Ariadna – Foto: Glauber Bassi/Divulgação

Diogo Rufino Machado

Primeira mulher trans a participar do “Big Brother Brasil”, Ariadna Arantes, embaixadora do cosmético para cílios Flash, conta com exclusividade para a Bazaar sua experiência de sobrevivência – tanto na TV quanto na vida real. Leia na íntegra:

Quando você entendeu que era mulher? Como foi sua transição?

Desde criança, sempre me identifiquei uma menina. Eu nunca gostei dos trejeitos do meu irmão. Jeitos masculinos. A forma de se vestir. Me lembro quando era criança, eu gostava de colocar nas roupas escondidas da minha mãe e amarrando toalha na cabeça. Isso é uma coisa que já vem comigo desde criança. Desde cedo eu sempre soube que eu queria ser uma menina. Só que eu tinha uma família muito pobre. Muito ignorante. A minha mãe tinha pouco estudo e problema com alcoolismo. Então, eu não sabia nem o que era ser mulher, menina, o que era ser trans. Era uma época que era muito vazia de informações. No decorrer dos anos, tive a primeira oportunidade de me vestir mesmo como uma mulher. Eu lembro que foi uma fantasia. Foi uma festa de Halloween. E eu me vestido de Mortícia. Eu acho que eu fiquei assim com um vestido e eu vi expressões femininas no meu corpo. Sempre tinha a cintura muito fina. Eu era um menino com o quadril e as pernas longas. E isso era uma coisa que me fazia sentir constrangida. Eu sempre tive corpo feminino, desde criança.

Como é ser mulher trans no Brasil?

Ser mulher trans no Brasil gente é muito difícil. Todo tempo a gente tem de explicar o que é e o que não é. Já começa também que eu acredito que o simples fato de chamar “mulher trans” é um rótulo. Porque já diferencia de outras mulheres. E quando conseguimos mostrar a clareza de uma verdade, as pessoas falam que tudo é “mimimi”. Por exemplo, agora eu tinha sido convidada para fazer um trabalho para uma emissora de TV com meus outros companheiros de “No Limite”. Voltei da Itália com a maior pressa. Antecipei minha volta. E, de repente, fui desconvidada. Até aí, tudo bem. Até porque cada um escolhe o que quer. Mas aí eu percebi que os únicos dois LGBT, o Mahmoud e eu, não estávamos nesse projeto. Então a gente vê que realmente tem alguma coisa. Tem um detalhezinho. Então, ser trans no Brasil é isso. O tempo todo ser boicotada, excluída.

As mulheres trans no nosso País não têm muita opção e acabam na prostituição? Como foi essa fase para você?

Foi um período onde eu realizei muitas coisas. Seria muito hipócrita da minha parte falar que eu não realizei. Consegui fazer todas as minhas cirurgias, ajudei minha família e comprei uma casa. Porém, tem um lado obscuro atrás disso também, que mexe muito com o psicológico da gente. Eu precisei fazer várias vezes terapia, até para a minha vida pessoal mesmo. Porque eu não conseguiria associar amor e sexo, por exemplo. Quando eu tinha um namorado não conseguia ter relação sexual, pois, na minha consciência, tinha a ligação de que sexo é coisa de pagamento. Sexo era uma coisa muito suja. Sexo era uma coisa muito mecânica. Não gosto de fazer apologia à prostituição, mas ela já salvou algumas pessoas. Você tem que ficar o dia inteiro trancada dentro de casa para ficar esperando cliente. Ou então, se você trabalha na rua, você fica na beira de estrada, como foi o meu caso. Cheguei a Itália em 2004 e fiz um acordo com a cafetina de pagar 12 mil euros, mas obrigatoriamente tinha de ficar na beira da estrada com a temperatura a -7ºC. Nunca cheguei a fazer prostituição no Brasil. Tive experiência, mas a minha experiência mesmo foi lá fora, na Itália, Espanha e França.

Você foi a primeira mulher trans a participar do BBB? O que você fez para entrar lá, foi seletiva normal?

Na verdade, eu era amiga de um fotógrafo e ele sempre falava: “Eu acho que você tem o perfil. Por que você não vai?” Mas eu não acreditava muito. E aí surgiu um burburinho que eles queriam uma mulher operada. E aí eu falei para o meu amigo que ia tentar. Tanto que eu me inscrevi no último dia, faltando duas horas para acabar a inscrição. Eu não tinha uma consciência militante naquela época. Porque eu vivia como uma mulher cis, normal, vivia a minha vida. Mas, depois que eu saí da casa, comecei a entender a grandeza desse ato social que foi participar do “Big Brother” e que vem me acompanhando até hoje.

