Kankyo Tannier – Foto: Divulgação

Por Camila Salek

Sempre venho por aqui trazendo pensamentos voltados às tendências, movimentos de consumo e próximos passos no varejo. Se você é leitor assíduo desta coluna, já deve ter sido impactado por algumas destas minhas provocações. Hoje te convido a fazer uma reflexão: o que você faz com todo o conteúdo que consome?

Durante os últimos 20 meses a nossa sede de viver foi evidenciada. Fizemos de tudo! Desafiamos sistemas e regras, aceleramos a ciência, a tecnologia e a inovação. Questionamos nossa relação com o trabalho. Repensamos nossa forma de viver. Neste processo, consumimos “conteúdo” como loucos e dispersamos muita energia fomentando a ansiedade e o hábito da atualização constante. Lembram do botãozinho F5 no teclado do computador que funciona como um atalho para atualização? Parece que apertá-lo se tornou uma premissa no mundo atual.

Sedentos por saber sobre tudo o que está rolando, acabamos nos atualizando apenas superficialmente. A neurocientista Carmen Simon contou durante seu painel no último SXSW, que após 48 horas de exposição a um conteúdo ou experiência, as pessoas retêm menos de 1% do mesmo. Impressionante, não é? Resultado: estamos intoxicados por informações e imersos na superficialidade, que gera espaço para um círculo vicioso de produção e consumo extremamente rasos. Afinal de contas, por que se aprofundar em algo se não vou fazer absolutamente nada com esta informação, não é mesmo?

Passei as últimas semanas envolvida em compartilhar conteúdo de dois grandes eventos que participei nos últimos meses e pude trocar com profissionais do segmento. Senti que muitas pessoas estavam exaustas e, na maior parte das vezes, presas na inércia do dia a dia que é supercomplexo, confuso e volátil. Não sobra energia para ser canalizada na ação e transformação que se faz necessária neste momento. Ontem, durante uma destas discussões, me lembrei da frase da Priya Parker, especialista em resolução de conflitos e autora de “On Gathering”, durante o SXSW: “Estruturas organizacionais estão colapsadas, porque estamos lidando de forma superficial com problemas extremamente complexos da sociedade. Precisamos sustentar diálogos e acabar com conversas paralelas e superficiais.”

A cada passo entendemos que, como sociedade, precisamos RENASCER PARA UMA REALIDADE SUSTENTÁVEL, que precisa atingir todas as esferas com as quais nós todos nos relacionamos. E é neste momento que o silêncio se faz absolutamente necessário. O silêncio é aquele espaço em branco, que permite que tudo emerja. Sem pausas de silêncio, a nossa mente entupida de informações, dificilmente conseguirá passar de fase. É preciso dar espaço para o silêncio da tela em branco para conseguirmos deixar fluir experiências, ideias e soluções que melhorem nossa forma de viver, trabalhar, comprar e nos divertir!

Como muito bem colocou a nova voz do budismo, a monja francesa Kankyo Tannier no livro “A Magia do Silêncio”, quando adotamos a prática do silêncio interior, nos tornamos capazes de desenvolver um novo ritmo interno. Não apenas o silêncio das palavras, mas também dos pensamentos (reduzindo julgamentos e críticas internas), dos olhos (evitando o excesso de informações) e do corpo (reencontrando o prazer de estar presente a cada momento). Esta é a minha busca no momento.

Foto: Divulgação

Vamos sim falar sobre tendências, mas agora precisamos de uma pausa para evolução em silêncio. Silenciar para dar espaço a fluidez dos próximos passos que se fazem necessários. Quem concorda?

@camilasalek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.