Acima, um shunga “censura livre”, porque as pinturas são bem, mas bem mais “saidinhas” – Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Soares

Você viu o documentário “Sex & Love Around The World”, em cartaz no Netflix? Se não, pode anotar no caderninho para esse programão neste fim de semana! Realizado pela (maravilhosa) jornalista da CNN Christiane Amanpour, são seis capítulos que retratam como se relacionam intimamente seis diferentes culturas (japonesa, chinesa, alemã, indiana, africana e libanesa). Recomendo imensamente, até mesmo para prestar atenção sobre como não somos tãooo diferentes assim.

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A viagem da jornalista começa pelo Japão, uma sociedade em que até selinho em público é tão chocante quanto o nudismo por aqui. Para ter uma ideia, cerca de 40% da população masculina segue virgem. Pois é… Você não leu errado. Uma verdadeira imoralidade ao mesmo tempo em que a indústria erótica jorra com serviços de “ponta”, como robôs sexuais de altíssima tecnologia, bibliotecas especializadas em mangás eróticos e um curiosos clube de mulheres (uma espécie de prostíbulo, em que elas pagam homens para serem abraçadas, levar cantada, tudo, menos sexo).

Até o erotismo é uma tradição no Japão. O documentário mostra em cerca de cinco minutos a história da Shunga, pinturas com sexo explícito. Já havia visto algumas delas, mas confesso que levei um susto ao saber que a maioria foi produzida entre os séculos 16 e 18! Ignorância minha, para mim, era fruto dos anos 70 e olhe lá, de tão ousadas….

Fiquei tão fascinada pela história que resolvi pesquisar mais a respeito. Nasceram na Era Edo (1603 – 1867), período em que xoguns da família Tokugawa governavam a cidade de Edo, atual Tóquio.

Os kanji de shunga (春画) significam “imagens da primavera”, uma vez que a estação das flores é uma metáfora para o ato sexual. Não que os artistas expusessem as obras em praça pública, havia uma regulamentação do governo, mas ao mesmo tempo, representava um lado cultural, místico e educativo.

Naquela época, a religião era o xintoísmo, prática marcada pela liberdade sexual, como uma aliada da fertilidade. Há inclusive um mito belíssimo sobre a criação do Japão, em que os deuses Izanagi e Izanami criaram as oito ilhas durante um “gozo divino”. Por isso, o sexo não tinha uma conotação pecaminosa.

De certa forma, essas gravuras faziam as vezes de “pornhub” daquela sociedade. Mas não só isso. Famílias mantinham uma obra de shunga dentro de casa como uma espécie de talismã para prevenir incêndios. Existem relatos de guerreiros que levavam as xilogravuras de madeira para a guerra. Juravam que davam sorte e inspiração. Além disso, muitas noivas recebiam de presente de casamento, para entender como seria a “hora H”. Os homens já na adolescência tinham acesso às imagens como educação sexual (bem, a mania de empurrar meninos para sexualidade desde cedo não mudou muito no mundo todo).

A maioria das pinturas retrata casais heterossexuais, mas aparecem também amores homoafetivos, religiosas em um “momento divino de solitude”, orgias, algumas, até protagonizadas por divindades, gatos, cachorros e até polvos. Sim, polvos, em que tentáculos faziam as vezes de sex toys. Aliás, colecionadores valorizam muito imagens em que aparece o harikata, se duvidar, trata-se do primeiro “brinquedinho” do mundo: uma espécie de dildo em que as mulheres amarravam no calcanhar para fazer suas “explorações solitárias”. Olha, tentei, mas não consigo explicar melhor do que isso… Só vendo, viu?

Boa parte dos criadores não exibiam seus créditos em suas obras, como Erica Lust ou John Stagliano. Mantinham-se anônimos e substituíam suas assinaturas de forma bem discretinha, na forma de uma espada ou algum outro detalhe na paisagem. Um dos poucos nomes conhecidos é Hishikawa Moronobu, que em meados de 1670 migrou das habituais reproduções de flores, pássaros e gueixas para o animado universo do shunga. A partir dessa época, houve um boom dessa arte, liderado por Moronobu e Sugimura Jihei.

A festa acabou para os artistas no início do século 20. Isso ocorreu porque os japoneses se aproximaram da cultura européia, na época, dominada pela era vitoriana, e, de certa forma, foram “contaminados” pelo “vírus do puritanismo” ocidental. Em 1907, o código penal japonês declarou o material obsceno e proibiu as pinturas 🙁

Ao mesmo tempo, alguns artistas europeus começaram a conhecer as impressões eróticas japonesas. Com os tradicionais traços fortes e cores vivas – marca da arte oriental – encantaram pintores impressionistas e modernistas, além de colecionadores, que pagam fortunas por originais. Hoje em dia, por cerca de US$ 200, dá para comprar uma cópia bem feita em sites como a Amazon 🙂

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw.