Bianca Della Fancy – Foto: Divulgação

Por Diogo Rufino Machado

Bicha, drag, preta e bem sucedida. Bianca Dellafancy se vê assim e os números não mentem: a youtuber, modelo e podcaster tem uma audiência expressiva. Hoje Bazaar entrevista a personalidade em um bate-papo exclusivo. Leia na íntegra:

Você é trans ou drag?

Então vamos lá. Bianca é uma drag queen. Bianca é uma extensão do artista Felipe de Souza, que sou eu. Bianca é uma performance. Não é um personagem, pois eu não estou contracenando. Mas é como uma ponte para que eu consiga me expressar artisticamente e me comunicar com as pessoas. Mas é uma drag não é uma orientação de gênero. Eu sou um homem gay cisgênero.

Explica para nós como é o seu trabalho de modelo, apresentadora e influenciadora?

Tenho canal no youtube já faz um tempo. Há uns quatro anos eu acho. Eu sou podcaster também. Tenho um podcast no spotfy. Sou modelo já faz bastante tempo (já desfilei na SPFW e na Casa de Criadores). Sou também colunistado BuzzFeed. O meu podcast se chama Santíssima Trindade das Perucas, que é um bafo. Está sempre nos números lá em cima no Spofty. É babado.

Bianca, vamos falar um pouquinho de preconceito. Como é ser a Bianca no dia a dia, sem estar montada?

A minha relação com o preconceito já foi muito pior. Hoje, obviamente eu passo por situações de preconceito, mas acho que eu aprendi a me blindar bem. Aprendi a transcender. Me nego a sofrer pela ignorância alheia contra mim. Às vezes, não é nem sobre ser drag. Sobre ser drag, acho que o preconceito maior, quando acontece, é em relação as marcas que não querem trabalhar com uma drag. Acontece de alguma grife sofrer algum tipo de ataque nos comentários, por conta de pessoas conservadoras e preconceituosas, quando contrata uma drag. Não sofro mais por estar em uma loja fazendo compras e ter um segurança me seguindo porque eu sou uma bicha preta e tecnicamente eu só poderia estar ali para roubar. Eu não sei de qual lado eu sofro mais preconceito: montada ou desmontada. Acho que os dois lados em algum momento são atingidos pela ignorância das pessoas. Esses dias mesmo eu fui fazer compras em um shopping caríssimo aqui de São Paulo e três pessoas vieram perguntar se eu estava trabalhando na loja. Ou então já vinham me perguntar: ‘tem P dessa daqui?’. Para elas, uma pessoa como eu não estaria ali comprando, estaria ali trabalhando. Isso em algum momento minha vida me deixaria muito chateado, muito triste. Hoje, isso me deixa revoltado. Será que eu não poderia estar comprado? Eu só posso estar ali se eu estiver vendendo para você. Então transformo minha raiva em arte. Transformo-a em trabalho, em um vídeo. Uso essa energia negativa das pessoas para criar alguma coisa positiva para mim e para os meus, para as minhas, que me acompanham, para não deixar essa energia se esvaziar porque energia é relevante.

É fácil você se relacionar no mundo gay por ser uma drag? Existe preconceito dentro do mundo gay?

Também existe. Mas olha, vou te falar o seguinte, já foi muito difícil para mim me relacionar por ser drag. Tipo, os boys não querem uma drag. Já passei por isso. Boys machistas ou boys que não gostam de drag. Hoje percebo que não é mais difícil para mim me relacionar porque eu sou drag. O que é difícil para mim me relacionar e porque sou conhecida. Eu já não sei mais que pessoas querem se aproximar de mim porque elas gostam de mim ou porque elas querem algum tipo de alguma oportunidade. Eu acho que muitas pessoas me veem como uma oportunidade.

Moda e você se casam muito bem. Você já participou de muitos desfiles, inclusive esse ano na SPFW. Conte-nos um pouquinho da sua trajetória na moda

Eu comecei há muitos anos, logo que comecei a fazer drag. Pouco tempo depois fui convidada pelo estilista Fernando Cozendey para desfilar na Casa dos Criadores. Na São Paulo Fashion Week eu fiz dois desfiles. A arte de um modo geral, ela está em movimento. Eu não produzo uma coisa aqui e fecho em uma caixinha. Eu produzo para o mundo e a minha arte pulveriza a vai criando outras artes. Isso vai se transformando. E isso acontece muito na moda.

O que tem feito para mudar a vida de mulheres e LGBTS em geral?

Faço doações, pois sei que muita gente precisa. Eu costumo sempre separar muita coisa para doar. Também uso o meu trabalho como ferramenta de transformação. Os assuntos que têm o objetivo de fazer com que as pessoas saiam de suas bolhas e melhore toda a convivência. A partir do momento que um pai de família preconceituoso tem contato com os meus vídeos do Youtube e percebe que está sendo péssimo pai com seu filho e muda a postura, já me sinto uma vencedora.

O que você acha do empoderamento e da inclusão que estamos vendo há alguns anos em desfiles?

É uma coisa que acho necessária para quem trabalha com moda ou qualquer outra área. Porque tem que entender que nós não somos moda: pessoas LGBT, pessoas gordas, pessoas pretas, pessoas trans e travestis. As pessoas têm que entender que nós somos vidas e que a gente não só consome moda, mas como produz moda também. Não tem de ser só em junho, tem de ser o ano todo. A moda é extremamente responsável pelo que é legal e pelo que não na sociedade. A partir do momento que uma revista vai lá e coloca uma travesti na capa, as pessoas vão começar a repensar o que acham sobre travestis.

Se pudesse deixar um recado para os leitores da Bazaar qual seria? E para o mundo da moda em geral?

Eu diria para os leitores da Bazaar e para a moda: valorizarem a diversidade. A diversidade não precisa do seu respeito e do seu amor para ela acontecer. Ela vai acontecer ainda que você a odeie. Eu vou continuar existindo e trabalhando. Vou continuar sendo uma bicha preta, drag queen maravilhosa e muito bem sucedida, ainda que você não goste e das minhas e dos meus. Então a dica é: valorize. Isso sim é necessário.