Foto: Giovanni Gastel, com edição de moda de Kristen Ingersoll
Foto: Giovanni Gastel, com edição de moda de Kristen Ingersoll

Por Eléonore Marchand

Catherine Deneuve está procurando seus cigarros – slims da Marlboro. Ela acende um e, enquanto conversamos, não demora a pegar outro. “Eu fumo demais”, diz ela. “Adoraria se pudesse apagar isso de mim.” Por hora, Catherine comenta que talvez vá trocá-los por um cigarro eletrônico. Provavelmente uma abordagem mais realista do que apagar algo de uma celebrada personalidade da cultura da França, que foi a modelo real para a Marianne, a figura da república que aparece há anos em moedas e selos por toda a nação.

Aos 75 anos, comemorados nesta segunda-feira (22.10), a soberana do cinema francês tem preservado uma imagem mundial que personifica, de forma inigualável, a sofisticação francesa, um ícone de estilo ainda muito presente no mundo da moda. Ela gerou controvérsia, em janeiro passado, quando se juntou a 99 outras mulheres que assinaram uma carta aberta desafiando o movimento #MeToo e seu equivalente francês, #BalanceTonPorc, afirmando que as campanhas infantilizam as mulheres e contribuem para um clima de puritanismo sexual e pensamento totalitário.

Uma forte reação se seguiu, e Catherine respondeu com uma carta dizendo que apoiar a declaração original publicada no jornal “Le Monde” não significa que ela tolera abuso sexual ou outra má conduta. “Sou uma mulher livre e vou continuar assim”, disse Catherine em sua réplica no jornal “Libération”. “Saúdo fraternalmente todas as mulheres vítimas de odiosos atos que possam ter se sentido ofendidas pela carta no ‘Le Monde’. É a elas, e somente a elas, que peço desculpas.”

Hoje, Catherine não tem muito a acrescentar e mantém suas palavras. “Fiz a minha parte e não tenho nada mais a dizer além do que disse em minha carta”, comenta. Mas ela acredita que há um trabalho a ser feito para que se aborde de forma produtiva o debate e a zona cinzenta que existe entre poder e sedução. “Um fotógrafo, um artista, um cantor”, diz.

“Há uma parte de sedução e desejo [nessas profissões]. Mas o problema é saber onde está o limite e a diferença entre seduzir alguém e ir longe demais. Acho que o melhor seria forçar todas as empresas a terem códigos de conduta, e as pessoas que estão na companhia – não importa o cargo – devem concordar em se comportar de forma respeitosa com homens e mulheres. É parte de seus contratos. E acho que está na hora de começar nas escolas. Deveria ser parte da educação. Meninos tentam seduzir meninas e, às vezes, eles forçam a barra. Então, é mesmo um tema para a educação.”

A atriz falou sobre questões das mulheres no passado e, em 1971, assinou uma petição pró-aborto escrita pela autora feminista Simone de Beauvoir, na qual revelou que fez um aborto quando a prática ainda era ilegal na França. “Achava que ser processada por isso era algo realmente injusto”, diz. “Por isso tantas pessoas assinaram aquela carta. Porque você deve ser capaz de escolher o que quer e nem sempre achar que sexo significa ter filhos. Sempre estive ao lado das mulheres. Faço o que considero certo sob o meu ponto de vista.”

Concordando ou não com Catherine, ela, sem dúvida, fala com uma candura impressionante. E com a mesma honestidade, ela comenta sobre seu sucesso no cinema. “No começo, não tem muito a ver com talento”, diz. “Tem muita relação com sua aparência física. Quando você tem uma mulher bonita entrando em um ambiente, ela atrai as pessoas. É injusto, mas é a vida.”

Foi sua irmã, Françoise Dorléac, que morreu tragicamente aos 25 anos em um acidente de carro, que inspirou Catherine a começa a atuar. “Minha irmã foi atriz antes de mim. Foi durante as festas de fim de ano que me chamaram para fazer um teste para um filme em que ela teria uma irmã”, relembra. “Foi assim que começou, eu não tinha certeza se continuaria nos filmes quando fiz aquele com ela.”

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Com uma carreira de mais 50 anos, mais de cem filmes e a escolha perspicaz por cineastas não convencionais, Catherine foi reconhecida pela primeira vez aos 21 anos, no musical “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de Jacques Demy. “Tem a ver com sorte, mas também com as escolhas que se faz”, acredita ela.

Ela continuou encantando o público ao encarnar belas mulheres misteriosas em vários filmes festejados, como “A Bela da Tarde”, de Luis Buñuel, “O Último Metrô”, de François Truffaut, e “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski, provando ter habilidade para encarar personagens complexas.

Nas telas ou fora delas, fascinou o mundo, incluindo a arena fashion. Uma amizade especial entre ela e o estilista Yves Saint Laurent teve início quando ele a vestiu com um figurino que ficou famoso em “A Bela da Tarde”. “Minha relação com a moda existe há bastante tempo e está relacionada ao próprio Yves Saint Laurent. Comecei a ir ao ateliê dele muito, muito nova, o que é impressionante quando penso hoje. O relacionamento durou e era algo que eu prezava muito”, conta.

“Mais do que roupas, gosto dos materiais. Gosto dos tecidos, das cores… Quando você segue alguém por tanto tempo, usa suas criações, existe algo que vai além das palavras. Você sabe a sensação de ter uma seda sobre sua pele, porque tudo é feito à mão. O interior é tão bonito quanto o exterior. Então, você adquire um gosto por aquilo. E você aprende a ver as coisas de modo um pouco diferente.”

Enquanto mantém seu espaço no mundo da moda até hoje, ela também continua muito envolvida na indústria cinematográfica. E mesmo que o ato de envelhecer possa parecer amplificado nas telonas, a atriz não é nem um pouco detida por isso. “Quando você envelhece, é fato que os papéis [nos filmes] são diferentes. Você não está sempre no centro da história. É mais difícil, mas você pode encontrar papéis interessantes”, diz.

“Você sempre é comparada com o que era em outros filmes. É complicado para atores [envelhecer], mesmo para os homens. Faço o meu melhor. Não luto para me manter em forma. O que quero manter é a energia, que eu acho muito importante – a vitalidade. Mas tenho filhos, tenho uma vida. Imagino que, se eu fosse uma atriz sem filhos, sem netos, minha relação com a idade e o envelhecimento seria diferente. Mas, quando você tem filhos e netos, é uma história diferente.”

Catherine é bem-sucedida em preservar essa vitalidade, equilibrada com fins de semana no campo, que ela diz serem essenciais. Praticar jardinagem e passar um tempo em contato com a natureza são alguns de seus grandes prazeres, assim como assistir a “Mad Men”, “Breaking Bad”, “Homeland” e séries de TV francesas.

Atualmente, ela está rodando um novo filme com o diretor francês André Téchiné, que será lançado no fim do ano, e fala do novo projeto com empolgação pura. “Sempre há um pouco de medo, um pouco de frio na barriga”, afirma. “É uma aventura, uma verdadeira aventura – não apenas atuar, mas viver por alguns meses com pessoas que você não conhece. É uma aventura que é muito importante para mim.” E parece que é exatamente esse senso de aventura que continua a impulsioná-la a novas e surpreendentes alturas.

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