Foto: Pixabay

Por Carolina Andraus

Com a chegada das comemorações de final de ano, e com a pandemia se aproximando de completar um ano, estamos todos já muito mais adaptados, porém profundamente saudosos de poder nos frequentar. Com a já esperada segunda onda, que já mostra sinais de ser mais forte que a primeira, o que é correto, elegante e aceitável na forma de nos comportarmos socialmente?

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Um dos grandes desafios que o planeta vem enfrentando ao longo desse estranho ano de 2020 é encontrar o equilíbrio entre a proteção e a exposição, e descobrir quais são os nossos novos limites no que diz respeito à retomada de uma certa normalidade na nova realidade que, pouco a pouco, se mostra ser mais longa do que qualquer um de nós conseguiria imaginar.

Um estudo feito pelo Universidade de Harvard, por um período de mais de 80 anos, confirma que vive melhor quem interage com sua comunidade e leva uma vida alegre. Segundo o estudo, que acompanhou de 138 alunos desde 1938, solidão tem um efeito mais mortal na saúde das pessoas que cigarro e álcool em excesso. A necessidade humana de convívio social é uma verdade absoluta no que diz respeito não só à longevidade, saúde mental, mas também à imunidade, já que o contato com o mundo nos expõe a um grande numero de vírus e bactérias diariamente, o que nos fortalece.

Pouco a pouco as pessoas estão retomando suas rotinas, e voltando a se encontrar socialmente de forma mais aberta. Alguns grupos resistiram a todas as recomendações e continuaram se “frequentando”, outros vêm gradualmente se permitindo voltar a aparecer em lugares públicos, jantares e até festas. Sim, somos latinos, temos essa alegria de viver e compartilhar muito mais acentuada que outras culturas. E no caso do Brasil, a nossa latinidade vem acentuada com o nosso borogodó da bossa nova, do Carnaval, da alegria de viver do brasileiro, e com o nosso maravilhoso e convidativo clima tropical.

Quando voltei a sair com mais frequência, há alguns meses, meu protocolo pessoal estava definido. Usando máscaras em lugares públicos, me permiti tirar a máscara quando em distanciamento social seguro, já que sou IgG positivo, mas mantendo distância segura, álcool em gel sempre a postos, e cumprimentando as pessoas a distancia. Me surpreendeu a reação fortíssima que recebi contrária ao meu comportamento consciente. Ao entrar em jantares ou reuniões sociais, percebi claramente como a maioria se transformava em seres abstraídos da realidade mundial, com uma amnésia pandêmica. Quando as pessoas vinham me cumprimentar, precisei impor uma distancia colocando meu braço estendido no ombro de amigos e desconhecidos, que vinham me dar um beijo no rosto como se nada estivesse acontecendo.

A minha reação em não querer cumprimentar recebeu uma forte retaliação, com a grande maioria das pessoas oscilando entre espanto, quase como se essa atitude fosse de uma certa arrogância, e piadas com um certo bullying, me perguntando se eu ainda “estava nessa”, rostos quase espantados querendo saber por onde eu andei nos últimos meses, “em que outro planeta?”. Tive uma sensação muito incômoda, como se eu estivesse em uma neurose individual e fora de compasso com o mundo.

Depois de algumas semanas, soube que muitas dessas mesmas pessoas apareceram com Covid-19. Muitos dos que riram, infelizmente foram contaminados exatamente quando nos encontramos. Percebo que existe uma forte reação emocional de negação do risco, que vem como uma euforia de querer viver, que parece nos remeter a zonas de guerra, grandes colapsos econômicos, momentos de muita dificuldade, que faz com que as pessoas queiram experimentar intensamente os momentos felizes.

Mas a realidade tem sido dura, e nos mostra que, sim, temos que repensar a forma como interagimos. Temos que desmistificar os nossos impulsos latinos e abolir abraços e beijos no rosto. Precisamos estar mais conscientes, e perceber que quando fazemos a nossa parte de maneira consciente e coerente, contribuímos para controlar a pandemia. Está na hora de quebrarmos os tabus, e aprendermos a ser carinhosos nas palavras, generosos nas atitudes, demonstrando com gestos de proteção nossas emoções.

Carolina Andraus – Foto: Divulgação

A mudança na forma como nos relacionamos é um enorme desafio. Eu, que sempre fui uma pessoa mais reservada, me vi sentindo falta dos abraços, aqueles abraços que no passado muitas vezes eu achei um exagero de latinidade. Me percebi sentindo, mais do que nunca, vontade de abraçar meus amigos queridos. Vontade de ter mais contato humano, de estar perto das pessoas. Porém, a mudança neste momento é importantíssima. É uma questão de respeito ao próximo, e de servirmos de exemplo nos nossos meios, independentemente se somos IgG positivo ou não, em respeito a milhões de pessoas pelo mundo sofrendo com lockdowns, hospitais, e crises financeiras.

É tempo de sermos mais preocupados em agregar, com conversas mais profundas, com ações de ajuda social, preocupação e interesse reais pelas pessoas à nossa volta, e nos desapegarmos das convenções de beijarmos no rosto pessoas que não temos nenhuma intimidade, inclusive pessoas que não conhecemos.

Como é difícil a mudança de comportamento… É um desafio para todos nós, mas socialmente seremos muito mais elegantes e coerentes se conseguirmos nos manter firmes no propósito de nos posicionarmos respeitosamente ao próximo, e que essa é a boa e agradável maneira de podermos ter, sim, um pouco de convívio social, porém com as precauções e responsabilidade necessárias.

Com toda a inteligência e tecnologia a que o mundo tem acesso hoje, o comportamento humano ainda sofre pela dificuldade de expandir a consciência em todos os níveis, de preconceitos raciais, direitos iguais entre gêneros, liberdade de sermos e nos aceitarmos com as nossas individualidades, qualidades e limitações. A mudança comportamental exigida neste momento, que é relativamente simples, mas tão difícil de alcançar, já que envolve a necessidade inerente do ser humano de nos relacionarmos. Essa nova forma de nos comportarmos, de nos colocarmos em sociedade, está diretamente ligada a um aumento de consciência, já que exige o entendimento que não queremos ser agentes de transmissão de um vírus perigosíssimo, que assombra o bem-estar mundial. Confesso que sinto saudades dos abraços, e espero que possamos abraçar de novo todas as pessoas que amamos. Mas hoje o mais carinhoso abraço vem na forma do cuidado com o um comportamento social elegantemente cuidadoso.