Camila Farani – Foto: Etyla Mariely

Por Vand Vieira

Apresentada em um livro de mesmo nome, oceano azul é uma estratégia de negócios que, basicamente, consiste em parar de tentar superar a concorrência e, em vez disso, criar novos mercados. Na época com 20 anos, a carioca Camila Farani não sabia, mas aplicou esse conceito ao sugerir que a cafeteria e tabacaria da família, aberta após a morte de seu pai, servisse café gelado – algo ainda pouco popular no Brasil.

“Trabalhava lá havia quatro anos, por uma necessidade de caixa, e comecei a achar tudo muito monótono. Então, propus para minha mãe aumentar nosso faturamento em 30% em troca de um percentual na empresa”, relembra. “Incluí cinco opções na carta de cafés e pensei em uma divulgação focada no nosso público, 90% masculino. Não bati a meta por pouco, mas ganhei o percentual pelo empenho na execução da ideia e porque o aumento no faturamento foi o maior até aquele momento.”

Sempre atenta, criativa e inquieta, notou um crescimento no interesse dos clientes por alimentação saudável e decidiu abrir um restaurante que, após um reposicionamento de marca, passou a se chamar Farani Fresh Food e ganhou a atenção de Sérgio Bocayuva, ex-presidente do Mundo Verde, que planejava uma franquia de restaurantes similares ao de Camila. “Fui convidada a assumir o projeto e entrar na rede como diretora-executiva e sócia. Só que, depois de dois anos no cargo, me vi infeliz. Percebi que não queria ser uma diretora-executiva, e, sim, uma empreendedora”, diz.

Foi aí que, por incentivo de um amigo, conheceu o investimento anjo, categoria em que o investidor aposta, com capital e experiência, em empresas que estão começando. Hoje, referência na área, Camila acumula cases e reconhecimentos, como ser eleita uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina na Bloomberg Línea 2021 e fazer parte da versão brasileira do programa “Shark Tank” (Sony Channel), ao lado de nomes como Cris Arcangeli (Beauty’in), Caito Maia (Chilli Beans), João Appolinário (Polishop) e Robinson Shiba (China in Box).

Mesmo aparecendo na televisão, sendo a 5ª maior voz do LinkedIn no País e atuando em empresas que movimentam aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, não esconde que tem momentos de insegurança, sofre quando fracassa e, mostrando um quartzo rosa que tinha em mãos durante a entrevista, entrega a importância que dá para a saúde mental.

“A cobrança, principalmente a autocobrança, traz um peso muito grande. Mas escolhi não problematizar e lidar com isso da melhor maneira. Amar meu trabalho e o retorno que recebo das pessoas me revigora e, quando sinto que está difícil demais, faço um detox geral, além das sessões de terapia e de pranaterapia para aliviar a mente e limpar os chakras“, explica, destacando o valor de ter uma equipe bem capacitada e sócios confiáveis para ficar mais tranquila nos dias off-line. “Entender que o sucesso é passageiro e que um fracasso não me define, mantém meus pés no chão e não me paralisa. Assim, sigo comemorando minhas vitórias com humildade e me permitindo viver a dor se necessário.”

A comparação também é inevitável. “Várias pesquisas mostram que nós, mulheres, temos tendência a achar que não somos capazes ou qualificadas em certos momentos, assim como olhar para o outro ou até para si e sentir que poderíamos fazer melhor, estudar mais. Estou sempre tentando me superar”, analisa. “Com o tempo, aprendi a ver isso pelo lado positivo. Pesquisar sobre a trajetória de pessoas bem-sucedidas, inclusive as de outras áreas, pode trazer ensinamentos importantes, melhores argumentos e uma perspectiva muito mais ampla”, reflete Camila, que desde muito jovem valoriza realidades e vivências diversas.

Prova desse comprometimento é que, na G2 Capital, empresa fundada e presidida por nossa personagem, há um braço específico para garantir que sejam feitos investimentos em empresas que têm mulheres em posições de liderança. Ela ainda cofundou, em outubro de 2020, o Ela Vence, plataforma de conteúdo, capacitação e conexão com possíveis investidores voltado para empreendedoras de áreas mais carentes.

“Antes de dinheiro, de qualquer coisa, o objetivo dos meus projetos focados em mulheres é fortalecê-las, tirá-las de qualquer situação de vulnerabilidade. Quero ser um ponto de apoio, um colo para elas e para quem precisar”, pontua Camila, prevendo um impacto de 500 mil mulheres no próximo ano.