Bia Vianna – Foto: Samuel Alexandre

Começar essa nossa conversa aqui, na Harper’s Bazaar Brasil, pela empatia faz muito sentido, pois para falarmos de emoções é necessário que sejamos capazes de sentir e reconhecê-las. Para mim, é um dos primeiros passos para que cada um desenvolva sua inteligência social – que é a habilidade de entender, interagir e desenvolver relações saudáveis e produtivas.

Trabalho há 15 anos no mercado de marketing e comunicação, vindo de uma formação em moda, trend forecast e depois marketing digital. E após algumas gestões de crise de clientes, entendi uma habilidade: mediação. Uma coisa sempre leva a outra e essa habilidade, que se relaciona à empatia, me levou a querer entender mais sobre a mente humana, a partir do viés de emoções e tomada de decisão. 

A palavra empatia foi/é tão usada que caiu naquela sensação de que conceitos quando repetidos acabam se tornando banais. E a sensação de não a g u e n t o mais ouvir essa palavra faz com que se caminhe exatamente para o lado oposto.

Existe empatia na pandemia?

Neste cenário pandêmico que temos vivido há um ano, com tantas verdades e necessidades se atravessando, existe muita fala acontecendo, mas pouca escuta. Percebo que, para algumas pessoas, a empatia passa por um período de desgaste pela exaustão e/ou virou frase pronta, deixando de ser parte de um sentimento. Mas a boa notícia é que, do ponto de vista da neurociência, a empatia pode ser construída!

Quanto mais compartilharmos nossas questões e experimentarmos ouvir com atenção narrativas diferentes das nossas, mais nosso círculo empático se expande, fazendo com que nossas práticas e escolhas sejam afetadas.

Foto: Acervo pessoal

Somos espelhos uns dos outros.

“Nós compreendemos o outro porque temos dentro de nós a mesma experiência”, Merleau Ponty.

Pesquisas apontam que, quando observamos alguém fazendo algo, o nosso cérebro fica mais ativo nas áreas responsáveis pela mesma ação, como se fosse um espelho. Automaticamente compreendermos a ação do outro e isso se dá por causa de um sistema neural que se chama neurônios espelho, que espelham movimentos e emoções, descoberto na década de 1990.

Agora, pense no impacto em sua narrativa, quanto você se dá a conhecer a outras perspectivas, a partir de vivências de pessoas muito diferentes de você!?

Quanto mais narrativas, melhores são as nossas decisões.

Se pensarmos dessa forma pelo viés de diversidade & inclusão, que é uma das minhas áreas de atuação – na qual aconteceram algumas das minhas experiências em mediação de crise -, temos, então, universos inteiros de informações e aprendizagem.

Somos criados em uma cultura que nos ensina todos os vieses inconscientes que praticamos, por isso é também necessário estabelecer uma escuta ativa e, em especial, ter representatividade no nosso círculo. Importante dizer que, para sermos empáticos, e nos sentirmos no lugar do outro, precisamos abrir mão da resistência ao novo – algo que vai contra nosso funcionamento cerebral, mas passível de aprendizado. Aprender a partir da vivência do outro, em trocas honestas sobre suas realidades e histórias, nos faz criar vínculos e compartilhar emoções.

A verdade é que temos mais a ganhar em nossas escolhas se engajarmos versões de narrativas, do que se substituirmos uma pela outra. Podemos conhecer e aprender com as muitas versões que existem e, em escolhas diárias, inspirar novas decisões.

Termino esta coluna com o desejo que a empatia não se torne um conceito banal, mas seja uma prática, para que nossas decisões espelhem o nosso conhecimento de nós mesmos e dos outros. Nas próximas colunas, vamos falar mais sobre conceitos que geram emoções em nós. Até o nosso próximo encontro!

@biavianna – é mulher, neurocientista em formação, formada em moda e especializada em marketing e trend forecast. Carioca radicada em São Paulo, tem um apreço inevitável pelo belo e interesse constante por emoções, comportamento e sentimentos dos indivíduos. Fundadora da agência àmdc, atua com o foco de criar narrativas estratégicas a partir do indivíduo – sempre com o filtro de diversidade e inclusão, somado à contemporaneidade, em sua complexidade e necessidades adaptativas para o futuro.