Cena do filme “Notas de Um Escândalo”, que trata sobre assédio sexual masculino – Foto: Reprodução/IMDb

Por Ana Carolina Soares

Olha, já deu para perceber que o tema da coluna desta semana passa a milhas de ser prazeroso… Porém, precisamos falar sobre: assédio masculino.

Na última semana, coincidentemente, ouvi as histórias de dois amigos meus que não se conhecem. Um, aos 12 anos, contou todo faceiro que “namorou” uma amiga da mãe. Ela era 36 anos mais velha… Outro, disse que, com a mesma faixa etária, “seduziu” uma professora do colégio. Nos dois casos, o “romance” só terminou depois que alguém os “pegou no flagra”, no primeiro caso, a mãe e, no segundo, uma diretora da instituição.

Ambos se tornaram adultos inseguros (e, que bom, não têm vergonha de assumir suas fragilidades). Um deles precisou superar até uma fase bem bad de vícios.

Mas os dois contaram suas memórias como um troféu. Pareciam esperar um “Uau, sedutores desde crianças, heim?”. Mas amigos falam a verdade, certo? Não aguentei e disparei: “Meu querido, isso que você me contou foi um abuso sexual. Imagine se a sua filha passasse pelo que passou. Faria algum sentido para você?”

Claro que situações assim não fazem o menor sentido! Eu quis pesquisar então sobre as mulheres predadoras e o assédio dos meninos.

De cara, vi que não se trata de um tema muito pesquisado… O dado mais recente é de 1998, catalogado pelo  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada  Ipea. O estudo constatou que as mães são responsáveis por 2,3% dos estupros de crianças até os 13 anos e de 3,2% de adolescentes. Isso, apenas levando em conta os casos que chegam aos hospitais em decorrência de lesões. Estima-se que a realidade é pior… Não há um estudo que aponte ao certo a proporção dos agressores pelo sexo.

Em relação aos abusados, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), 1 em cada 5 meninas são vítimas. Quanto aos meninos, cai de 1 para 13 meninos. Mesmo assim, está longe de ser um “alívio”: estima-se que 27% dos meninos até os 12 anos de idade sofreram ou sofrerão algum tipo de abuso sexual.

No Brasil, um levantamento da ONG Memórias Masculinas levantou que a cada 3 horas, um pequeno conterrâneo nosso é abusado.

“Dentre os crimes, a prática do estupro masculino, que se camufla como reafirmação da virilidade, em que o homem é tão poderoso que sofre ataques de mulheres que não conseguem se controlar diante de sua presença. Romantiza-se o estupro de homens, porém este crime também ocorre indistintamente com os meninos”, define Sara Caroline Leles Próton da Rocha, autora do artigo “Abuso Sexual de Meninos: Um Crime Também Praticado Por Mulheres”, publicado no Portal Âmbito Jurídico.

Na nossa sociedade, parece que o homem foi “presenteado” com a obrigação de servir sexualmente, uma verdadeira máquina que não pode “dizer não” a uma mulher. Ao descobrirem o abuso, muitos pais até dão parabéns… Preferem fechar os olhos, por medo de “ferir a masculinidade do garoto”.

O abuso sexual não é sinônimo de pedofilia, mas um crime de conceito amplo, que não necessita de contato físico, como o exibicionismo, voyeurismo, assédio e pornografia infantil, mas também pode envolve-lo, como a prática de aliciamento, corrupção, exploração, tráfico, estupro de vulnerável. “Estudos demonstram que entre 40 a 50% dos ofensores sexuais de crianças não preenchem os critérios para o diagnóstico de pedofilia”, informa o artigo no Portal Âmbito Jurídico.

Essa omissão tem sérias e, às vezes, irreversíveis consequências. Entre elas, problemas no desenvolvimento, fobias, excesso de banhos, transtorno de estresse pós-traumático, depressão, baixa autoestima, queda nas notas escolares, pesadelos, comportamentos regressivos (urinar na cama e chupar dedo), comportamentos sexuais inadequados para a idade (hipersexualidade), insistência em permanecer longe da casa ou escola, além de sinais físicos, como bactérias, fungos, lesões e coceira nos genitais.

Precisamos com urgência olhar para esse assunto e silenciar de vez toda masculinidade tóxica! Conhece alguém que passou por esse trauma? Já há algumas portas a bater. As mais interessantes, Memórias Masculinas, portal brasileiro de acolhimento para homens vítimas de abuso sexual, e Quebrar o Silêncio, uma ONG portuguesa, mas com o mesmo propósito.

Homens não são sex machines! Eles também têm direito a escolha e a sentimentos!

Foto: Divulgação

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw.