Ana Carolina Fernandes - Foto: Reprodução/Instagram
Ana Carolina Fernandes – Foto: Reprodução/Instagram

Para além das milhões de selfies diárias, de foto de pratos de comida em restaurantes e dos vídeos na praia ou na piscina, o Instagram também pode ser uma exposição permanente e constante de imagens relevantes produzidas por fotógrafos espalhados pelo feed.

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Seja com câmeras profissionais, tripés e equipamentos sofisticados ou apenas com o celular nas mãos, cresce na rede social uma rede de coletivos, grupos e ideias fotográficas que se alimentam e se influenciam. Alguns deles reúnem milhões de seguidores – até mais do que fotógrafos renomados –, enquanto outros são desconhecidos.

Alguns fotógrafos perdidos no Instagram cresceram por meio de coletivos fundados por usuários do aplicativo com interesses semelhantes. Eles tendem a se tornar influências para diversos outros grupos no mundo todo, como a ideia do “everyday”, contas que tentam retratar o cotidiano de várias regiões do planeta. No caso do Brasil, a mais famosa é a @everydaybrasil, com 24 mil seguidores.

Fotógrafos, jornalistas, guias turísticos, sociólogos e os próprios viajantes já parecem concordar que as fotos existentes de um lugar não dependem apenas da mediação de instâncias responsáveis pela promoção dele como um ponto turístico. Em outras palavras: em um mundo em que as pessoas sonham com suas viagens por meio de fotografias que circulam em aplicativos como o Instagram, os governos e as agências turísticas não são os únicos capazes de atrair pessoas para um destino. Nisso reside a relevância dessas contas fotográficas.

Uma das maiores redes sociais do mundo, com 1 bilhão de usuários ativos no planeta, o Instagram se vale da fotografia e do espaço em que qualquer pessoa pode publicar ideias e opiniões integrantes de sua visão de mundo. A própria fotografia, como já dizia a escritora estadunidense Susan Sontag, é um dispositivo que permite a materialização de uma experiência por qualquer pessoa.

No entanto, em cidades que estão em constante renovação, o ato de fotografar ganha um novo poder: o de cristalizar imagens de lugares que nunca são fixos.

Para os bacharéis em turismo Franciele Manosso e José Gândara, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é no Instagram em que as pessoas podem materializar suas experiências nas cidades em que vivem, não necessariamente quando viajam. A fotografia se tornou o principal instrumento de fixar imagens sobre as constantes mudanças que elas passam. “A representação máxima dessa vivência do indivíduo na cidade acontece hoje por meio das redes sociais”, diz Franciele.

Principalmente no contexto atual de celulares com câmeras fotográficas, “as fotografias são um instrumento de miniaturização e catalogação do mundo vivido e experimentado pela sociedade”, afirma ela.

A seguir, Harper’s Bazaar sugere cinco fotógrafos que se encaixam nesse perfil: fixadores de suas cidades, de suas experiências e, assim, renovadores da estética urbana:

Vitor Nisida

 

Vitor Nisida - Foto: Reprodução/Instagram
Vitor Nisida – Foto: Reprodução/Instagram

Arquiteto e mestre em Habitat pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), atua na sua área no Instituto Pólis e participa do coletivo LabLaje. Segundo ele, o que lhe chama a atenção na cidade é a ocupação do território ー e toda a dificuldade que ela acarreta. Uma das vozes mais ativas contra o projeto da prefeitura de São Paulo chamado Nova Luz, empreendido pelo então prefeito Gilberto Kassab, em 2011, é justamente no centro da cidade que ele clica suas imagens.

De posse de duas Nikon (uma D7100 e outra D5000), ele costuma clicar as linhas formadas pelos prédios do centro paulistano, sempre obedecendo as retas do edifício Altino Arantes, o antigo “Banespão”, visto de vários pontos da região central da metrópole. Seu perfil é uma nova forma de observar a vida cotidiana de uma parte da cidade criticada pela maioria dos habitantes pela sua “suposta” degradação.

José Bassit

 

José Bassit - Foto: Reprodução/Instagram
José Bassit – Foto: Reprodução/Instagram

Ao contrário de Nisida, José Bassit é um fotógrafo de longa carreira: nascido em São Paulo em 1957, ele passou pelas redações dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde no começo dos anos 1990, foi editor do Meio e Mensagem entre 1994 e 1995 e repórter fotográfico da Folha de S. Paulo pelos dois anos seguintes. Hoje, clica ensaios próprios que lhe renderam diversas exposições em espaços do Brasil e do Mundo ー em 2001, participou do Acts of Faiths: Contemporary Brazilian Photography, do Museum of Art and Archaeology, em Oxford, no Reino Unido. É autor do livro Imagens Fiéis, publicado pela Cosac Naify em 2003, sobre a religiosidade no país.

