Rebecca Dayan usa colar da Tiffany & Co., com luvas Prada e meias Wolford – Foto: Jacob + Carrol, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Angel Macias, maquiagem de Hiro Yonemoto, cabelo de Menelaos Alevras e tratamento de imagem da One Hundred Berlin

Rebecca Dayan é daquelas pessoas irrequietas, cuja personalidade se molda ao ambiente e perpassa pela moda, artes e multitelas. A atriz francesa trafega muito bem por todos estes universos com a mesma proeza e dedicação. Já trabalhou como modelo, assistente de design na Sonia Rykiel e exibiu aquarelas na Galeria Catherine Ahnell de Nova York. “São facetas complementares, todas correspondem a diferentes momentos da minha vida. Não é como se uma acabasse para dar lugar à outra. Diferentes épocas e inspirações”, conta por telefone à Bazaar, já vacinada, entre um compromisso e outro da semana de moda de Paris. “Houve momentos em que estava pintando mais. Depois, fiquei um longo período sem”, complementa ela, que diz que agora o foco é a atuação.

A atriz ganhou os holofotes este ano ao dar vida à então modelo italiana Elsa Peretti, musa inspiradora de Roy Halston Frowick, conhecido simplesmente como Halston, na série homônima da Netflix, protagonizada por Ewan McGregor. A produção mostra a ascensão e queda do império do designer ao conquistar séquito de adoradoras após Jacqueline Kennedy usar um de seus icônicos chapéus. Produzida por Ryan Murphy e dirigida por Daniel Minahan, a obra faz uma ode ao universo nova-iorquino para além da moda e dos áureos tempos do Studio 54. Como Andy Warhol costumava dizer: “uma ditadura na porta, mas uma democracia na pista de dança”.

Em suas pesquisas, o que mais chamou a atenção era como Elsa conseguia manter sua vida pessoal bastante privada, apesar das anedotas, como a de atear fogo em um casaco de Halston como prova de amizade, ou das famosas festanças – incluindo um incêndio no famoso club.

Elsa viveu a era de ouro nova-iorquina, no entre-décadas de 1960 e 1970, deu rasante na pista de dança do famoso clube, até que virou household name (pessoas cuja história se confunde com a assinatura de uma marca) na Tiffany & Co – para a qual compartilhou seu savoir-faire até a morte, em março deste ano. “O mais animador foi saber que muitas pessoas, em especial as novas gerações, puderam conhecer um pouco mais sobre ela”, celebra.

Rebecca Dayan usa look total Balmain – Foto: Jacob + Carrol, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Angel Macias, maquiagem de Hiro Yonemoto, cabelo de Menelaos Alevras e tratamento de imagem da One Hundred Berlin

Elsa teve um papel importante e inspirador para mulheres contemporâneas e modernas, não apenas no que diz respeito à criatividade, mas pelo vanguardismo. “Melhores elogios são quando as pessoas dizem que vão atrás de mais informações depois de assistir (à série). Incrível”, exclama.

Nascida em uma família rica, foi esquecida pelos pais tão logo manifestou seu protagonismo rebelde, saindo da Itália para conquistar a América. “Me ajudou a compreender quem ela era. Porque alguém capaz disso, em uma idade tão jovem, especialmente por ser mulher nos anos 1960, foi muito corajoso”. Se colocarmos a vida das duas em perspectiva, pode até haver mera coincidência. “Sempre modelei, talvez menos do que Elsa. Acredito que ela teve uma carreira mais real. Para mim, sempre foi um trabalho paralelo. Algo que fazia enquanto estava trabalhando na Sonia ou estudando atuação”, recorda. Mas nunca foi seu foco. “Tive a sorte de fazer para me sustentar”, complementa ela, que, para esta capa, empresta seu trunfo camaleônico em diferentes moods.

Com a vida sendo retomada onde há vacinação em massa, Rebecca esperava que pudesse encontrar a famosa inspiração passado o lockdown severo. Mas não teve a chance, uma vez que Elsa morreu este ano, aos 80. “Agradeceria por ter sido quem foi e pela oportunidade de interpretar uma personagem tão incrível”, conta. “O ano de 2020 foi assustador. Tê-la ao meu lado, na minha cabeça, ajudou. Adoraria ter tido a oportunidade de conversar e matar a curiosidade sobre tudo o que ela viveu naqueles tempos. Tantas perguntas”, lamenta.

Rebecca Dayan usa look total Prada e pulseira Tiffany & Co – Foto: Jacob + Carrol, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Angel Macias, maquiagem de Hiro Yonemoto, cabelo de Menelaos Alevras e tratamento de imagem da One Hundred Berlin

Passado o frisson em torno de “Halston“, Rebecca está escrevendo, desenvolvendo suas próprias histórias, com vontade de dirigir e produzir. “Quanto mais você faz, mais inspirada fica”, conta sobre sua plataforma de arte favorita. Trocar experiências no set, conhecer o trabalho de pessoas em diferentes áreas da indústria cinematográfica tem sido mesmo um sonho. Depois de ter assistido ao documentário “The Business of Being Born”, viu que precisava pôr luz ao aumento no número de casos de mortalidade infantil nos Estados Unidos e, ao lado da amiga, a diretora estreante Paula Goldstein, produziu o longa “Born Free”, ainda sem data de estreia. “Está pronto, agora estamos tentando encontrar uma casa para ele. Espero que esteja disponível nas telas em breve”. Sobre o mesmo tema, criou uma organização sem fins lucrativos chamada Mother Lover, dando voz a esse amor de mãe.

Apesar de muito francesa – morou em Nice e estudou em Paris -, escolheu Nova York para morar. “Amo ter sido influenciada por todas essas diferentes cidades”, resume. Quando voltar aos Estados Unidos, passará um tempo em Los Angeles gravando. “É uma série com elementos de fantasia. Completamente diferente de ‘Halston’, algo fora da realidade. Acho que vai ser muito divertido”, conta, sem entregar muitos detalhes.

Com tantas frentes abertas, se diz feliz por se jogar de cabeça na arte, na moda e nas telas. A atriz tem sede de conhecimento. Mas deixa bem claro que a única coisa que não quer é soar clichê. Impossível, Rebecca! Em seu universo multitalentoso, não há lugar-comum.

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