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Por Ana Carolina Soares

Em um espaço para debater sexo, os temas sexualidade e identidade de gênero são tão básicos como um “papai e mamãe”. A humanidade tem lá seus milhões de anos e me surpreendo ao perceber como só agora a aceitação dos gêneros começou a ganhar holofotes. No Brasil, tivemos os pioneiros Dzi Croquettes, um grupo que mesclava dança e teatro, hasteando a bandeira da diversidade na década de 70. Em plena ditadura militar, foram censurados e o grupo não durou nem dez anos. Dos 13 homens que integravam o grupo, oito morreram — desse número, quatro de Aids e três assassinados.

O Brasil ainda lidera o ranking de país que mais mata trans, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Em 2019, foram 124 mortes, seguido do México (65) e Estados Unidos (31), em um total de 74 países que reportaram. Que país é esse, caros leitores? Tenho 46 anos e percebo que só agora, após os anos 2000, pessoas que não se enquadram no rótulo “cis” pararam de ser retratadas nas mídias com nomes pejorativos. Desde criança isso me incomodava. Pensava: “E se o mundo fosse ao contrário? Se o ‘normal’ fosse mulher namorar com mulher e homem namorar com homem? E se eu percebesse que meu corpo não retratava minha identidade? E se essa sociedade condenasse mulheres que se atraem por homens? Como eu me sentiria?”. Quem para um minuto para fazer essa reflexão perceberá que só existe uma resposta.

Recentemente, vi um projeto incrível do fotógrafo Beto Riginik, @naduvida.tirearoupa . Nele, um dos destaques é Sarita Glow, modelo trans, de 29 anos. Nascida em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, ela se mudou para São Paulo, aos 18 anos, a convite do ex-namorado. “Se você vai ser, saiba ser”, ensinou sua mãe, quando decidiu fazer a transição, na adolescência. Bati um papo com ela para saber sobre seu processo de transição e sobre como anda o nível de aceitação na sociedade. A entrevista a seguir, enche de esperança 🙂

Por que escolheu se chamar Sarita Glow?

Sarita Glow foi um presente do tão maravilhoso universo. Num almoço de família um parente resolveu me chamar de Sarita e, por incrível que pareça, todos de imediato gostaram do nome.  Daí por diante começaram a me chamar apenas de Sarita. Eu amei, claro!

Quando começou a carreira de modelo?

Iniciei em 2011, em São Paulo, a convite da agência Evoke, da qual não faço mais parte. Atualmente tenho feito trabalhos de modelo fotográfica, inclusive, acabo de participar do projeto do renomado fotógrafo Beto Riginik, @naduvida.tirearoupa.

Desde criança sou fascinada pelo mundo da moda e as produções artísticas, onde sempre me imaginei estar. Cada trabalho que faço é um sonho sendo realizado.

Que obstáculos superou para ser modelo?

Na minha época, a modelo trans não era tão aceita no mundo da moda. Mas modelos como a Lea T foi revolucionando o mercado e a sociedade, abrindo espaço para nós. Por isso foi um desafio passar nos testes, que eram muitos, mas ao final sempre vinha a resposta negativa.

Quando se descobriu trans?

Quando criança era muito afeminado, mas por volta dos 11/12 anos tive a certeza que queria ser uma mulher. Mas com apoio da minha família, aos 15 anos iniciei o tratamento hormonal.

Como foi o processo da descoberta de se ver trans?*

Eu me sentia diferente, não gostava da minha aparência e tinha comportamentos afeminados. Mas por volta dos 11/12 anos, tive a certeza e comecei a me libertar, me identificando cada vez mais com o gênero feminino.

Mas foi faltando alguns meses para completar 15 anos, numa conversa com minha mãe, que decidi que queria tomar hormônio feminino. Mamãe então me levou ao médico, que nos orientou, explicando às mudanças que aconteceriam com meu corpo e foi quando tive a certeza e iniciei o tratamento hormonal, com acompanhamento médico na minha cidade.

Como a família reagiu?

Eu sei que tive muita sorte! Graças a Deus sempre fui muito bem aceita pelos meus familiares e, principalmente, pela minha mãe, que sempre foi meu porto seguro. Na escola não foi diferente, tive o apoio da direção e dos professores durante o processo de transição.

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Que ótimo! Como a escola apoiou você?

Certo dia, a direção convocou todos os professores, o conselho tutelar da cidade e minha mãe. O motivo da reunião era para saber como eu estava me sentindo com a transição corporal. Chegaram a me perguntar se eu não me incomodava em usar o banheiro dos professores, já que talvez eu não estivesse me sentindo confortável usando dos demais alunos.  Fiquei tão feliz, pois confesso que eu não me sentia bem e às vezes não sabia qual banheiro deveria usar, se o feminino ou masculino. Na ocasião, também pediram que minha mãe comprasse um sutiã para mim, porque os seios já estavam aparecendo, devido ao tratamento hormonal. Fiquei em êxtase, dando pulos de alegria… (Risos). Claro, sempre tinha um aluno ou outra que fazia piada, na época o bullying era comum. Mas não me afetava, sempre estive segura do que era e do meu espaço, então logo dava uma resposta ao colega… (Risos)

Como foi o processo de transição? Que mudanças fez no corpo?*

Iniciei minha transição aos 15 anos, com os hormônios feminino. Hoje, tenho próteses de silicone nos seios e continuo com o tratamento hormonal. Por ora só foram essas intervenções. Mas me cuido muito, praticando atividades físicas aliada a uma alimentação equilibrada com acompanhamento de especialistas médicos, que ajudam a mente e o corpo neste processo.

Teve medo de fazer mudanças no corpo? Como reagiu e qual a parte mais difícil de se ver transformada?

Não tive medo algum, pois sempre tive total certeza do que queria. E, por ora, tem sido bem tranquila a transformação, além disso, vejo como a realização de um sonho, o que deixa tudo mais leve e fácil.

E hoje, como aceita o seu corpo? E os outros? Há preconceitos?

Eu me acho linda! Me olho no espelho e me amo, me admiro e me apaixono cada vez mais por cada transformação! Zero preconceitos visíveis. Sou rodeada de amigos, familiares e parceiros de trabalho maravilhosos, que estão sempre me elogiando e me colocando pra cima, o que contribui ainda mais para minha estima.

Namora?

Atualmente estou solteira e feliz comigo mesma.

Como se vê no futuro? Quais os sonhos profissionais e pessoas?

Eu me vejo brilhando ainda mais, com as pessoas maravilhosas pelas quais sou cercada desde familiares a amigos, e pela conquista deste sonho sendo realizado nesta transição.

Tenho uma gratidão enorme pela minha mãe, que sempre me apoio. Uma vez, mamãe me disse: “se você vai ser, saiba ser!”. Se referindo a minha transição. Eu vou guardar essa frase para sempre em minha mente, porque ela me faz forte, me faz ter respeito por mim e pelos outros, o que gera um ciclo positivo e respeitoso das pessoas para comigo. Também estou em constante movimento, sou uma pessoa muito alto astral e que busca o bem, quero me manter assim sempre – mesmo com adversidades, que fazem parte da vida – e, com isso, alcançar todos os meus objetivos e sonhos pessoais e profissionais, que estão ligados a modelar, além de ser reconhecida e respeitada ainda mais como mulher, uma mulher de sucesso como eu costumo dizer.

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw 🙂