Antônio Isupério – Foto: Acervo pessoal

Por Antonio Isuperio

Victor, eu tenho pensando muito nesta carta, sabe. E preciso te contar umas coisas, de homem para homem.

Nestes últimos intensos quase dez dias em que tudo isso aconteceu, tenho refletido muito sobre como nós homens chegamos até aqui e o porquê. Foi assim que foi escrito o texto da denúncia da ofensa proferida à senhorita egípcia e assim será esse papo: honesto e direto. Temos muito mais em comum do que você imagina.

Para começar esta é uma carta convite que acredito só poderia ser entregue agora. Nesse exato momento, sabe, onde tudo parece não ter fim. Algumas informações somente podem ser acessadas depois de uma grande tragédia, tipo caixa-preta mesmo. Não fariam o menor sentido antes.

Então, estamos em 2021, você viu? Existem alguns acordos sociais que foram firmados coletivamente e que algumas atitudes já não são mais aceitas. Um exemplo? Essa “piada”. Agora o nome dela é violência, e não existe mais nenhuma previsão de retrocesso. Nenhuma.

O que existe é essa sensação de saudosismo, isso é bem comum e é normal. Tem uma categoria de pessoas bem parecidas com você: branca, cis, classe média alta e hétero que quer a todo custo surfar no último suspiro do patriarcado que está em completo e certo declínio, como diz minha querida amiga intelectual Helena Vieira, que também escreve por aqui.

Deixa eu te contar: além dessa ideia de homens que se parecem com você, temos homens velhos, gordos, bissexuais, negros, femininos, com deficiência, periféricos, com vaginas e mais uma série de caraterísticas, porque toda categoria é limitada, toda. E também não acreditamos mais que exista nenhum repertório restrito de comportamento relacionado a gênero, por exemplo, um homem pode vestir e se expressar como bem quiser, mas sempre dentro da ética, claro.

Ah, então sobre a piada, é muito recomendado que você faça piada de você mesmo. Poderia ter substituído o que fez por rir de sua ignorância social, já que tocar em uma muçulmana em um país islâmico é um erro bem primário, não é? Rir e brincar com todos gargalhando de você seria ótimo, não seria? Então, a partir de agora, seja você mesmo sempre a sua própria piada. Prometo que vamos todos adorar e esse exercício vai ser transformador. Pode falar de tudo, desde de que seja sobre você, tá?

Acredito que não saiba, mas quando meu amigo Fabio Iorio, que passou alguns minutos pela sua página, veio falar comigo, não sabíamos muito o que fazer, porque ficamos imaginando como ainda existem espectadores tão numerosos em uma página praticamente dos Flintstones. Imaginamos que o “coro” (como dizem em Goiás) do seu pé era grosso para fazer os traquejos daqueles carros pré-históricos mecânicos.

O convite que disse há pouco que seria esta carta é sobre um chamado a novas formas de se organizar a experiência do que é convencionado a ser homem e entender, assim como eu tenho aprendido nestes últimos anos, como estas estruturas organizam as relações de poder e provocam violências sistêmicas. E, tipo, acreditar que o problema é o tubarão quando o patriarcado é o mar. Estamos todos imersos e não se sabe sequer que existe água, porque só se sabe, quando fora.

Vivemos com a falsa concepção da heterossexualidade compulsória, que é um ideia que supõe que todas as pessoas são héteros. Parece bem maluca, né? É tipo acreditarmos que todas as crianças são héteros? Que delírio, né? O meu querido amigo professor Fabio Mariano da Silva fala muito bem sobre este tema, você precisa conhecer.

Por que eu estou te falando isso? Tem um parte considerável de mulheres que não tem nenhuma atração em pinto, nenhuma. E você precisa urgente começar a assimilar isso, porque poderia tranquilamente ser o caso da vendedora de papiros. Como eu gostaria que você conhecesse meu amigo Bernardo Gonzales, como! Ele me ensina muito com a sua própria existência a ser homem.

O que acredito ter sido o agravante dos fatos foi que em todas as suas tentativas de respostas estava muito claro a falta total de reconhecimento do erro. Nem parecia que o Fabio Iorio prontamente tentou entrar em contato com você no privado, não é mesmo? Mas você preferiu expor a ele que aprender, não foi? Como que alguém provido de acesso e educação tem esse comportamento de eterna quinta série? Agora você sabe a importância da educação sexual e racial nas escolas, correto? Ou você acredita que faria essa brincadeira com uma executiva inglesa dona de uma multinacional?

Foi triste que acabamos recebendo outras denúncias e outros relatos à medida que seu vídeo ia se espalhando, sabia? A sensação era que o inferno tinha subsolo e que aquele caso da Copa da Rússia foi em vão. Ao todo foram mais de duas mil mulheres voluntariamente envolvidas no caso. Voluntariamente, acredita?

Cara, não está nada bem conosco. Os níveis de abuso de álcool e suicídios entre nós nos mostram claramente. Tem um autor interessante, Michael Kimmel, que explica que essa masculinidade já é perdida porque é sempre utópica. Essa frustração vem da fraqueza perante a esse suposto poder. Suposto porque é inatingível. O que temos é uma performance e uma performance é uma cópia de um original que nunca existiu. Fantasia.

Me responde, por que você não quis responder no meu post? O que nos leva a rir de forma completamente depreciativa com relação a outra mulher? O que leva nós, homens, a ter essa obsessão pelo pênis ao ponto de o tempo todo verbalizar? E o ódio sobre a genitália feminina, quem vai tratar deste assunto? A gente não se elabora cara, a Bell Hooks sempre disse isso.

Então, espero que este deserto do Egito tenha simbologia do revistar internamente. Saiba que quando você voltar, o mundo vai ser outro, e espero que por dentro também não seja o mesmo. Não entender de gente em um planeta que ainda é de humanos deveria ser considerado uma incapacidade grave, concorda?

Assinado, por quem (mas não só) fez a denúncia.

Antonio Isuperio é Arquiteto há 16 anos e ativista lgbt+ antirracista desde 2015. Graduado em Arquitetura pela Universidade estadual de Goiás e com MBA em varejo pela FGV-SP, passou por empresas como Carlos Miele/M.Officer onde foi responsável pela expansão da bandeira premium em todo Brasil. Posteriormente na Marisa S.A. Desenvolveu projetos de Arquitetura e Visual Merchandising incluindo a autoria do projeto flagship da marca em 2013. Sua pesquisa em Visual Merchandising desenvolvida no Fashion Institute of New York já foi apresentada em diversos eventos de varejo. Atualmente, mora e trabalha em New York e é diretor de relações internacionais do Retail Design Institute e é o responsável pelo projeto de tropicalização da Aeropostale em terras brasileiras.