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Por Maria Homem*, em depoimento a André Aloi

Bares cheios, festas clandestinas, rotinas de trabalho neurotizantes. A ansiedade tenta construir incessantemente “o novo normal” como se, no fundo, fôssemos cães adestrados buscando mais normas e coleiras para poder viver, mas de um jeito suicida e contaminante. Se tivéssemos a coragem de nos deixar penetrar por doses de disrupção, mudar o curso das nossas histórias, talvez fôssemos uma espécie mais criativa e menos aprisionada. No entanto, sou cética em relação a isso.

Uma pandemia como a que estamos passando conjuga dois fenômenos. O primeiro é a ameaça de um vírus invisível, potencialmente letal e de funcionamento enigmático, podendo deixar sequelas nada gentis nos sistemas renal, neuronal e digestivo de um corpo – até então – medianamente saudável.

Por outro lado, até a chegada da tão aguardada vacina, a única estratégia viável é a quarentena, o isolamento social, confinamento ou como queira chamar esse inédito (e por vezes insuportável) processo de se afastar de outros mamíferos humanos.

Esse momento é uma lupa, queiramos ou não. Se você não se depara com o que fez de sua vida até aqui, louvando ou lamentando os caminhos percorridos e as infinitas microescolhas que te levaram até onde você está, aqui e agora, é porque não está entendendo alguma coisa de fundamental.

Nesse sentido, é inevitável surgir um sentimento e um pensamento de interrogação, que podem levar à busca de um processo analítico. E as pessoas que se deparam com essa pergunta, em meio ao confinamento, podem iniciar uma viagem. Cabe, a cada um, analisar seus pensamentos e palavras, atos e omissões, como diria a oração da Igreja Católica.

Todos aqueles que tiveram justamente a coragem de olhar para si e para o mundo, com o mínimo de filtro, assumiram a sua realidade. E puderam analisar as consequências do que esse olhar revelou. Para, a partir daí, fazer o que fosse necessário: matar ou morrer, viver ou renascer, juntar ou separar, desviciar ou libertar.

Eu mesma interrompi outros processos para escrever, já que a proposta do livro que acabo de lançar pedia o calor da hora. Aceitei, me arriscando. Só o tempo dirá o quanto nos equivocamos na leitura do momento.

Mas, sem dúvida, esse ensaio foi uma oportunidade de elaborar as muitas coisas vistas, vividas e escutadas neste ano tão ímpar de 2020. Como sempre digo, minha vida se dá em uma espécie de engrenagem triádica: escutar (na clínica, no jornal, na esquina, no livro e na vida) com todos os radares sintonizados, elaborar pela fala (na aula, na entrevista, na live) e transmitir pela escrita – aquela atividade ingrata, em que se gasta meses e, por vezes anos, para se burilar uma estrutura que será lida em poucas horas.

Enfim, escutar, falar, escrever. O que propicia novas escutas e, assim, a roda gira. Até a gente deixar de escutar e morrer.

Parodiando um dos gênios da música brasileira, Vinicius de Moraes (na letra de Sei Lá [A Vida Tem Sempre Razão], eternizada nas vozes de Tom Jobim, Chico Buarque e Miúcha), a reinvenção é um descuido da repetição.

As forças de repetição, de retorno ao mesmo, enfim, as forças que gravitam em torno das pulsões de morte jamais devem ser menosprezadas. Porque talvez a morte seja assim mesmo, uma interrupção, por vezes cruel e abrupta. A nós cabe elaborar esse impossível. Transformação é quando conseguimos fazer esse escape, aproveitar a fresta do descuido da vigilância, e inaugurar o novo, naquele ínfimo instante da oportunidade, que os gregos chamariam de Kayrós, um dos deuses do tempo.

*Maria Homem é psicanalista, pesquisadora e professora universitária, com pós-graduação pela Universidade de Paris, e, entre outras obras publicadas, é autora de “Coisa de Menina?”, “No Limiar do Silêncio” e da Letra e do recém-lançado “Lupa da Alma: Quarentena-Revelação” (Editora Todavia).