Luiza Helena Trajano – Foto: André Giorgi

Por André Aloi e Patricia Carta

A maior alegria de Luiza Helena Trajano é quando, depois do dia atribulado e que começou cedinho, chega em casa, tira a maquiagem, faz um coque no cabelo, veste a roupa mais confortável e se deita para acompanhar os noticiários na televisão. Já foi mais noveleira, agora acompanha só pela internet. Detesta filmes que a deixam chateada. Para isso, já basta a vida. Está mais para os romances “água com açúcar”.

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Não gosta de se deitar na cama, por isso em todo lugar tem um “sofazinho”. De fala dócil e simples, a presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza deixa claro que não é uma pessoa diferente sob holofotes ou fora dele. Divide-se entre o lar na capital paulista e o de sua cidade natal, em Franca. “Descobri que onde você tem mala e passaporte é sua primeira casa”, diverte-se.

Mas a do coração é a do interior de São Paulo, onde criou os filhos – Frederico, CEO do Magalu, Ana Luiza, chef de cozinha, e Luciana, publicitária. Não passa mais de 15 dias sem visitar a tia, também Luiza, que empresta o nome à rede de lojas. Antes da pandemia, a sobrinha a levava para todos os cantos: fazenda, restaurante e shopping.

Aos 69 anos, Luiza Trajano acredita que tem obrigação de inspirar. Aprendeu desde cedo o que é empreendedorismo e recusa o título de otimista. Está no front e em ação. Cliente “normal” das lojas na qual é a maior acionista, paga o preço que está no app e recebe em casa. “Compro muito porque, como não estamos encontrando as pessoas, adoro dar presentes. Comecei a trabalhar por conta disso”, recorda. “O dinheiro não tem essa força que todo mundo pensa. Não estou falando que não é importante. Parece piegas, mas não é uma coisa do tipo ‘preciso porque tenho dinheiro’.” Para ela, capital é meio e não fim.

Para dar conta de tudo, lidera com foco. Em seu vocabulário não há procrastinação. Geralmente, fica de olho em cinco coisas prioritárias. Se confia, deixa na mão de terceiros, dando cobertura. “Acompanho os inegociáveis, o que não pode acontecer. Não fico me prendendo a detalhes. Antevejo o que a gente vai fazer para depois traçar como. As pessoas começam pelo ‘como’ e se perdem.”

Sua maior qualidade é antever riscos. Costuma ouvir que, enquanto as pessoas estão entendendo o plano na teoria, já está na parte prática. “Tenho muito talento para enxergar o que pode acontecer claramente. Mas pouco para colocar uma metodologia.” Por isso, traçar objetivos é sempre sua prioridade. Na vida pública há 40 anos, entende que nunca vai ser unanimidade. E, quando uma crítica vem muito agressiva, não entra na discussão. “Peço desculpas e tomo as medidas necessárias. Aprendi a escutar”, resume ela, que recebe – e lê – reclamações nas redes sociais.

À frente do movimento Unidos pela Vacina, Luiza já foi imunizada contra a Covid-19 e continua preocupada com seu entorno. “Não adianta vacinar meus funcionários e deixar a família deles sem. O dinheiro não pode se sobrepor a isso”, afirma. A preocupação do coletivo nunca foi comprar vacina, a não ser que seja para doar ao SUS. Com força na Índia, China e Estados Unidos, o grupo vem assessorando o Ministério da Saúde para trazer o imunizante mais rápido. “O plano de imunização é igualitário, pensa nos pobres e na população.”

O movimento atua no cruzamento de dados, conectando padrinhos e madrinhas a projetos. Foi responsável por um levantamento com 5.769 entrevistados para agilizar o processo de vacinação, levantando falhas na estrutura e definindo como estes empresários podem ajudar. “Tem que olhar daqui para frente, não buscar culpados. Trabalhar sem parar e nos unirmos às esferas federal, estadual e municipal para sair desse momento tão sério.”

Na liderança do Grupo Mulheres do Brasil, Luiza abraça mais de 20 causas, que vão da cultura ao combate à violência. “Só uma sociedade civil organizada muda o País.” Na luta apartidária, visa encurtar para oito anos o ajuste da desigualdade entre homens e mulheres, que levaria 80 para acontecer. “Nossa meta é colocar mais mulheres e diversidade no poder.”

Defensora das cotas há mais de 10 anos, tem entre suas bandeiras a luta contra o machismo e o racismo estruturais. “Cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade.” No dia da entrevista, estava animada com três notícias positivas: Rachel Maia no conselho do Banco do Brasil, a parceria do Sebrae com Mauricio de Souza, que incentiva mulheres na liderança, e o projeto Astrominas, da USP, que ministra cursos de astronomia e geofísica apenas para meninas.

Visionária, acredita que o rumo do País vai depender do desprendimento da sociedade no ganha-ganha. “Vai exigir uma união sem pensar no seu quintal, mas no seu país, em especial o nosso que tem menos dinheiro. Pensar em planejamento estratégico para 10 anos, com uma linguagem bem simples para a população entender, é indispensável.”

Durante a pandemia, cuidou da sua equipe, não demitiu funcionários e trabalha para ser lembrada como “uma brasileira que ajudou a transformar o Brasil. Sou uma política assumida. Sou suprapartidária”, resume. “Não acredito que sem políticas públicas você mude um país. Para isso, não faço nada sozinha.” Engajada desde os tempos de escola, Luiza Trajano vem sendo apontada como possível candidata à Presidência, o que faz questão de negar. Mas segue usando sua imagem para movimentar causas e discutir ações – sem, jamais, transformar pautas identitárias em palanque.