Camila Salek – Foto: Arquivo pessoal

Por Camila Salek

Completei cem dias em quarentena no mês passado e resolvi fazer um balanço disso tudo. Na verdade, um balanço da Camila real por trás de todas as lives, palestras e conteúdos especiais de varejo para os quais me dediquei muito neste período.  Confinada e com pouca possibilidade de escapismo, percebi que tive uma oportunidade ímpar de entrar em contato com meus sentimentos mais profundos, meus limites e minhas reais necessidades. Um processo nada fácil. Várias foram as vezes que recorri a uma taça de vinho no final do dia para entrar em comunhão comigo mesma.

Meus planos de virada eram bárbaros. 2020 seria o melhor ano dos negócios desde a abertura da empresa, equipe super engajada e eu me dedicando a estudar e planejar novas frentes de trabalho. Gêmeas pré-adolescentes e já adaptadas à escola nova e alguns preparativos finais para celebrar meu casamento ainda no primeiro semestre. Corta para pandemia mundial. Me vi imersa em uma crise humanitária e financeira imprevisível que descartou muitos dos meus planos, me deixou exposta e sem rumo.

Gerenciar e criar planos de contingencia para esta crise e, principalmente, cuidar de quem estava perto de mim viraram a minha prioridade. Enfrentar um futuro sem perspectivas claras se tornou meu grande desafio. Vivi uma profusão de altos e baixos num looping absurdo que parecia não ter fim. Tive que, em apenas 100 dias e em formato FULL HD, reaprender a ser mãe, executiva e mulher. Fui ao limite e voltei diversas vezes frustrada por não ter respostas.

Eu que sempre fui segura e forte, quase um templo dentro de mim mesma, me senti por muitas vezes sem chão. Sem saber se estava agindo da melhor forma possível. Vulnerável, palavrinha hype do momento, era pouco para me definir. Minha vida, sempre cercada de agito e novidades frequentes, encontrou uma rotina paralela que acabou por me transformar. Acelerei meu processo de reinvenção. Me doei muito, sem exceção.

Cem dias se passaram e olho para meu presente com uma lente nova, que me fez perceber que já estou ok com a realidade das crianças não arrumarem as suas camas todos os dias ou com o vídeo game rolando sem limites depois do home schooling. Já aceitei o fato de que o casamento foi adiado e também já assimilei que este será um ano de sobrevivência para quem trabalha com varejo. Chorei, lamentei, compreendi e estou seguindo. Ainda não sei qual será o resultado, mas devo assumir que estou exausta e feliz.

Em meio ao caos, as melhores respostas vieram da minha comunidade e da conexão com pessoas. Foi nelas que encontrei forças para me dedicar e continuar. Os olhos vibrantes e cheios de esperança da minha equipe, o agradecimento genuíno de microempresários que puderam receber nosso compartilhamento de conhecimento, as trocas generosas com colegas que me aproximei a partir das lives, a palavra de apoio de amigos, o sorriso das minhas filhas ao receber meu abraço quentinho e atenção ativa para ouvir sobre os desafios do dia. Gente ajudando gente, apoiando gente, agindo de forma empática com a GENTE.

Existe um custo psíquico no isolamento. Custo este que dificilmente lamentamos e muito menos compartilhamos porque, neste momento, há uma situação com peso maior afetando muitos de nós. Entre altos e baixos, aprendi muito mais com os vales do que com os picos e procurei me manter positiva e ter esperanças, enfrentando cada desafio em sua essência. Exercitei tolerar a minha verdade sem filtros e admitir que tudo bem não termos respostas para tudo. Este foi, de fato, o meu maior aprendizado até o momento. Ao entender isso, me abri para redesenhar formatos e experiências e me sinto muito mais forte do que quando comecei esta nova jornada.

Que a gente consiga, cada vez mais, compartilhar o que estamos sentindo na real. Fará um bem enorme para todos. Para os que quiserem continuar esta conversa, nesta sexta (10.07), às 19h, quando estarei no meu Instagram @camilasalek para trocar com vocês. Meia horinha, com uma taça de vinho na mão. Aparece lá para compartilhar seu lado B comigo. Beijos no coração.