Carrie Bradshaw, personagem de Sarah Jessica Parker em “Sex and the City” – Foto: IMDB

Por Carolina Andraus

A transparência, quando o assunto é igualdade de gênero, tem se mostrado muito importante na forma como o mercado percebe grandes corporações. Pensando em aumentar ainda mais essa transparência, e liderar um movimento de políticas sociais mais justas no mundo corporativo, a Bloomberg, líder mundial de informações financeiras, criou há alguns anos o Índice de Igualdade de Gênero (GEI – Gender Equality Index). Esse índice, para empresas listadas em bolsa, mede diversas nuances e permitem que as companhias atraiam capital e talentos, façam decisões de investimentos com viés social, impactem positivamente seus colaboradores e as comunidades onde estão inseridos.  

O GEI mede a performance e exige a transparência em pontos como liderança, recrutamento, questões de remuneração, além de cultura de inclusão onde as questões femininas são levadas em consideração, além de um posicionamento de marca onde os fornecedores e a cadeia produtiva estejam também atentos às questões de igualdade, além da questão importantíssima da proteção contra assédio no ambiente de trabalho. 

Veja os pilares do índice abaixo:

Foto: Divulgação

Hoje já são 380 companhias pelo mundo, sendo que nomes brasileiros em 2021 incluem apenas a petroquímica Brasken e a empresa de cosméticos Avon, recentemente comprada pelo Grupo Natura. Avanços importantes podem ser vistos quando, por exemplo, uma empresa da Indonésia, país de maioria muçulmana, passou a compor o GEI em 2020. 

Na Europa, por outro lado, existe o Índice de Igualdade de Gêneros do Instituto Europeu de Igualdade de Gênero, que monitora não apenas empresas europeias, mas também dá nota a cada um dos países europeus de acordo com seu posicionamento. Como esperado, a Suécia aparece como líder absoluta, atualmente com nota de 83.8, seguida pela Dinamarca com nota 77.4. Mesmo com o grande avanço dos países europeus, vemos que ainda não existe uma nota 100 mesmo entre os campeões mundiais quando o assunto é o direto de gênero.

O Índice Europeu leva em consideração questões mais amplas ligadas à qualidade de vida das mulheres, especialmente quando falamos em saúde, tempo, e independência financeira, e obviamente a não violência. Outros pontos como acesso a conhecimento, trabalho e poder são desdobramentos esperados quando existe o equilíbrio na questão de gênero. Veja os pilares do quadro abaixo:

Foto: Divulgação

Não é segredo ou novidade que as mulheres ainda têm que percorrer um caminho muito mais difícil nas suas carreiras para serem remuneradas e terem as mesmas oportunidades que seus colegas homens. Vivemos uma realidade onde, superficialmente, as mulheres aparecem como tendo grande liberdade e autonomia, quando comparadas com realidades vividas em um passado não tão distante onde mulheres não podiam votar ou ter contas em bancos, sem a supervisão de pais ou maridos. 

Desde então temos buscado, pela nossa competência e capacidade, galgar posições de liderança, sermos reconhecidas por nossas performances e alcançarmos remuneração e espaço que reflitam nosso desempenho. O conceito pode parecer simples, mas acrescente a isso o componente cuidados com os filhos, grande parte da responsabilidade pela organização do núcleo familiar e as variações hormonais constantes, e talvez nossos pares masculinos comecem a entender a força absurda que vem literalmente ao trabalho, da próxima vez que olharem uma mulher com seu salto alto e maquiagem perfeitos, multitasking pela vida com um sorriso no rosto, toda vez que entra em uma reunião predominantemente masculina.  Afinal, nós mulheres somos aproximadamente 49,6% da população mundial e estamos longe de ter 49,6% da renda mundial ou das posições de liderança, ou seja, é tempo de repensar mais profundamente como ainda somos realmente percebidas quando o assunto é oportunidades de crescimento.  

Através da transparência e da visibilidade poderemos estabelecer uma conversa mais objetiva. A realidade é que temos ainda um imenso caminho a percorrer, e quanto mais pudermos entender a força das mulheres, de deixá-las crescer e usar seu potencial, mais teremos um mundo onde sensibilidade dá o tom às decisões mais difíceis, onde o lado humano é sempre levado em consideração, onde somos mais que simplesmente números em grandes conglomerados. Mulheres têm essa capacidade, de perceber as nuances e fazer do crescimento não apenas uma decisão de negócios, mas de tornar companhias que decidem se abrir para receber todo o talento feminino vistas como sólidas e admiráveis, e como consequência mais valorizadas. Fica a dica. 

Carolina Andraus é formada pela FGV, ex-mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova Iorque, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.