Home - Corridor (2007-2008), lápis e lápis de cor sobre papel, de Fernanda Chieco - Foto: divulgação
Home – Corridor (2007-2008), lápis e lápis de cor sobre papel, de Fernanda Chieco – Foto: divulgação

Por Mariliz Pereira Jorge

Todos ficaremos velhos, se não morrermos no meio do caminho. Não sei que tipo de velha serei fisicamente aos 60, muito menos aos 70 anos. Se farei Pilates, se terei feito plásticas, se os cabelos ficarão brancos, se dormirei em tinas de Botox. Talvez nada disso. Não sei se a genética vai ajudar, se os cremes serão camaradas, se o estresse cansará minha beleza.

Só tenho uma única certeza, serei uma velha assanhada. Não no sentido sexual – ainda que isso seja ótimo para a pele e para a alma. O que eu quero é continuar flertando com a vida, com as pessoas, com a alegria de ser quem sou, curtindo o que conquistei nesse caminho. Quero ser, aos 70, uma versão melhorada do que fui aos 20, mesmo que as rugas digam o contrário, mesmo que o mundo insista em dizer não. Só assim a vida não para. Apenas assim a gente continua sendo mulher, no real sentido da palavra.

Não me canso de ouvir de mulheres com mais de 50 anos que, ao chegarem a essa idade, é como se ganhassem automaticamente um tapinha nas costas, um carimbo de prazo de validade vencido e um bilhete para o maravilhoso mundo das mulheres invisíveis. Um abismo onde não são mais ouvidas, vistas e não têm mais representatividade.

Como se sua missão tivesse sido cumprida e ela estivesse dispensada dessa coisa que se chama viver, no sentido mais amplo. Viram coadjuvantes das histórias de outras pessoas, quiçá fazem uma ponta aqui, outra acolá. Suas vidas deixam de ser prioridade não apenas para os outros, mas para elas mesmas ao caírem na vala do esquecimento.

Muitas de nós repetimos, sem perceber, o protocolo pré-estabelecido de desaparecer como mulher aos olhos da sociedade. A gente vira, no máximo, a avó querida, a tia bacana, a colega divertida. Nos tornamos a samambaia do cantinho da sala. E nos conformamos com isso geração após geração. Sente mais esse peso quem nunca construiu seu próprio caminho, porque, depois que os anos passam, não sobra nada, nem juventude.

Até que começamos a perceber que não precisamos nem queremos nos enquadrar nesse script. Quando olho para mulheres como Diane von Furstenberg, 69 anos, Charlotte Rampling, 70, e Michelle Obama, 52, tenho a curiosidade imediata de saber se bebem água com limão em jejum, se fazem yoga, se comem glúten, se tomam uma taça de vinho por dia, se usam melatonina antes de dormir. Além do nome do dermatologista.

Mas há algo muito mais inspirador em todas elas que não está em nenhum livro, em nenhuma prateleira do Walgreens. Todas continuam, além de bonitas, extremamente sexy, interessantes, ativas, produtivas, provando que é possível recusar a carteirinha do clube das mulheres invisíveis em qualquer idade.

Em comum, todas passaram suas vidas ocupadas em construir alicerces onde fincaram histórias de conquistas sociais, emocionais e materiais. São vencedoras de uma luta contra elas mesmas. É mais fácil e cômodo se enrolar num xale, sentar na terceira fila e esperar o restinho da vida passar, observando os outros se divertindo.

Essa aposentadoria compulsória à qual as mulheres sempre estiveram sujeitas começou a encontrar resistência com os movimentos feministas do século 20. E uma das maiores conquistas foi, sem dúvida, a ousadia de manter sua individualidade, seu protagonismo como mulher, sem ter de trocar a sua condição de fêmea pelo título de mãe, avó, tia. Sem ter de cortar o cabelo, descer o comprimento da saia ou negar a sua sexualidade, apenas porque passou da marca dos 60 anos.

Cada vez mais uma legião de anônimas vêm se somando a esses exemplos famosos e estão criando a nova verdade do que é ser uma mulher madura. Todas elas são prova de que não são as rugas os maiores inimigos da existência e da sensualidade feminina, mas a alma envelhecida.

A velha definição de “velha” nunca esteve tão obsoleta. Começamos a perceber em cada esquina, na fila do supermercado, na mesa ao lado, na esteira da academia, mulheres experientes, vividas, seguras, independentes, bonitas e sexy, que estão redefinindo o que é envelhecer e como viver esse momento.

Me inspiro e recuso, desde já, o carimbo esgarçado e ultrapassado de velha ao ver por aí gente reluzente como Jane Fonda, 78 anos, Sophia Loren, 81, e Monica Bellucci, 51. Não, obrigada.

Costumo dizer que bonita é a mulher que é amada. E não há amor maior do que aquele que sentimos quando gostamos do que nos tornamos. Quero me olhar no espelho daqui a alguns anos e me apaixonar todos os dias pelo que vivi. Não tem nada mais sexy do que se gostar. Não tem nada mais sexy do que se sentir viva. E isso vale para qualquer idade.