances eróticos incríveis: “De Olhos Bem Fechados”, “Azul é a Cor Mais Quente”, “Os Sonhadores”… Fora os pornôs de Erika Lust (olha ela aqui de novo! Um dia, ainda ganhará um post exclusivo 😉

Com tanta obra boa e deliciosa, basta de se deleitar com enredos que podem inspirar tragédias na vida real, concorda?

Beijos e se cuidem!

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw 🙂