Ilustração: Luisa Aguiar
Ilustração: Luisa Aguiar

Por Camila Garcia e Luigi Torre 

Ok, o País está em crise, a economia desacelerada e as lojas, em geral, mais vazias. Mas existe um comércio bastante aquecido nas marcas de luxo, muito além dos corredores dos shoppings, que quase ninguém vê e sabe, principalmente se você não for um VIC. Os very important clients são uma seleta lista de compradores, cerca de 50 pessoas por marca no Brasil, segundo Bazaar apurou. Em comum, além de um gasto anual elevado, claro, a vontade (e a possibilidade) de não ir a um shopping para ter acesso aos últimos lançamentos. Evitar ser visto carregando várias sacolas por aí também conta. E isso não tem a ver com o hábito de fazer compras online, ainda que algumas dessas marcas ofereçam essa opção. É o luxo do anonimato, que carrega consigo uma espécie de “submundo” às avessas de privilégios.

O primeiro deles é receber em casa uma arara de sua label favorita com peças previamente editadas por alguém que já conhece seus gostos, corpo e lifestyle a cada troca de coleção (são elas as maiores consumidoras do prêt-à-porter). Essa venda a portas fechadas é tão intensa que representa, para a maioria das marcas, por volta de 50% do faturamento. E isso ninguém vê. “A cliente fica constrangida de que a babá veja o quanto ela gasta numa tacada, por exemplo. Ela pode experimentar com calma, mostrar para o marido… Hoje em dia, as pessoas mais ricas não gostam de ostentar. Os vendedores são treinados para que esse tipo de mulher entre no nosso radar e se torne uma VIC”, explica a relações-públicas de uma das maiores grifes em operação no País, que não está autorizada a se identificar. Afinal, o sigilo aqui é a alma do negócio.

Esse modus operandi criou um verdadeiro mercado das “sacoleiras” deluxe, que começou com o fim da era de Eliana Tranchesi e suas dasluzetes. As meninas, todas bem-nascidas, conviviam e conheciam o gosto de suas clientes. E, depois do fim dos importados na loja, passaram a prestar o mesmo serviço por conta própria. Nesse caso, isso funciona, principalmente, nos estados em que as grandes marcas não estão presentes.

Detectada a VIC, o trabalho começa a ser mais de relacionamento com a consumidora, e não só de venda. É aí que entra um outro tipo de profissional, um cargo mais específico que engloba as funções de gerente, personal shopper e RP. Todas as marcas têm o seu (Bazaar conversou com seis delas). Além de oferecer produtos mais direcionados e, consequentemente, com vendas mais certeiras, esse profissional é o principal elo entre cliente e maison. Começa assim mais um capítulo desse “submundo”.

Ilustração: Luisa Aguiar
Ilustração: Luisa Aguiar

Entre os VICs, existem os mais VICs. No Brasil, eles são entre cinco e dez pessoas, dependendo da marca. Os gastos? No mínimo US$ 100 mil por ano, recompensados com coisas que o dinheiro não pode comprar, que não estão à venda e que têm a ver muito mais com conhecer e participar do universo e história de cada casa.

Exemplos? Convites para a primeira fila dos desfiles ao redor do mundo e atendimento preferencial nos restaurantes e hotéis que algumas marcas possuem são o básico.

A Hermès promove um evento equestre anual, o Saut Hermès, exclusivo para os clientes, no Grand Palais, em Paris. São convidados, com todas as despesas pagas, bien sûr, cinco casais de cada país onde a etiqueta francesa tem loja. Durante a estada, eles têm ainda um roteiro personalizado e um jantar para conhecer a família dos fundadores da marca. “Por meio dessas experiências, o cliente vivencia de perto nosso espírito e conhece mais a fundo nossa história e valores”, diz o comunicado oficial.

Uma vez a Louis Vuitton mandou fazer um ovo de Páscoa só para colocar uma joia de US$ 500 mil que um cliente havia comprado. Os presentes são sempre os que não podem ser comprados na loja, feitos especialmente para eles, como almofadas de cashmere, minibaús e até um snow globe.

A Cartier promove quatro eventos por ano para os melhores clientes de alta joalheria. Cada edição num lugar mais incrível que o outro. No ano passado, na Riviera Francesa, os super- VICs foram levados de helicóptero apenas para ter uma aula de culinária com um chef estrelado Michelin. O céu não é mesmo o limite quando se é um VIC.