Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por Camila Salek

Já disse algumas vezes que a pandemia está permitindo uma rara janela de reflexão em nossas vidas. Estamos tendo a oportunidade de avaliar nossas entregas ao mundo, nossa dedicação à família, ao trabalho e a nós mesmos. Quem passou por estas ponderações, provavelmente se deparou com uma realidade que questiona padrões de sucesso.

Na semana passada, li uma newsletter incrível do Adam Grant, onde um dos parágrafos me pegou de jeito:

“Se você define sucesso apenas em termos de ganho de riqueza, conquista ou influência, o que geralmente perde é liberdade.  Uma das maiores realizações da vida é ganhar autonomia para escolher como você gasta seu tempo.  Nenhuma moeda é mais valiosa – ou mais escassa – que a liberdade.”

A mais pura verdade. Esta frase me deixou inquieta e me lembrou de um amigo que toda vez que me liga, fala que sou puro sucesso nesta pandemia, me chamando de “RAINHA DAS LIVES”. Depois de muito rir quando ele usou esta expressão, percebi que conquistar “influência” sobre determinado assunto, gera uma entrega absurda de dedicação e tempo que, apesar de promover trocas incríveis, acaba por absorver boa parte da nossa energia produtiva. Sucesso? Tudo muito relativo. Eu que nos últimos anos sempre tive autonomia para decidir como gastaria meu tempo, me vi presa a uma agenda insana que eu mesma criei! Todas as experiências foram superbacanas, mas me dei conta de que era preciso colocar um limite.

Muitas vezes nos tornamos reféns de realidades e desafios que criamos para nós mesmos e que se somam ao nosso dia a dia cheio de adversidades. Chamo isso de armadilha da mente, que provoca alguns de nós a ir ao limite, ainda que não exista real necessidade para isso. Agir assim faz com que a régua em relação ao padrão anterior seja elevada constantemente, criando um modelo automatizado de conquistas num ciclo continuo, que gera realização, estresse e ansiedade. Basicamente nos esquecemos que não somos máquinas.

Um bom exercício que tem funcionado para mim nesta pandemia, foi limitar a quantidade diária de tempo destinado a lidar com problemas. Passava muito dos meus dias remoendo questões sem respostas até decidir aceitar que um problema pode esperar até o dia seguinte por um insight. Para quem gosta do desafio de buscar soluções, não é uma tarefa fácil, mas tem sido aliviante e realizador.

No meu circulo profissional – leia-se: Moda, Varejo e Criativos em geral – vejo um forte movimento que aponta para profissionais precisando se reinventar para assumir responsabilidades que não tinham anteriormente, sob uma altíssima pressão por entregas de resultados. Tudo ao mesmo tempo e agora. Gestores generalistas são a bola da vez e estão ocupando cargos que antes eram de especialistas. Para os que estão em atividade plena, há um sentimento generalizado de que nunca aprendemos tanto, da mesma forma que nunca estivemos com o tempo tão escasso. É como aquela obra do Maurizio Cattelan “A perfect day”, onde nos sentimos grudados em uma cadeira de trabalho, voltados para a alta produtividade que potencializa níveis elevados de angustia e exaustão.

Maurizio Cattelan, “A perfect day” – Foto: Divulgação

Estamos no limite da incerteza. Quando isso acontece precisamos revisitar nossas convicções. Repito aqui a pergunta que abre esta coluna e te convido a refletir: o que define o seu sucesso?

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.