Antônio Isupério – Foto: Acervo pessoal

Por Antônio Isupério*

Oi, tudo bem? Espero que sim. Tudo bem… digo, na medida do possível porque não acredito que estejamos coletivamente felizes frente a todo este panorama que estamos vivendo, não é? Mas, estar de pé é um ato de resistência que aprendi muito cedo, até cedo demais, já que a maioria dos meus não conhece o ócio e provavelmente não irão nesta existência.

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Mas já que sou novo por aqui, com todas as significâncias e simbologias que esta chegada possa ter, eu preciso me apresentar, como indivíduo e como classe, já que como negro e LGBT+ eu não existo para alguns dos leitores de respeitada revista de moda como esta. E olha, nós negros somos a maioria neste País e, nós negros LGBT’s+ somos também a maioria dentro de todas a letras do arco-íris, então por onde será que estivemos todo este tempo?

Vem comigo nesta provocação. Eduardo Moreira diz que para saber o quanto um corpo negro trabalha no Brasil é só subtrair 10 anos de sua idade, o que no meu caso e provável que de muitos deveremos subtrair 7 e até mais, porque foi quando comecei a trabalhar com meu pai. Quando eu falo trabalhar, é trabalhar mesmo, eu atendia clientes de nossa vidraçaria sozinho. Era só meio período porque no outro período eu estudava. Com nove eu já dirigia carro e moto suficiente para ir a outras cidades vizinhas trabalhar com meu irmão de 7, o que fiz desde começo dos anos 90 em uma cidade do interior de Goiás de 20 mil habitantes, chamada Ipameri.

Alguns de vocês estarão lendo pela primeira vez um autor negro e então eu peço afeto, porque ainda não nos conhecemos e existem barreiras sofisticadas demais entre nós para que possamos entender assim em nosso primeiro encontro. Eu sei, isto não é minha culpa e nem sua, mas, continuarmos como se fossemos estranhos tem causado consequências muito trágicas a nós todos, mais até a nós do que todos.

Dona Badia – Foto: Acervo pessoal

Por que motivos você acredita que não me vê por aí? Tá, eu sei que eu cheguei ousado tipo a nossa Elza Soares (respeitando a minha pequenez perto da rainha), mas tive que ser muito franco com você, uma coisa que tenho aprendido muito com o querido amigo chamado Raul Santiago (@raullsantiago). Papo reto meu, né, meu irmão? Então… não venho só, e assim fui socializado: no coletivo. Vai ser comum sempre apresentar alguém por aqui e é com todas estas mãos que estou construindo este texto, porque para me conhecer de verdade, é preciso conhecer também a Dona Badia (minha vó), que já é um lenda na nossa história. Ela, que sempre percebeu todos na base da equidade, tinha uma visão potente e de transbordante inteligência social, e hoje percebo que, só uma mulher preta pode ter este superpoder por ser o único indivíduo social de nossa configuração existente que tem uma perspectiva completa e panorâmica da sociedade performada hoje.

Por isso que eu venho no coletivo: do movimento negro, do movimento LGBT+ antirracista (importante escurecer este fato) e dos momentos de compartilhamento familiar de biscoitos da Dona Badia, onde aprendi muito do que sei, então desculpa se minha mão estiver com um pouco de farelos, eu aprendi a cozinhar também muito cedo, antes mesmo de dirigir.

Carrego comigo a história de muitos que sobreviveram violências inimagináveis para que eu pudesse me sentar aqui e digitar com segurança essa partilha de pontos de vista que são cegos para alguns, porque estão estruturados em sistemas de opressão muito sofisticados, mais sofisticados até que a alta costura. E, que da forma que configuramos a nossa sociedade hoje, diferentemente da indústria da moda, não permite reparos.

