Katy Hochul, nova governadora do estado de Nova York – Foto: Reprodução/Instagram/@ltgovhochulny

Por Carolina Andraus

A notícia da renúncia do Governador de Nova York, Andrew Cuomo, após 11 denúncias por assédio a mulheres, e o fato de que sua vice Kathy Hochul é, não apenas uma mulher, mas também uma grande defensora das vítimas de violência doméstica, é um sinal dos tempos. A verdade transbordou, apesar da alta popularidade do governador, que esteve diariamente dando relatórios sobre a Covid-19 durante toda a pandemia, como um quase herói de Nova York, um dos maiores epicentros da pandemia.

No discurso de renúncia de Cuomo, ele afirma calmamente, olhando para as câmeras, “tudo o que eu fiz foi motivado por amor, eu amo vocês”, e continua dizendo que se sentiu muito constrangido ao assistir, ao lado das três filhas, a notícias intermináveis sobre as investigações e o escândalo que envolvem seu nome, e continua dizendo “eu nunca trataria nenhuma mulher diferente do que eu gostaria que minhas filhas fossem tratadas”.

A dicotomia entre o comportamento e a fala fica mais que evidente primeiro pela negação, talvez por estratégia de defesa do indefensável, e depois na tentativa de colocar um filtro de amorosidade na sua figura publica. Quando Cuomo embasa seu discurso na palavra e conceito de amor, e se coloca na posição da figura de pai, não posso deixar me perguntar se seria aceitável que suas filhas fossem tratadas como essas 11 mulheres? Certamente a resposta é: não.

O posicionamento de Cuomo mostra, de forma bem clara, que existe ainda uma profunda negação do próprio abusador, em uma tentativa de humanizar o que não pode ser humanizado, estratégia adotada na absoluta maioria das vezes. Dessa forma, as mulheres de maneira geral enfrentam um forte enfraquecimento social, e rapidamente costumam ser rotuladas de adjetivos que esvaziam a credibilidade das vitimas. Em nenhum momento, ao ouvir o discurso de Cuomo, percebemos traços de arrependimento pela agressão em si, mas fica clara uma terrível angustia pelo impacto na sua imagem politica e pessoal.

A nova Governadora Kathy Hochul, estrategicamente escolhida por Cuomo nas eleições justamente para fortalecer sua imagem positiva com as mulheres, terá um espaço importantíssimo não apenas por ser a primeira mulher da história a assumir Governo do Estado de Nova York, mas pela sua trajetória de suporte e capacitação para as mulheres, tendo inclusive fundado em 2006, com a ajuda de sua mãe, um lar para abrigar mulheres em posição de vulnerabilidade extrema.

Kathy Hochul sempre teve no topo de sua agenda, em toda a sua carreira publica, questões que são importantes para as mulheres. Nos últimos anos, viajando pelo estado, ela alavancou sua posição como a funcionária mais graduada do governo estadual para encorajar as mulheres a serem uma voz ativa para a mudança. Kathy quer que as mulheres sonhem alto e assumam riscos – e ela acredita em salário igual para trabalho igual.

Vemos o mundo em constante transformação e crescimento quando o assunto é a igualdade de gêneros e o respeito pelas mulheres. Percebemos cada vez mais que há cada vez menos o espaço para abusadores, e que a nossa consciência coletiva está percebendo não apenas a gravidade de séculos de violências contra a mulher, mas, por outro lado, que o mundo é um lugar melhor quando vivemos todos em um ambiente em que todos tem espaço para ver a sua melhor versão, usar seus talentos, ter o devido espaço e reconhecimento e que, juntos, podemos construir um mundo mais harmonioso e prospero para todos. Dar às mulheres o devido espaço e reconhecimento não diminui em nada a força dos homens, muito pelo contrário, transforma todo tipo de iniciativa e atividade trazendo não apenas inteligência, dedicação, como também criatividade e amorosidade.

Tratar bem o próximo, quem quer que ele seja, é o básico do básico. E o universo está empenhado em nos mostrar que esse é o caminho do futuro, e cada vez mais a transparência e a velocidade da comunicação do novo milênio estão contribuindo para que essa nova realidade de respeito mutuo, em todas as relações humanas, entre gêneros, raças e classes sociais. Não existe outro caminho.

Carolina Andraus é formada pela FGV, ex-mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova Iorque, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.