Foto: Rob Stothard/Getty Images

Por Camila Salek

Não é de hoje que a proximidade da Black Friday provoca movimentos que questionam as origens do uso deste termo. No ano passado, boatos antigos ganharam força nas redes sociais ligando o termo à venda de escravos em liquidação:

Os escravos modernos: black friday

Sabiam que a origem do Black Friday não é outro que a venda de escravos? No dia seguinte ao Dia de Ação de Graças se vendiam os escravos “com desconto”, já que começa a temporada de inverno e eles não eram tão necessários para a colheita do algodão, por exemplo. Daí o BLACK (“Preto” em inglês).”

A repercussão no grupo de onde foi retirado o trecho acima foi grande, mas apontado como fake por vários meios de comunicação, já que esta origem do termo nunca foi comprovada.

Afinal, de onde vem o termo Black Friday?

São várias as teses sobre a origem desta terminologia e busquei montar uma linha do tempo para facilitar o entendimento. De acordo com o editor-executivo do site Vocabulary.com, o adjetivo “black” (preto, em inglês) foi adotado durante muito tempo para retratar calamidades, ganhando espaço nos EUA do século 19, quando em 1869 um colapso do mercado de ouro na Bolsa de Nova York quebrou bancos e investidores afetando a economia americana durante anos. Esta data ficou conhecida como Black Friday.

Alguns anos depois, o termo se popularizou na Filadélfia, quando um grupo de policiais utilizou a expressão “Black Friday” para se referir ao trânsito e à calamidade nas ruas após o feriado de Ação de Graças. Isto porque lojistas começaram a aproveitar o grande volume de pessoas para abaixar preços e vender mais nesta sexta-feira. Com estes fatos, entendemos que calamidade, crise, caos e queda de preço passam a ser diretamente relacionados à terminologia “Black Friday”.

O termo, que se popularizou nos EUA, ganhou espaço em alguns outros países como o Brasil, que desde 2010 adotou fortemente a data no calendário de varejo. No final dos anos 80, alguns varejistas americanos buscaram criar uma nova história positiva para o termo dizendo que nesta data é uma oportunidade de os varejistas saírem do vermelho e irem para o preto, levando o apelo de que depois de operar com perdas (“no vermelho”), as lojas teriam na Black Friday a chance de operar com lucro (“no preto”). Se olharmos para nossa realidade depois de tantos meses com portas fechadas no varejo, esta versão positiva é muito do que precisamos neste momento!

As últimas projeções do Fecomércio de São Paulo para o Brasil apontam uma retração de 6,7% no varejo este ano, o que significa uma perda de receita de R$ 141 bilhões em relação a 2019. Do outro lado da balança, segundo dados da Nielsen, no ano passado a Black Friday registrou um faturamento de R$ 3,2 bilhões, número 23,6% acima em relação a 2018.

Há alguns meses, quando comecei a traçar a estratégia de final de ano para alguns varejistas, comecei a refletir o real impacto do termo Black Friday no contexto atual que vivemos e me questionei se realmente fazia sentido assinarmos campanhas de varejo com esta expressão. Este é um evento comercial megaimportante para o setor e muitas são as interrogações em relação às práticas e aos costumes de décadas e, mais uma vez, temos muitas perguntas e poucas respostas.

Estamos falando tanto de criatividade para traçar novas oportunidades, por que não nos movimentarmos para sair da nossa zona de conforto também neste aspecto? Seria mais fácil manter o Black Friday, já é o padrão, já está na mente do consumidor, já está na busca do Google… mas será que é o melhor que a sociedade tem para viver neste momento? Será que é o melhor tom de voz que as marcas podem oferecer agora? Quais sentimentos queremos despertar nos consumidores ao final de um ano como este?

Camila Salek – Foto: Divulgação

Não tenho as respostas, mas estou totalmente aberta para ouvir a opinião de vocês. Aliás, na próxima semana estarei em uma live aqui na Bazaar, com Patrícia Carta, para escutarmos ativamente representantes do MOOC – coletivo que busca utilizar meios criativos para expressar o lifestyle do jovem preto brasileiro – do Célula Preta – coletivo de estilistas pretos da Casa de Criadores – e a Carol Barreto – Designer de moda e Professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da UFBA, para juntos darmos visibilidade à discussão deste assunto e assim construirmos em conjunto uma nova terminologia para esta sazonalidade – ou não! Espero vocês no dia 31.08, às 19h, no Instagram e Youtube da Bazaar, vem!

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.