Adriana Marto – Foto: Arquivo Pessoal

Por Carolina Camargo

Adriana Marto brinca que conseguiu a maioria de seus trabalhos em balcões de bar. “Eu acho isso muito engraçado, mas é real. Os convites sempre chegaram de um jeito despretensioso. Comendo e bebendo as pessoas ficam com a guarda baixa”, acredita a artista plástica e arquiteta urbanista.

Amiga de Facundo Guerra, o empresário a chamou para ilustrar as paredes do Bar dos Arcos, no subsolo do Theatro Municipal de São Paulo. “Lá, conheci o Jimmy Keller, da organização que administra o Theatro. Foi conversando que recebi uma proposta de emprego”, conta.

Formada pela Escola da Cidade, o primeiro trabalho de Adriana foi no Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) de São Paulo. “Na época, participei do projeto de revitalização do Municipal e de cinemas de rua, como o Olido. Demorei a aceitar o convite para voltar para o Theatro, mas é como se ele fosse meu filho mais velho”, fala.

Adriana confere a obra de Adriana Varejão no Instituto Inhotim, em 2019 – Foto: Arquivo Pessoal

Coordenadora de Relações Institucionais e chefiando uma equipe de 25 pessoas, a arquiteta é responsável pelos projetos educacionais, eventos, parcerias e patrocínios. “Principalmente nos dias de hoje, trabalhar com cultura é defender algo que, de fato, o governo não preserva. Você se sente remando contra a maré o tempo todo. É exaustivo!”, afirma.

Uma das principais batalhas de Adriana é a conscientização da necessidade, da valorização e do acesso democratizado à cultura. “Quero que entendam que o Theatro é para todos. As pessoas veem orquestras como uma coisa elitista e eu quero quebrar esse conceito com a ajuda de patrocinadores e ações educativas. Desde cedo, as crianças precisam ter uma experiência boa com o teatro e criar uma relação. Também acho que falta um incentivo de nós, que temos o acesso, para as pessoas que não se sentem parte desse universo. Às vezes, uma conversa já ajuda o outro a pensar diferente”, pontua.

Com a pandemia, Adriana teve de encontrar soluções para continuar atraindo público. “Estamos fazendo lives para contar a história do Theatro e tirar dúvidas. No canal do Youtube, colocamos apresentações de óperas e orquestras”, explica. “Depois que isso passar, eu acho que as pessoas vão sentir a necessidade de viver mais a cidade e fazer novas descobertas no entorno onde vivem”, diz.

O borzoi Sal e a estátua de porcelana idêntica ao cão, garimpada na quarentena – Foto: Arquivo Pessoal

Filha de portugueses e nascida na Vila Madalena, Adriana sempre teve uma paixão por São Paulo. Diz que suas memórias de infância remetem a construções do centro da cidade, em especial aos prédios de Artacho Jurado. Não à toa, hoje mora no Edifício Viadutos, projetado pelo arquiteto em 1956. “Sempre tive esse prédio em minha memória. Desenhei uma série de ilustrações só com edifícios icônicos de SP”, diz.

Por incentivo da mãe, Silvia, desde criança era afeita aos trabalhos manuais e começou a desenhar logo cedo. “Eu trocava feliz uma Barbie por um estojo de canetinhas”, relembra.

A artista plástica sempre encontrou realização em trabalhos mais lúdicos e, aos poucos, suas ilustrações foram ganhando um espaço maior em sua trajetória. Com projetos feitos para bancos e marcas de bebida, ela recebeu uma proposta da editora Gente para criar o livro de colorir “Meu Refúgio Perfeito” (2015). “Me deram uma semana para desenhar 96 ilustrações à mão. Eu não podia perder uma oportunidade como essa, mas depois caí doente”, relembra.

Ilustração feita por ela do edifício Lausanne (1958), do alemão Franz Heep – Foto: Arquivo Pessoal

Sua arte também ganhou espaço na TV, graças a um convite do arquiteto Marcelo Rosenbaum para participar do programa “Decora”, no GNT. Adriana ainda passou a fazer branding, identidade visual e logotipos para bares e restaurantes. Com exposições em Nova York e Barcelona, prints de suas ilustrações podem ser encontrados na galeria Arbó. “Meus desenhos são em preto e branco, pontilhismo e hachuras. Refletem muito quem eu sou”, explica.

Com a pandemia, ela também decidiu fazer parte do Conselho do Memorial dos Povos Indígenas. “Se tem um ponto que o Brasil precisa gritar em voz alta é questão dos índios e o que anda acontecendo”, opina a arquiteta, que também colaborou com a SP Invisível e o Projeto Por Nossa Conta.

“Faço questão de ajudar tudo o que envolve questões sociais e culturais. Não é só sobre doar dinheiro. Existem muitas outras coisas que podem ser feitas. Você pode doar seu trabalho, fazer pontes. Por que não pensar em como ir além?”, questiona.

Quiz

No coração

Meu cachorro Sal, de 6 anos. Adotei com 40 dias de vida. É meu grande companheiro.

Na cabeça

Uma das minhas grandes inspirações é a Lina Bo Bardi, porque ela sempre pensou em urbanismo e na convivência em
seus projetos. Essa conversa da cidade com as pessoas é um dos temas mais importantes da atualidade.

Na pele

Eu tatuo como hobby, mas considero algo muito íntimo, então, só faço para amigos e conhecidos.

No papel

As pessoas têm medo de desenhar porque têm apego ao realismo. Não entendem que o desenho é uma forma de se expressar. Se você consegue passar a mensagem que quer, o traço já cumpriu sua função. Não precisa ser perfeito. Não existe errado na arte

Na boca

Adoro os drinks do Bar dos Arcos e do Fel, o steak tartare do ICI Bistrô e almoçar no restaurante Mocotó.

Na memória

Meu pai, Adriano Braz (Russão), era diretor da escola de samba Pérola Negra.

Nas ruas

Gosto de caminhar e reparar nos detalhes dos prédios, das calçadas, nos grafites e nos pichos, que são crus e sinceros.