Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Soares

Você assistiu a nova versão de “Mulan“, a nova superprodução que a Disney acabou de lançar? Se ainda não viu, já aviso que vai rolar um pequeno spoiller nas linhas a seguir. Desculpe, preciso contar, porque isso é muito inspirador e pode abrir os olhos de muita gente…

Pois bem, o filme é visualmente lindo, com uma protagonista carismática e certamente vai inserir muita menininha nas artes marciais. Trata-se de uma história para empoderar garotas que seria perfeita, se não fosse um detalhe que me incomodou bastante: ô pessoal da Disney, por que uma guerreira não pode flertar?

Para você que não conhece o novo enredo não “boiar”, a protagonista se disfarça de menino e, por conta própria, vai à guerra no lugar do pai doente. No batalhão, conhece um soldado bem “gatinho”, Cheng Honghui. Rola um certo clima entre os dois, mesmo com a Mulan disfarçada. Lá pelo final do filme, a heroína revela sua verdadeira identidade sexual e solta a sua feminilidade, com cabelão esvoaçante, arrasando nas batalhas. Show! Honghui fica ainda mais apaixonado, Mulan obviamente curte o colega, mas opta por se fazer de durona e larga o moço sozinho… Não dá nem a mão para ele, gente!

Assim que vi o “fora” da moça, pensei imediatamente nas heroínas da Disney dessa nova geração: a Elsa, de “Frozen”, Mérida, de “Valente”, e Moana. Até então, eu comemorava bastante esses novos enredos que desvinculam o sucesso e a força da mulher de um casamento. Para ser forte, talentosa e bem sucedida, não precisamos de um homem. Verdade! E muito bom essa mensagem de independência partir exatamente do estúdio que ensinou muitas garotinhas que mulheres precisam ser salvas por um príncipe. Isso, mesmo que ele apareça no final, do nada, com um beijo roubado (há quem defina os selinhos de Branca de Neve e Bela Adormecida como assédio e, sim, remete mesmo…)

Essas histórias começaram a mudar não faz muito tempo, na década de 90, com Esmeralda, a cigana cheia de personalidade de O Corcunda de Notre Dame, considerada a primeira princesa feminista da Disney.

Mas com Mulan esnobando o crush e integrando, sem necessidade, o time das guerreiras solteiras, fiquei pensando: será que a Disney estaria partindo para um outro extremo? Por que uma mulher bem sucedida não pode ter também um relacionamento? Por que Mulan precisou escolher entre a profissão, a família e o crush? Mulheres e homens podem ter tudo (desde que não prejudique ninguém, óbvio)!

Levei isso até a terapia, sabe? Meu psicólogo concordou comigo e me falou que, sim, Mulan é de certa forma “femista”. Confesso que até quarta-feira passada nunca tinha ouvido falar nesse termo. Pesquisei e vi que significa o extremo oposto de machismo, ou seja, subjugar o papel masculino.

Essa palavra não está em dicionários formais. Em termos semânticos, o correto seria dizer misandria. Deriva do grego e significa “ódio ao homem”. O oposto de misoginia.

O femismo, como expressão e conceito, nasceu na década de 60 com a publicação de SCUMSociety For Cutting Up Men, ou, em português, Sociedade para Mutilar os Homens (por favor, nãaaaooo!!!), da escritora americana Valerie Solanas. Sente só o drama de um trecho:

“A manutenção dos homens não se justifica nem mesmo pela finalidade duvidosa de reprodução. O homem é um acidente biológico; o gene Y (masculino) é um gene X (feminino) incompleto, ou seja, possui um conjunto incompleto de cromossomos. Em outras palavras, o homem é uma mulher incompleta, um aborto ambulante (…). Ser homem é ser deficiente, emocionalmente limitado; a condição masculina é uma doença deficitária, e os homens são aleijados emocionais.”

Gente, mas pra que isso? Sou extremamente contra o ódio. Como diria Caetano Veloso, há casos em que “é proibido proibir” e este, definitivamente, trata-se de um deles. Em primeiro lugar, homens são seres humanos. Sim, há alguns odiosos, mas acredito que mesmo esses não têm culpa: são fruto de uma educação castradora, que tira a delicadeza, a sensibilidade e até mesmo o amor do hall de qualidades masculinas.

Um homem, quando entende o seu papel na sociedade, é um ser divino, delicioso, necessário. E como assim punir uma castração com outra castração? Por que, além de tudo, querer acabar com a “Disneylândia” de várias mulheres e homens, rsrs?

Muita gente acredita que feminismo é femismo. Dia desses, uma amiga dentista se declarou contra o movimento feminista. Ela mudou de ideia quando expliquei que não odiamos ninguém. O conceito nasceu no século 19, com a inglesa Mary Wollstonecraft, com o livro Reivindicação dos Direitos das Mulheres.

No “feminismo raiz”, não tem competição, ninguém quer castrar ninguém. Ao contrário, nosso objetivo é promover a igualdade entre homens e mulheres. Uma igualdade social, política, econômica, cultural, filosófica etc…. Mas, claro, respeitando as diferenças entre os gêneros. Na verdade, já imaginou como seria se todos respeitassem todos os seres humanos, com suas complexidades e diferenças? Uau!

Por isso, fica aqui um apelo. Alô pessoal da Disney, que tal um Mulan 2, heim? A guerreira merece, sim, ser feliz para sempre com um guerreiro gatinho e gente boa 😉

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw.