A colunista Carolina Andraus fala sobre o termo “gaslighting” em sua nova coluna na Bazaar – Foto: Arquivo Pessoal

Por Carolina Andraus

Na semana em que o Senado aprovou a lei que torna crime a violência psicológica contra a mulher, que tal entendermos melhor o que isso significa e como essa violência acontece? Segundo a recém-aprovada lei, que deverá ser sancionada pela Presidência da República, violência psicológica “é considerada qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões”.

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Muito bem definida pelo termo em inglês “gaslighting”, esse tipo de violência se origina da manipulação psicológica sistêmica de uma vítima por seu marido ou companheiro, o tipo de manipulação que caracteriza relacionamentos abusivos.

Distorcer informações. Omitir a verdade. Inventar mentiras. Essas são algumas formas de realizar o abuso psicológico, que acontece pela manipulação realizada pelo agressor, que faz a vítima questionar a sua própria sanidade mental e inteligência.

Reconhecer esse tipo de comportamento, muitas vezes, é um dos maiores desafios, já que a manipulação envolve atacar a autoimagem da vítima, que, por outro lado, pode ter muita dificuldade não apenas em perceber, mas também em relatar o abuso. Demonstrações de amor, atenção e cuidado muitas vezes são usados como disfarces para confundir e manipular a pessoa que está sofrendo esse tipo de ataque crônico.

Os cinco principais sinais de que o agressor está cometendo abuso psicológico incluem:

  1. Nunca admite a verdade dos fatos, faz a vítima questionar a sua realidade. Assim, ela começa a duvidar das próprias convicções, tornando-se, novamente submissa ao agressor;
  2. O abusador utiliza o que é precioso para a vítima como forma de depreciá-la. Por exemplo, a violência psicológica contra a mulher pode envolver os filhos dela. Nesse caso, o agressor diz frases como “Você não é boa o suficiente para eles” ou “Você nunca deveria ter tido filhos”;
  3. Pessoas que realizam abuso psicológico, geralmente, fazem uma coisa e dizem outra. Então, preste atenção nas atitudes delas e se o que dizem condiz com as suas ações. A contradição entre elas pode ser a chave para identificar o gaslighting;
  4. Após as agressões, o agressor usa do elogio para manter a pessoa sob o seu domínio. A manipulação psicológica, nesse sentido, ocorre para manter a pessoa vulnerável a novos ataques;
  5. O abusador utiliza mentiras e manipula a vítima para afastá-la de todos. Dessa forma, o agressor diz que as pessoas não gostam da vítima ou que determinado grupo não serve de boa companhia para ela.

Por outro lado, as cinco principais características de violência psicológica , segundo a visão da vítima, incluem principalmente:

  1. Criar justificativas para o comportamento do abusador já que, geralmente, as ações do agressor refletem uma realidade diferente da de suas palavras. A vítima passa a criar explicações das atitudes nada sensatas dele. Isso funciona como um mecanismo de defesa para evitar o choque de realidade da violência psicológica;
  2. Está sempre pedindo desculpas para o agressor, mesmo quando não há motivo para tal, e muitas vezes mesmo sem saber por que está fazendo aquilo, mas continua o fazendo mesmo assim para evitar problemas;
  3. Constantemente se sente confusa por causa da manipulação psicológica, a vítima fica em um estado de confusão permanente. O pior disso tudo é que ela começa a cogitar que não é uma boa pessoa ou que é até mesmo maluca;
  4. Sente que costumava ser uma pessoa diferente, confiante, divertida, relaxada. Esses adjetivos não podem mais ser usados para descrever a vítima. Aliás, ela não entende o que mudou e só sente que é uma pessoa diferente do que era antes. Nesses casos, é comum amigos próximos e familiares apontarem essas características discrepantes;
  5. Não entende por que não está mais feliz, e mesmo quando coisas boas estão acontecendo ao redor da vítima, ela não consegue se sentir feliz. Aparentemente, tudo está bem, porém, mesmo assim, não consegue ficar bem consigo mesma. O abuso psicológico reprime os sentimentos.

De acordo com a autora e psicanalista Robin Stern, em seu livro “The Gaslightning Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulation Others Use to Control Your Life”, conheça os principais sinais de que você está sendo vítima de manipulação psicológica por meio de uma série de perguntas de autoanálise que devemos levar em consideração, não apenas mulheres, mas homens também, quando existe um profundo sentimento de confusão e infelicidade sem motivo aparente.

Entre os principais questionamentos que sinalizam a manipulação emocional sistêmica estão:

  1. Você duvida de si mesma constantemente?
  2. Você se pergunta “Eu sou sensível demais” várias vezes ao dia?
  3. Você constantemente se sente confusa ou até mesmo maluca?
  4. Sua opinião sobre você muda de acordo com a aprovação ou desaprovação de seu cônjuge?
  5. Você teme que pequenas coisas deem errado em casa – comprar a marca errada de pasta de dente, não ter o jantar pronto na hora certa, uma consulta errada escrita no calendário?
  6. Você tem dificuldade para tomar decisões simples e se questiona constantemente?
  7. Você frequentemente dá desculpas pelo comportamento de seu parceiro para sua família e amigos?
  8. Você se sente sem esperança e sem alegria?

Se algumas dessas perguntas, ou talvez todas elas, fazem bastante sentido para você, está na hora de reavaliar, pedir ajuda, buscar uma terapia ou aconselhamento de família e amigos, e se aprofundar no assunto.

Entender a forma como o abuso acontece e poder falar abertamente sobre ele e pedir ajuda serão as grandes conquistas a serem alcançadas com a aplicação dessa lei, que veio para proteger principalmente as mulheres e permitir que exista uma proteção real contra esse crime silencioso.

Não existe um perfil da vítima de violência psicológica, ela independe de tipo ou condição social ou econômica da mulher, ela não faz distinções e está mais profundamente presente do que podemos imaginar.

Dessa forma, é importante identificar os sinais do abuso para saber como combater a violência psicológica. Sendo assim, dividimos em atitudes e situações que o agressor e a vítima passam quando estão nessa situação. E, não se esqueça, violência psicológica é crime.

Carolina Andraus é formada pela FGV, ex-mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova Iorque, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.