Antonio Isuperio – Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Por Antonio Isuperio

O que vem na sua cabeça quando pensa em celebração? Aqui, na minha caixa de figuras (como me refiro às imagens que invadem meus pensamentos), vejo um parêntese, em alguma linha do tempo, com um ser que respira e busca consciência. Dentro do contexto popular e colonizado, celebrar carrega sentidos de felicidade, mas também traz consigo ideias ligadas à embriaguês e à gula, esbarrando em devaneios vazios e falta de autocuidado. O que percebemos é que, na etimologia da palavra, existe um mar de esperança.

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Celebrar vem do latim celebrare, “honrar, fazer solenidade”, de celeber, “o que é várias vezes repetido”, logo, “notado, percebido”, portanto, “famoso, digno de honras”. Acredito que na origem temos a chave dos sentidos que precisamos resgatar para que momentos importantes e significativos não se tornem apenas um produto de mercado. Muitas reflexões nos transformaram nestes dois últimos anos, considerados marcos de nossa geração. Pensar em celebração depois deste caos é um ato de bravura e resistência. É importante celebrar quem fomos, porque foi este ser (com o qual não nos identificamos mais) que nos trouxe até aqui e nos ensinou a ser quem somos e quem seremos.

Não acredito que faríamos nada diferente porque também penso que somos sempre a melhor versão de nós mesmos. Essa reflexão me traz ao questionamento: quais as pessoas que nos celebram? Um querido amigo filósofo, Wanderson Dutch, fez um post, recentemente, que me trouxe a provocação: “Quais seriam as pessoas que celebrariam a sua existência?”. Fiquei bastante pensativo nas construções de afeto que exercemos à nossa volta.

Seguir esta vida de chegadas e partidas sem momentos de respiro onde paramos, analisamos e reconhecemos o valor de tudo que tem sentindo, me parece muito vazio. Me vem a imagem de uma corrida maluca e não de um percurso onde o prêmio seriam os encontros e as trocas, além das pedras e flores do caminho. Exercer a esperança diante de tudo o que passamos parece ser um superpoder que nem todos têm condições de manifestar. E tudo bem, mas, se encararmos como uma prática, esta percepção pode contribuir para que tenhamos maior consciência da importância das cerimônias, mesmo quando aparentemente não existam razões. Nunca se esqueça, você é o maior sonho de seus ancestrais.

Esporte inclusivo

Antonio Isuperio - Iniciativas que merecem ser celebradas
Foto: Divulgação

Um time de futebol ou futsal é, antes de tudo, um coletivo de pessoas unidas perseguindo os mesmos valores e acreditando que a prática esportiva é direito de toda e qualquer pessoa. O Sport Clube T. Mosqueteiros surgiu assim, da vontade de muitos de proporcionar a pessoas trans masculinas esporte, acolhimento e apoio. Quem apostou no time e o tornou realidade foram Geey Cristine, Tatto Oliveira e Gabriel Cardoso, de maio de 2019 até fevereiro de 2020, quando, em função da pandemia, todas as atividades foram suspensas.

Em setembro, o time voltou repaginado, com foco em seguir o propósito de acolher pessoas trans em espaços seguros para a prática esportiva – o capitão é Matheus Oliveira da Silva. Trans masculinos, no geral, têm pouco ou nenhum espaço de socialização ou integração. Este grupo tem sido lugar de desenvolvimento de senso de pertencimento a cada um de de seus integrantes, o que faz toda comissão acreditar que está no caminho certo.

Moda de terreiro

Antonio Isuperio - Iniciativas que merecem ser celebradas
Foto: Divulgação

Formada em Design de Moda, Talita Verona costura desde os 15 anos de idade. Com seus tios e tias aprendeu não só a manejar as máquinas, como os cortes e traços da arte de alfaiataria. Talita vem somando aos cortes clássicos as estampas arrojadas, o colorido e a alegria dos tecidos africanos, produzindo atitudes em forma de roupas e acessórios. Além disso, ao voltar-se para a ancestralidade negra, por meio de seu contato com o candomblé e a umbanda, reconstitui a história de um povo por meio da moda.

Abraçando as tradições afro-religiosas, promove uma releitura do vestuário dos terreiros e os lança para uma utilidade que vai ultrapassar o tempo das celebrações e chegar no cotidiano do nosso povo, como uma forma de valorizar elementos de resistência em arte. A estilista aprimora seu aprendizado e aprofunda a sua africanidade ressaltando a alegria e a felicidade do povo negro em suas peças. A história e o significado dos tecidos e estampas, sua relação com a mística do sagrado e o pertencimento cultural refletem o novo tempo em sua arte: que todos possam ver os sentidos da luta negra ali inscritos.

Ampliando interseccionalidades

Antonio Isuperio - Iniciativas que merecem ser celebradas
Foto: Divulgação

Entre o racismo que marca socialmente a negritude, como característica desumanizadora de pessoas, e o capacitismo, que elimina a identidade racial da pessoa preta com deficiência, surge o Quilombo PCD. O coletivo parte desta encruzilhada, entre ser preto e pessoa com deficiência, e se ergue nesta intersecção para que não mais se tenha que escolher entre o não lugar da raça e o não lugar da deficiência.

Dentre seus objetivos, busca expandir a compreensão do povo preto sobre os perfis de pessoas que compõem a sua história no Brasil assim como ampliar a luta pela humanização da pessoa com deficiência a partir do viés de raça.

“Não considerar as pessoas pretas com deficiência na luta antirracista é eliminar a sua negritude. E não considerar a negritude das pessoas pretas com deficiência na pauta anticapacitista é limitar a luta pela humanização destas pessoas”, diz o presidente do coletivo, Marcelo Zig. O Quilombo PCD as empondera com o questionamento: as suas lutas são antirracistas e anticapacitistas?.

Antonio Isuperio é arquiteto e ativista LGBT+ antirracista. Atualmente, mora e trabalha em New York, onde é diretor de relações internacionais do Retail Design Institute. Compõe a consultoria de diversidade de Alexandra Loras.