O meu texto é um pouco duro (mais que o biscoito de polvilho), mas eu quero e preciso que você fique (mesmo sem o bolo de fubá), porque preciso que você me escute, porque precisamos conviver melhor e construir um melhor lugar para todos que virão também. E quem sabe depois de me conhecer um pouco melhor você possa começar a enxergar os meus na sua casa, na sua rua e em espaços de privilégio com este aqui, e que você também possa olhar nos olhos deles e responder o oi, mesmo que com o olhos. Aí, sim, pode chegar que vai ter pamonha.

Esse poder da invisibilidade com que nasci, eu nunca pedi mas, se você começa a me enxergar, não tem volta e será mais leve a todos e você também terá poderes. Independentemente das situações que aqui me trouxeram, é uma honra aqui estar falando com vocês. É como se tivesse chegado meu momento de apresentar o que venho construindo nestes quase quarentas anos, sabe? Eu estou até me sentindo na minha formatura de quarta série, sabe? Que minha mãe fez escovinha no meu cabelo e usei a minha primeira gravata. Mas o que tudo isso tem a ver? Então, é que precisamos normalizar o corpo negro (e, no caso, também LGBT+) a estar em espaços de formação de opinião e de construção de perspectiva, sabe? Porque se não ficará muito difícil percebermos que África é o continente mais rico do mundo, por exemplo, e seus herdeiros vão deixar de ser órfãos.

Pode ser até que não se sinta conectade com a minha história, mas já pensou que para alguns será a primeira vez que estarão se enxergando em um texto aqui nessa tela prêt-à-porter? Você viu, né, migue, foi outra violência a vários corpos negros que resgataram o debate de “vidas negres importam” no último ano. Não podemos mais. Vivemos no País que mais extermina corpos negres no mundo, então eu nem sei como cheguei aqu

De acordo com a Anistia Internacional, assassinamos mais do que todas as guerra do Oriente Médio juntas, só no Brasil. É como se um avião caísse a cada dois dias de “eus”. E mesmo com vergonha preciso te falar que a sua fé (ou da maioria dos brasileires) assinou esse tratado social e ainda hoje tem bastante responsabilidade nessa atuação. Então, sempre quando vier aqui conversar comigo, lembre-se que na minha amarelinha da vida eu pulo dois aviões de cadáveres irmãos quase todos os dias. Por isso que brancos e não negros acreditam que têm a liberdade permitida de invadir, tocar e violentar nossos corpos, eles já estão entregues. Se acredita nesse pacto social (silencioso, tá, a gente finge que não existe) que não temos valor e humanidade.

Podem anular nosso cabelo, nossas identidades, nossa expressões de espiritualidade artísticas e culturais. Você imagina quantos empregos eu já perdi só porque não quis raspar meu cabelo? Você sabia que conseguir emprego com seu cabelo natural é privilégio em um País como o nosso? Já imaginou que tem muita gente que morre por ter nascido com cabelo crespo? Então, eu saí daquela amarelinha necropolítica e chego na entrevista de emprego e meu cabelo tem mais importância que meu MBA na FGV. Antes de você ir, beba uma água e respira. Eu queria te contar, mas é de coração: eu tô exausto. Eu amo ser ativista, mas é mais um trabalho não remunerado condenado aos meus que toma muito de nós. Enquanto inteligência social não for recompensada e reconhecida nas corporações, eu preciso que você me escute, mesmo que sem ninguém ver. Vó, eu te disse que contaria.

 

*Antônio Isupério é arquiteto há 16 anos e ativista LGBT+ antirracista desde 2015. Graduado em arquitetura pela Universidade Estadual de Goiás e com MBA em varejo pela FGV-SP, passou por empresas como Carlos Miele/M.Officer, onde foi responsável pela expansão da bandeira premium em todo Brasil. Posteriormente, na Marisa S.A., desenvolveu projetos de Arquitetura e Visual Merchandising incluindo a autoria do projeto flagship da marca em 2013. Sua pesquisa em Visual Merchandising desenvolvida no Fashion Institute of New York já foi apresentada em diversos eventos de varejo. Atualmente, mora e trabalha em New York e é diretor de relações internacionais do Retail Design Institute. É o responsável pelo projeto de tropicalização da Aeropostale em terras brasileiras.