Você já pensou algum dia em desistir em virtude do preconceito?

Nossa, várias vezes. Porque eu tinha uma exposição e era uma época também que muitos haters. Eu ganhava mil seguidores por dia no meu perfil. Só que era muita ofensa e aquilo me machucava demais. Eu era convidada para tudo que você pode imaginar de programa de televisão para falar sempre as mesmas coisas. Mas na hora do bem bom, que era camarote de cerveja, de escola de samba, de festa, ninguém me convidava. Então eu ficava com a pior parte da fama. Eu só era exposta pelo que ele sou, então eu me sentia um bicho de zoológico, sendo apedrejado. Porque eu só servia para ficar respondendo polêmica, para ficar falando de polêmica. Só saia matéria minha quando eu estava de biquíni na praia e as coisas boas que eu fazia, ninguém via. Isso é uma coisa que até hoje. Quando faço alguma coisa grande e importante. Não estão nem ai. Isso infelizmente é algo que acontece muito comigo por eu ter tido esse destaque de ter sido a primeira mulher trans, em uma época onde só existia a Roberta Close. Hoje, graças a Deus, eu já consegui mudar esse quadro da minha imagem. Para você ter uma noção quando eu recuperei meu Instagram porque eu cheguei a perder meu Instagram, mas depois de conseguir recuperar, eu era seguida por 78 por cento de homens. Era só homem no meu instagram. Não tinha mulheres. Eu batalhei muito e hoje o meu perfil é seguido por 68 por cento de mulheres. E, nossa, que alívio. Porque assim eu aguentava mais aquele assédio o tempo todo. Muita mensagem. Muito nudes. Poderia estar na Igreja, fazendo uma foto na Igreja em Amsterdã, mostrando a obra de algum artista. Aí tinham lá, olha que gostosa. Era muito chato isso.

Como foram as experiências tanto do “BBB” quanto do “No Limite”?

O “No Limite” é uma prova de resistência do início ao fim. É um programa de esporte quase, de aventura. Já o “Big Brother”, pelo fato de ter pay per view, você consegue acompanhar tudo o que está sendo dito. Venho do uma época em que as pessoas também não tinham pay per view direito. Hoje, todo mundo tem porque querem ficar mais antenados. No “Big Brother” fui a primeira eliminada. Em “No Limite” fui a terceira. Tem essa diferença: já sai no lucro.

Por que a trans brasileiras escolhem a Itália?

Eu voltei de vez a morar no Brasil e estou no Rio de Janeiro por enquanto. Pretendo em breve ir para São Paulo. Acho que o fato das mulheres trans irem para a Itália virou um meme: “Bom dia Brasil. Boa Noite Itália”. Fui para lá para poder trabalhar e depois, com o tempo, me casei e me separei do meu marido. Voltei para Itália para buscar a minha gata e entregar meu apartamento. Depois do programa “No Limite”, começaram a acontecer alguns trabalhos para mim, principalmente de influenciadora.

Como é viver de criação de conteúdo? As marcas apoiam mulheres trans?

É complicado, pois são poucas as empresas que entram em contato. Na hora de pagar, pagam bem menos. Eu não vou citar nomes de marcas aqui, mas teve ações que os meus companheiros de programa fizeram, com bem menos seguidores do que eu, e ofereceram quatro vezes a mais para eles do que apra mim. Agora estou montando uma equipe de videomaker e um editor, pois antes fazia tudo sozinha: me preocupava com a luz, com filmagem, com áudio, com edição e com a maquiagem. Agora estou voltando com um empresário, com uma equipe.

Se pudesse deixar um recado para o Brasil, leitores da Bazaar e para o Mundo, qual seria?

O meu recado no Brasil, para as empresas e para as pessoas é que todos nós somos seres humanos e consumidores. Para eles pararem de ficar nos distinguindo de outras pessoas. Sou uma mulher e passei por uma transição, mas eu sou consumidora da moda. Sou consumidora de conteúdos. Sou consumidora de tudo. Então, acho que tem que ter espaço para todos. Por que não uma mulher trans fazendo publicidade para uma marca de lingerie? Que as empresas consigam olhar para a gente como criadoras de conteúdo e não somente para datas específicas.