Ainda assim, Bassit tem pouco mais de dois mil seguidores no Instagram: os poucos sortudos têm acesso a uma fotografia em primeira pessoa que privilegia tanto cenas da cidade como suas formas geométricas ocasionais. Quando não está nas ruas urbanas, clica retratos em diversos enquadramentos feitos tanto com câmera como aparelho celular. Vale prestar atenção especialmente nas fotos em preto e branco do seu feed.

Alexandre Urch

 

Alexandre Urch - Foto: Reprodução/Instagram
Alexandre Urch – Foto: Reprodução/Instagram

Mais novo que Bassit, Urch tem no colega uma de suas referências: vencedor de diversos prêmios nacionais, também é figura constante em exposições coletivas e individuais no país e no exterior. O próprio fotógrafo diz que sua obra é autoral, onde se “destaca a apropriação e exploração de imagens do cotidiano que buscam tornar o invisível e ordinário visível para todos utilizando as mais diversas técnicas e equipamentos fotográficos”.

No seu feed, é possível notar também uma predileção pelos jogos de cores ー como encontrar uma pessoa cruzando um corredor cinza e preto com um guarda-chuva vermelho em um dia de chuva. Para se manter em contato com a nova safra, também faz imagens usando drones.

O trabalho para empresas como Citröen, LG, Air France e Under Armour, entre outras, não aparece tanto no seu perfil do Instagram ー e isso é uma dádiva: quem quiser conhecer um pouco de São Paulo e sua vida cotidiana, precisa visitar sua conta. Seu último projeto tentou contar o passado paulistano por meio dos edifícios:

“Nas minhas caminhadas presto atenção nas histórias que a cidade me conta e desde 2010 resolvi contar a história de São Paulo através de suas fachadas. A cidade muda em silêncio, em um dia temos uma casa, no dia seguinte tapumes de madeira e na semana seguinte um prédio é erguido”, diz. “Através dessas fachadas podemos ver a evolução da cidade”, completa.

Ricardo Breda

 

Ricardo Breda - Foto: Reprodução/Instagram
Ricardo Breda – Foto: Reprodução/Instagram

O que mais impressiona nas fotos do arquiteto fotógrafo Luiz Ricardo Breda é sua capacidade de brincar com as luzes de um cenário: de uma noite normal, ele consegue mostrar a força de uma lâmpada externa de uma única casa; de uma viagem em uma estrada em um dia chuvoso, consegue captar a beleza da lanterna do carro à frente; da luz do sol em uma praia no verão, ele consegue demonstrar como, mesmo ali, existem sombras.

Sua obra apareceu em uma exposição pela primeira vez na Foto Feira Cavalete, do Museu da Imagem e do Som, em 2016. Em setembro do ano seguinte, uma de suas imagens apareceu no site da National Geographic Brasil.

Breda, no entanto, se define como um amante da natureza: é ela que ele gosta de fotografar. Suas fotos giram entre casas simples do interior, árvores, montanhas, praias e às luzes do céu ー especialmente à noite ー, mas ele também gosta de clicar pessoas em diferentes cenários. Em seu feed, há também uma demonstração de como ele se movimenta para fotografar: há imagens no Piauí, na Bahia, em Minas Gerais e uma coleção de obras ー que lhe rendeu certa fama ー na Índia.

Ana Carolina Fernandes

 

Ana Carolina Fernandes - Foto: Reprodução/Instagram
Ana Carolina Fernandes – Foto: Reprodução/Instagram

Ana Carolina Fernandes é um dos nomes do momento da fotografia brasileira: formada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, ela já clicava antes mesmo de entrar no curso de Fotografia da instituição, aos 19 anos. Naquela mesma época, foi contratada pelo jornal carioca O Globo, de onde saiu para preencher as redações do Jornal do Brasil, da Agência Estado e da Folha de S. Paulo, onde ganhou dois prêmios Folha, em 2000 e 2002.

Seu feed hoje é uma demonstração de sua mudança de perspectiva: além de ensaios pessoais e as praias do Rio de Janeiro, ela passou a se interessar por manifestações de rua. Em 2013, foi finalista do Prêmio Conrado Wessel e do Shortlist Top Ten Award. Seus 43 mil seguidores são sempre brindados com rostos diversos ー de gente no Carnaval ao de um policial após um crime, de um cachorro solitário na rua a um vendedor ambulante. O cotidiano, na lente de Ana Carolina, está nas pessoas.

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