Nina da Hora – Foto: André Giorgi

Ainda nem terminou a faculdade de Ciências da Computação na PUC-RJ e Ana Carolina, mais conhecida como Nina da Hora, já emendou um mestrado. A cientista de 26 anos, nascida em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, serve de inspiração para a inclusão de pessoas pretas, periféricas e, claro, de mulheres e LGBTQIA+ na tecnologia.

Mas seu papel não se resume a isso. Estudiosa da área de inteligência artificial, segurança digital e robótica, ela testa e treina algoritmos a fim de não reproduzirem preconceitos no reconhecimento facial, por exemplo. E quer se formar doutora antes dos 30 anos.

Apesar da ampla presença digital, com contas no Twitter, Instagram, produzindo conteúdo para o YouTube em seu canal “Computação Sem Caô” e no podcast “Ogunhé”, há uma rede onde ela não está: o Whatsapp. “Caminhamos para um universo digital, cheio de armadilhas. Às vezes, não está tão perto da nossa realidade porque não chegou o momento”, conta.

No TikTok, integra o conselho consultivo de segurança no Brasil, discutindo questões críticas como segurança online e infantil, preparando relatórios com recomendações em torno de temas sensíveis ao lado de outros especialistas. “Segurança deveria fazer parte da nossa vivência, mas culturalmente no Brasil é muito difícil. Complica mais por conta do jeitinho brasileiro. O problema está no sistema educacional, pois não cria pensamento crítico.”

Voltando à infância, Nina foi uma criança que amava desenhos animados com coisas explodindo, vide o preferido “O Laboratório de Dexter”. Quem sofria era a mãe, pois a pequena curiosa queria reproduzir cenas da televisão. Abria os eletrônicos para fuçar e acabava estragando. “Comecei a programar no computador da minha tia e da escola, aprendendo a fazer joguinhos do tipo quiz, uma hora todo dia. Era o mais fácil e acessível”, ri, dizendo que as novas gerações têm à disposição kits de introdução à robótica. “Fui ter meu primeiro computador aos 16 anos.” Era também o momento de sua entrada no Facebook, rede social predominante há uma década.

Conforme foi crescendo, faltavam referências para se inspirar. Se embrenhou pela filosofia para entender a origem das coisas por uma perspectiva não eurocêntrica quando mirou em Timnit Gebru, Rediet Abebe, Ruha Benjamin, estudiosas pretas de diferentes áreas que a inspiram até hoje.

No Brasil, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Enedina Alves são outros bons exemplos. “Steve Jobs? Bill Gates? Isso não fazia parte do meu dia a dia porque olhava para eles e não me reconhecia. Não sou branca e não tenho garagem”, diverte-se. “Se dependesse desse cenário, não ia começar nada. Fui atrás de pesquisadores e cientistas negros, da Índia… E me dando conta do que não queria fazer, como seguir na área de startups”, atesta.

Para chegar a essa conclusão, atuou em uma empresa emergente de robótica, deu aula em escola sobre o mesmo assunto e encontrou na pesquisa um jeito de acalmar a ansiedade e, ao mesmo tempo, saciar sua curiosidade.

Apesar de ter entrado cedo na universidade, aos 17, só vai se formar no fim do ano. O atraso se deu porque começou a buscar outras disciplinas de conhecimento fora da área de exatas para complementar o currículo. Começou a iniciação científica no quarto período, com projetos orientados. Foram três ao todo: “internet das coisas”, com problemáticas que não conseguiria resolver pela falha de segurança, “pensamento computacional”, quando teve aporte financeiro para aplicar o projeto na vida real em uma ONG, e se rendeu à inteligência artificial – atual campo de atuação.

Àquela altura, já sabia o tema do TCC: “Internet – Tecnologia e Sociedade”, explicando o processo de reconhecimento facial. Na faculdade, ainda frequentou o Apple Developer Academy, um programa de inovação tecnológica com a finalidade de cocriar soluções para dispositivos do ecossistema da empresa da maçã. Presentes em sistemas operacionais de celular, serviços bancários e até mesmo em câmeras de vigilância espalhadas pelas cidades, essa ferramenta é uma incógnita para a maioria das pessoas.

Mas Nina organizou um material que expõe problemas, como, por exemplo, a criação de narrativas que impactam negativamente a vida das pessoas negras e transgêneras, e ela é a favor do banimento. “Teve um caso no Black Lives Matter, em que a polícia perseguiu um dos manifestantes negros. As imagens não mostravam ele fazendo nada, mas construíram uma narrativa de captura”, exemplifica. “Podem criar qualquer história com a nossa imagem porque não tem áudio, só meu rosto.”

Por conta de sua área de atuação, empresas a têm procurado como consultora para testar seus algoritmos, algo humanamente impossível, e não se trata apenas da troca de um código para a implantação de um software ou ferramenta. É preciso começar do zero, com equipe de diferentes vieses a fim de combater comportamentos preconceituosos, como o racismo estrutural. Em sua visão, a tecnologia não faz sentido se não puder ajudar as pessoas. E isso ela vem fazendo com bastante maestria.