Carolyn Murphy na redação da Harper’s Bazaar – Foto: Patrick Demarchelier/Arquivo Harper’s Bazaar

Por Camila Salek

Seja sincero com você mesmo e responda mentalmente se anda pensando em renunciar. Sentir novos horizontes, respirar novos ares, cuidar de problemas novos. Invariavelmente, ao pensar nisso, questionamos o nosso trabalho e o quanto nos dedicamos a ele. 

Saiba que você não está sozinho. À medida em que o trabalho físico começa a voltar e a economia se recupera, a aposta é que o mundo dos negócios verá muitas pessoas que vinham evitando demitir-se de seus cargos devido à incerteza, se sentirem finalmente prontas e confiantes para uma mudança. É o que vem sendo chamado de “The Great Resignation” por Anthony Klotz, professor de administração da Texas A&M University, que estudou as saídas de centenas de trabalhadores nesta pandemia: “Quando há incerteza, as pessoas tendem a ficar paradas, então há demissões reprimidas que não aconteceram no ano passado”. Segundo ele, os números são multiplicados por todos os questionamentos relacionados ao processo pandêmico – tempo para a família, trabalho remoto, deslocamento, projetos de paixão, vida e morte e o que tudo isso significa – que podem fazer as pessoas virarem as costas ao formato atual de trabalho.

Que os tempos são difíceis todo mundo sabe. Que é preciso ter resiliência também. Muitos estão estressados, irritados e exaustos. Porém é muito importante perceber que ao estarmos trancados dentro de casa, numa realidade que nos foi imposta e no meio de uma pandemia, absolutamente tudo é elevado ao extremo. Não desejamos o momento que estamos vivendo. Tenho lido muito a respeito e um dos textos recentes da Linda Hill, coautora do livro “Being the Boss: The 3 Imperatives for Becoming a Great Leader” (em tradução livre, “Ser o chefe: os 3 imperativos para se tornar um grande líder”), fala sobre como tudo o que estamos passando “Requer um nível totalmente novo de estar presente, ser ágil e capaz de se adaptar.” Mas isso até quando?

Aprendemos a conviver, mas nem por isso estamos satisfeitos com a situação atual. Seguimos cada vez mais saudosos dos tempos onde tudo era diferente e, muitos de nós, com uma vontade imensa de renunciar. A sensação de segurança do trabalho com carteira assinada nunca foi tão questionada como agora. O fato é que decidir largar seu emprego hoje para empreender, buscar um novo desafio profissional, viver um sonho de trabalhar digitalmente de qualquer lugar do mundo, ou tirar um sabático vai exigir de você (além de uma boa grana para sustentar alguns destes desejos) a saúde mental em ordem para recomeços. Sem romantismo nenhum, recomeços são desafiadores e podem ser bastante difíceis também. Vale lembrar que tudo isto ainda se soma ao contexto pandêmico que ainda não temos clareza de quando e como vai acabar.

Se você está nesta reflexão pulsante de partir para algo novo, longe de querer fazer a “coach” aqui, gostaria de compartilhar alguns dos aprendizados como empreendedora e como pessoa que curte pessoas:

EXPLORE: se aproxime do seu desejo antes de tomar uma decisão definitiva, converse com quem assumiu recentemente desafios como o que pretende assumir e explore os outros lados da tomada de decisão.

VIVENCIE: em alguns casos é possível vivenciar um processo de mudança antes de tomar uma decisão final. Se possível tire férias e tente viver de forma bem próxima ao que deseja fazer no futuro.

FELICIDADE: somos eternos insatisfeitos, portanto analise o que gera a sua não satisfação atual e entenda se este é o real motivo da sua infelicidade. Muitas vezes estamos depositando no trabalho uma carga emocional que vai muito além dele.

REDE SOCIAL: o trabalho romantizado perfeitinho postado nas redes sociais não existe, minha gente! Precisamos parar de consumir fórmulas prontas de sucesso. Se pergunte sobre a genuinidade do conteúdo que você anda consumindo digitalmente.

EMPREENDER: empreendedorismo no Brasil é tarefa árdua e desafiadora. Pense que é necessário, no mínimo, ter experiência, contatos e dinheiro em caixa para começar e manter um negócio durante os primeiros anos. 

São passos simples para um próximo grande passo. Ninguém é feliz 100% do tempo e quando algo realmente nos incomoda, ao ponto de renunciarmos a ele, tenha em mente que uma grande decisão está sendo tomada naquele momento. Faça este exercício e se jogue, com todas as suas forças, na melhor decisão que venha a ter. Se a previsão do Anthony Klotz estiver correta (eu aposto que sim), a ruptura da “renuncia” será sentida em quase todos os setores. Como empresária, vejo outro lado muito significativo que é o fato de algum grande talento estar prestes a se tornar disponível no mercado. A renuncia termina e recomeça em uma escolha.

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.