Olha aí o Kissenger, “gadget” criado para facilitar o beijo na boca à distância – Foto: Reprodução/YouTube

Por Ana Carolina Soares

Sou uma entusiasta da tecnologia desde os anos 1980. Quando completei 15 anos, em 1989, entre uma viagem à Disney e uma festa de debutante, optei por um computador DOS e o chamei de Joshua, em homenagem ao filme Jogos de Guerra”, com o gatinho da época, Matthew Broderick.

Joshua era um assistente virtual, um parceirão do protagonista. Uma ficção que se tornou realidade em um piscar de olhos.

Com a tecnologia dominando o mundo em incontáveis aspectos, o que os gadgets poderão fazer pelo nosso prazer?

Há algumas semanas, o “Wall Street Journal” publicou uma entrevista muito maravilhosa com o pesquisador de comportamento sexual Justin Lehmiller, do lendário Indiana University’s Kinsey Institute. Ele é host do podcast “Sex e Psychology” e autor do livro “Tell Me What You Want: The Science of Sexual Desire and How It Can Help You Improve Your Sex Life”, lançado em 2018.

Perguntaram a ele justamente isso: se a tecnologia vai melhorar nossa vida sexual em alguns anos. Como bom cientista, respondeu um “depende”.

Antes de entrar nessa discussão, vale a pena relembrar alguns conceitos.

Sextech inclui brinquedos sexuais, dispositivos vestíveis, realidade virtual e robôs. Enfim, tecnologia com o potencial de transformar as nossas vidas e ser uma força para o bem, ajudando-nos a explorar a nossa sexualidade e a aumentar a intimidade e a ligação com os nossos parceiros.

“Embora as sextechs hoje sejam muito caras no mercado, deverão se tornar mais difundidas nos próximos 10-20 anos”, diz o Dr. Lehmiller.

Segundo o cientista, tal como a maioria das outras áreas das nossas vidas, incluindo o trabalho e as relações, o sexo tende a se tornar cada vez mais virtual. Embora esta tecnologia esteja a ser concebida tendo em mente o ganho financeiro, tem o potencial de nos beneficiar.

“Por exemplo, sabemos que a novidade é essencial tanto na nossa vida sexual como romântica – a investigação mostra que os casais mais felizes são os que experimentam coisas novas dentro e fora do quarto de dormir. Os seres humanos anseiam por novidades, e é uma experiência de união quando se partilha algo de novo com o parceiro”, diz Dr. Lehmiller.

Kissenger, “gadget” criado para facilitar o beijo na boca à distância – Foto: Reprodução/YouTube

Vamos falar de brinquedos sexuais? 🥰

Alguns brinquedos vão jogar no campo da intimidade, indo até além do sexo. Por exemplo, os robôs serão capazes de segurar a sua mão ou agir de uma forma carinhosa.

Hoje, já existem aparelhos como o Kissenger, o que permite enviar um beijo de longa distância ao seu parceiro.

Funciona assim: você encaixa os lábios contra uma boca artificial e as vibrações passam para o dispositivo do parceiro ou parceira. Ah, sim, a almofadinha também transmite o batimento cardíaco da pessoa amada.

O mais curioso aparece na medicina. Vem aí o implante do orgasmo!

Médicos estudam implantar eletrodos perto da medula espinal capazes de proporcionar um orgasmo com o toque de um botão.

Essa tecnologia pode ser incrível para pessoas com deficiências ou quem tem dificuldade em atingir o clímax.

O risco é que se torne uma espécie de “botão automático” que resumem uma experiência sexual a ir diretamente para o clímax.

Será que as nossas vidas sexuais se tornarão mais virtuais?

Lembra da “cena quente” de O Demolidor”, filme em que Stallone fica passado com a “proposta indecente” de Sandra Bullock, usando um óculos de realidade virtual?

Isso poderá ser nosso futuro, mas com um “plus a mais”: a pessoa poderá escolher qualquer parceiro ou parceira, em qualquer parte do mundo – mesmo um ex, celebridade ou alguém que morreu.

Entra aqui um problema grave sobre consentimento. Imagine o seguinte: se você for a fantasia sexual de alguém, agora, com a VR, isso tornaria a experiência bem mais real. Como se sentiria ao saber que um vizinho, por exemplo, faz seu teto tremer de noite, divertindo-se com a sua imagem e semelhança?

Ao mesmo tempo, o VR permite uma pessoa até “contracenar” com ela mesma. “É uma constante na minha pesquisa: vejo muitas pessoas fantasiarem tornar-se uma pessoa diferente ou em trocar de sexo”, diz o cientista.

Também poderá viver situações em VR que tem medo de experimentar na vida real. Isto poderia permitir às pessoas explorar a sua sexualidade, partilhar as suas fantasias com um parceiro ou ajudar um parceiro a aprender sobre elas.

Há potencial para a tecnologia reduzir a infidelidade, permitindo que as pessoas explorem as suas fantasias ou interajam com outros, sem quebrar os laços da monogamia no mundo real.

É claro que tudo isto pode mudar a forma como definimos “traição”, e algumas pessoas podem não distinguir entre infidelidade virtual e real.

Outro ponto controverso, a falta de privacidade. O que quer que se faça no mundo virtual, haverá alguma pegada digital. Quem tem acesso a isso? E se os seus dados sexuais forem pirateados e revelados publicamente?

Será que ainda nos vamos tocar um ao outro no futuro?

“O toque é uma necessidade humana vital – não há nada que realmente o reproduza”, garante o cientista.

O contato pele com pele liberta oxitocina e tem efeitos fisiológicos que nos fazem sentir ligados a outras pessoas, confortados e acalmados. Será que ser acariciado por um robô liberta oxitocina? Não sabemos. Mas assumindo que o toque robótico não causa as mesmas alterações em todo o corpo e cérebro, então essa necessidade de toque não desaparece.

“Espero que usemos estas coisas como complemento das nossas vidas íntimas em vez de as substituir – como uma forma de explorar as nossas fantasias e acrescentar novidade”, espera Dr. Lehmiller.

E eu também.

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw.