Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por Carolina Andraus

No último século, romance incluía jantares, um cinema, beijos em uma festa ou um bar cheio de pessoas, e abruptamente a busca de um novo romance teve seus rituais extintos, e substituídos por distanciamento social, uso de máscaras e o constante risco de contaminação. 

A espontaneidade de um encontro, de conhecer e flertar com alguém novo, ou algum reencontro do passado, já não acontece mais. Bares e restaurantes estiveram fechados, festas apenas algumas clandestinas e realmente um programa irresponsável e quase camicase, e o medo, dificultaram bastante a vida dos solteiros.

Os aplicativos de relacionamento chegaram para ficar já a algum tempo se tornaram cada vez mais um dos poucos pools viáveis para movimentar a vida dos solteiros. Encontros a céu aberto em parques ou pelas ruas passaram a ser uma outra alternativa viável. Uma amiga que logo no início da pandemia começou a namorar por aplicativo me explicou que sua estratégia para começar a conhecer uma pessoa nova é marcar um drink virtual, ou um date por Face Time para conhecer um pouco a pessoa, conversar tomando um drink com toda a segurança antes de se arriscar em um encontro ao vivo.

Por outro lado, a famosa linha “fui testado” ontem ou hoje ou essa semana não são exatamente uma segurança real, já que a pessoa pode estar infectada ainda sem sintomas, ou se contaminar literalmente logo em seguida do teste, em especial quando falamos em testes de farmácia. Uma coisa é sentar-se à uma mesa com um certo distanciamento, sendo todos testados, outra coisa é um date. O grau de contaminação, digamos assim, tende a ser bem maior.

Em Nova York, onde o mundo está gradualmente voltando a uma certa normalidade com a chegada da vacinação em massa e do clima ameno de primavera, o pick-up line mais em alta é “estou vacinado”. Em um mundo onde estivemos com escassez de relações humanas, e, consequentemente de romance, as agências de match-making que estão um degrau acima dos aplicativos, pela seleção direcionada do pool de clientes, têm visto a demanda ir para as alturas com a procura subindo em até 700%, segundo um artigo recente do “New York Times”.  Esse que é um serviço cada vez mais comum no exterior, ainda está disponível aqui no Brasil.

A euforia da vacina, já disponível em todas as faixas etárias em países como os Estados Unidos, diminuiu o medo de contaminação, mas não as ansiedades pela mudança estrutural do ultimo ano, e para quem esta pensando em começar um romance ou um namoro, isso provavelmente irá significar dividir historias e perdas relacionadas à Covid-19. E nem todos estão dispostos a se aprofundar nos dramas alheios.

Para nós, latinos, somos mais acostumados com adversidades, crises, altos e baixos, e temos um maior senso de humor quando pensamos nas nossas tragédias pessoais. Aprendemos a custas de um sofrimento nacional coletivo a transmutar traumas e viver com criatividade na adversidade. Isso também nos coloca provavelmente na lista de maior número de festas ilegais, encontros politicamente incorretos, e transgressões às regras de distanciamento social. Somos altamente movidos a calor humano, o que nesse momento ainda é uma escolha de alto risco.

Para os mais arrojados, as alternativas para uma vida de solteiro possível, em um mundo paralelo ao caos global, estão em universos paralelos que acontecem em Tulum e Dubai. No primeiro estão grande parte da nova onda hippie-chic, que se joga nas praias e festas cheias de europeus e latino-americanos fazendo quarentena para entrar nos Estados Unidos, ou simplesmente tentando fugir das realidades mais duras de seus próprios países. Em Dubai, que é um dos maiores hubs mundiais de comércio, já que está a seis horas de voo de 80% da população do mundo, Europeus, Árabes de diversos países, Indianos e latinos se encontram em festas no deserto, grandes produções não instagramáveis, e vivem dias de negação da realidade sem culpa. E de Dubai, quando se cansam do agito, pegam voos para as praias das Maldivas ou para um safari na África para descansar. E sim, muitos novos namoros, romances, talvez em um grau até maior que no mundo que conhecíamos.

Para a maioria de nós, que não quer correr o risco ou não pode viajar para longe, aprendemos a viver em um mundo mais digital. Passamos a nos relacionar por telas intermináveis entre reuniões de trabalho, vídeo calls com a família e amigos, e nos adaptar a uma vida mais solitária.  Depois de um ano com nossas vidas on-hold, muitos de nós estamos com mais clareza do que nunca do que é importante e do que faz realmente sentido para nossas vidas. Segundo um estudo feito pelo aplicativo Tinder, as pessoas estão se comunicando de forma mais transparente, verdadeira, e priorizando qualidade de personalidade como senso de humor e a busca de crescimento interior, mais do que peso e altura como no passado. 

Podemos concluir que estamos buscando nos aprofundar na forma como escolhemos as pessoas que queremos ter à nossa volta e como nos relacionamos. Com isso, muitas pessoas estão mais voltadas para si próprias, buscando se fortalecer e manter, dentro do possível, um certo grau de sanidade mental. Afinal mente, corpo e espírito estão totalmente interligados, e a busca do equilíbrio das três nuances do nosso existir estão especialmente desafiadores. Mas para quem acredita em se apaixonar, e viver uma linda história de amor, o mundo parece estar mais propício para o romance do que para relações descartáveis? E seria essa uma mudança positiva da desaceleração que a pandemia trouxe para o mundo? 

Carolina Andraus é formada pela FGV, ex-mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova Iorque, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.