Cena do filme “A Insustentável Leveza do Ser” – Foto: Reprodução/IMDB

Por Ana Carolina Soares

Você assistiu a série “Little Fires Everywhere?” Olha, até eu, que não curto maratonar, virei a madrugada de um sábado por causa desses oito capítulos em cartaz na Amazon Prime. A série se baseia no livro homônimo de Celeste NG e retrata o embate entre duas mulheres – uma típica matriarca de família branca americana, Elena Richardson (Reese Whiterspoon, a eterna “Legalmente Loira”), versus uma artista plástica negra meio hippie e mãe solteira, Mia Warren (Kerry Washington). O enredo aborda racismo, o “padecer no paraíso” da maternidade, além de todas as nuances do universo feminino.

Um dos trechos mais emblemáticos, Elena debate com as amigas em um chá da tarde do clube do livro, a obra Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler. Rolou polêmica nessa escolha, muitas, inclusive a protagonista, preferiam o romance “Memórias de Uma Gueixa”, mas para não fazer feio na reunião, deram uma folheada (a contragosto) no texto feminista.

Em determinado momento, Mia invade a conversa e afirma que as mulheres, na verdade, têm medo da anatomia feminina. Medo de tudo: de falar sobre ela, de observá-la. No papo, muitas, inclusive, confessaram que jamais viram sua vagina. “Ai, credo… Pra que isso?”, questionaram as respeitáveis mães de família. Mas depois da reunião, na surdina, Elena vai ao banheiro, pega um espelho, a coragem em goles de uma taça de vinho e, finalmente, pela primeira vez na vida, observa o seu órgão feminino.

Cena da série “Little Fires Everywhere?” – Foto: Divulgação

Aí vem a pergunta: e você? Já observou a sua vagina? Conheço mulheres muito bem-sucedidas que viajaram a países exóticos, visitaram incontáveis museus, dominam assuntos técnicos complicadíssimos, mas não sabem diferenciar a vulva da vagina. Conhecem o mundo, mas jamais se viram… 🙁 Se os homens têm seu membro ali, exposto, basta olhar para baixo para admirar, medir, comparar com os outros etc…. Nós, mulheres, precisamos fazer malabarismos para checar nosso órgão.

Lembro a primeira vez que me apresentei à minha. Eu tinha 14 anos. Semanas antes, havia visitado pela primeira vez um ginecologista, levada pela minha mãe. Tive uma aula sobre DSTs, a importância da camisinha (“Se não usar, pode pegar Aids e morrer! Olha só o Cazuza!”, apontou minha mãe, a capa de uma revista semanal na época). Bem, um monte de teorias, mas nada de se conferir.

Então, assisti “A Insustentável Leveza do Ser”, adaptação do livro de Milan Kundera, com Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche no elenco. Acho que a censura era 16 anos, mas sempre fui altona e entrei numa boa no cinema. Uma das personagens me encantou: Sabina (Lena Olin), uma artista “libertina”. Em (se não me falha a memória) duas cenas, deslocava o espelho da parede ao chão para se observar. “Por que eu nunca fiz isso?”, me perguntei. Naquela tarde, tranquei o meu quarto e fiz o mesmo. Desde então, incorporei o ritual à rotina.

Coincidências da vida, já estava com esse tema em mente quando, na última quinta, soube que Adriana Cairo, médica dermatologista, havia iniciado um trabalho de laser e preenchimento voltados para a vagina e a vulva.

Que maravilha jogar um holofote nessa parte do corpo tão escondida! Mas na sequência, surgiu uma preocupação. “Puxa, mas nós, mulheres, já vivemos a ditadura do preenchimento labial, do botox e do narizinho empinado pela rinoplastia, agora nos sujeitaremos também a um padrão estético vulvovaginal?! Precisaremos também nos manter rosadinhas eternamente?!”

Cena da série “Little Fires Everywhere?” – Foto: Divulgação

Adriana me tranquilizou: “Mas quem ditaria a estética? Estrelas pornôs? Médicos conscientes sabem orientar pacientes pela saúde e contra exageros. Além disso, o tratamento tem como principal benefício melhorar a funcionalidade.”

Nesse atendimento multidisciplinar, uma parceria entre ginecologistas e dermatologistas, laser e ácido hialurônico tornaram-se recursos também para devolver a lubrificação e resolver problemas como incontinência urinária.

Adriana alertou que, apesar de muita gente frequentar academias e praticar exercícios físicos, muitas mulheres se esquecem de “malhar” o assoalho pélvico, uma musculatura essencial para sustentar órgãos como bexiga, útero e intestino.

(Quer uma prática simples, rápida, que dá pra fazer em qualquer lugar? Após esvaziar a bexiga, contraia e solte o canal vaginal, como se prendesse o xixi. Contraia, conte até dez, e solte novamente. Todos os dias, faça pelo menos duas séries com dez repetições e terá um “assoalho pélvico tanquinho” 🙂

Essa falta de atenção ao músculo aliada a questões como o parto e a menopausa podem provocar casos de incontinência urinária. Em cerca de três sessões de laser intravaginal (custa aproximadamente R$ 2,5 mil cada aplicação), é possível devolver a elasticidade do canal vaginal. E a cada ano, x ginecologista avaliará se precisa de uma nova aplicação para manutenção.

O laser também melhora a lubrificação (outro drama da menopausa) e, nesse processo, pode ser aplicado também na vulva. De quebra, ela fica mais clarinha. Dermatologistas utilizam o ácido hialurônico (cerca de R$ 1,8 mil cada ampola) para preencher os grandes lábios. “Trata-se de um recurso estético. Com o passar dos anos, o tecido perde a elasticidade, processo semelhante ao das mãos. Mas não dá para retomar a aparência de uma adolescente”, explica Adriana.

Mas atenção: a médica não recomenda a injeção da substância no clitóris (trata-se de uma região muito vascularizada e pode gerar uma série de complicações). Outro alerta às pacientes que também desejam a ajuda de um cirurgião plástico para diminuir o tamanho dos grandes lábios. “Precisa pensar muito bem e procurar um ótimo profissional, porque certamente a sensibilidade ficará alterada”, avisa a médica.

Ladies, não dá pra se mutilar e perder o prazer só para impressionar o parceirx com uma vulva rosadinha pueril, certo? Vamos observar melhor e zelar muito bem um dos principais símbolos da nossa feminilidade 😉

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw 🙂