Nina Silva – Foto: Adri Rodrigues/Divulgação

Nina Silva, com 39 anos a serem completados em 1º de junho, viu sua vida mudar depois do burnout que sofreu em 2013. E, por isso, não romantiza a ascensão dentro da tecnologia. “Acreditava que era porque nunca havia escolhido a área e vice-versa”, lembra em conversa à Bazaar. Nome à frente do movimento Black Money, startup de inovação com hub de iniciativas para empreendedores pretos, lidera também o D’Black Bank, do qual é CEO. O banco, que já disponibiliza maquininha de pagamento, neste mês lança seu próprio cartão de crédito.

O diálogo, protagonismo e todo retorno financeiro vão para projetos sociais exclusivamente de pessoas pretas, além de oferecer marketplace com mais de 900 lojas, fazendo com que o dinheiro gire entre essa parcela – formada por 56% da população brasileira, segundo dados do IBGE. Nina também participa como conselheira administrativa em grandes empresas para ajudar no processo de inclusão racial, emprestando ainda sua expertise na fintech. Palestras, eventos e treinamento para grandes lideranças, em especial nas áreas de transformação digital e inovação, também fazem parte da rotina dessa gonçalense. “Muito mais por necessidade e por exemplo do que por formação”, garante.

Fala sem pestanejar que foi na faculdade de administração que viu potencial para uma alavancagem financeira e abraçou as oportunidades até o pico de estresse. “Tinham sido dez anos de carreira forçada a estar em determinados espaços sem me sentir acolhida.” Depois de passar uma temporada nos Estados Unidos, onde estudou literatura, foi fazendo as pazes com o trabalho.

Dessa experiência, despertou a escritora que havia dentro de si, especializando-se em poesia erótica, com livro publicado e tudo mais. Procure por “Incorporos Nuances de Libido”, de sua autoria com Akins Kintê. Sua poesia versa sobre subjetividade e lugar de fala. “Olhar e sentir o meu protagonismo”, reforça, citando Maria Firmino dos Reis e Antonieta de Barros como inspirações. Também está presente em outras antologias. “Para mim, é trabalho, ativismo, luta. Não acredito que qualquer coisa que escreva possa ser imparcial. Essa parcialidade minha é enviesada, ativa em uma luta. Ainda escrevo sobre a questão racial, sobre o lugar do corpo negro, seja em um conto erótico, seja em uma coluna de jornal. Sonho muito com o dia em que possa escrever sobre duendes e fadas.”

Desde bem pequena, recém-alfabetizada, roteirizar histórias em sua cabeça era algo natural. “Durante a adolescência, comecei a escrever sobre tudo o que estava errado no mundo, sobre ciência política e esse tipo de coisa”, recorda. E passou a refletir sobre seu lugar no mundo, chegando aonde ninguém mais de sua família havia estado.

Aprendeu a lidar com dinheiro bem cedo. Seu pai era um grande incentivador da economia doméstica. E usava a gamificação para driblar a escassez de recursos. “Ficava enlouquecida porque só podia levar o que estava na lista”, diz ela, que sempre conseguia o biscoito e o chocolate da wishlist. “Se você não tem dinheiro para comprar é porque você não deveria. Se tem o valor duas vezes, realmente precisa comprar? Se tiver três vezes, pode olhar e comprar. Sempre tive esses direcionamentos, e isso não vem de um lar com pai e mãe com recursos ou estudos formais. Foi a escola da vida mesmo”, diz a filha de dona Marize, que é casada com seu Antônio Carlos até hoje.

Ao lado do namorado, Alan Soares, outro fundador do movimento, Nina quer incentivar a circulação do black money dentro da própria comunidade que injeta, na média anual, R$ 1,7 trilhão na economia brasileira. “Ecossistema transformador que sirva de letramento racial, não só para pessoas pretas, mas para as não negras entenderem o papel delas na luta antirracista. Entender que a branquitude é a causa do racismo estrutural. Levar as ações para um lugar de comprometimento e intencionalidade. E trabalhar o equilíbrio de poder.”

Independência e liberdade da população preta está no horizonte de Nina, que luta por equidade e possibilidade de acesso, não só garantindo o mínimo para subsistência. “Não sei se vai ser colhido por mim ou pela minha geração. Mas, como no afrofuturo, a gente realiza no hoje e nos alimentamos do passado.”

Por falar em futuro, ao lado de Rafa Brites, Bianca Andrade (a Boca Rosa) e Traudi Guida, está lançando o Elas que Lucrem, plataforma de empoderamento feminino. Além de divulgar notícias, artigos, publicações e cursos, há um MBA de inteligência emocional, a fim de garantir independência apenas para mulheres, além de um fundo de investimento exclusivo para elas. A partir de um certo número de pagantes, conseguem abrir bolsas para mulheres periféricas, negras e trans. “Pensando em finanças, oferecemos empoderamento real e não apenas estético e social para nós, mulheres.” Com isso, vai movimentando os sonhos muito dentro da realidade.