Por Cibele Maciet, de Paris

Olá, caro leitor da BAZAAR. Nesta edição de janeiro, a coluna se constrói como um percurso sensível entre arte, moda, patrimônio e encontros humanos. Dos olhares livres de Frank Horvat às estruturas meditativas de Pilar Zeta, passando pelo universo lúdico imaginado por Walter Van Beirendonck e pelas experiências audiovisuais de Matt Clark, estas páginas convidam a desacelerar e a observar com mais atenção. A reflexão sobre o tempo e o corpo aparece nas imagens de Nikos Aliagas, enquanto o luxo, o gesto e o desejo se manifestam tanto nas criações das grandes maisons quanto nos objetos que nos acompanham no cotidiano. Há ainda espaço para celebrar trajetórias e afinidades, como a de Angela Klinke, personagem extraordinário do mês. Entre exposições, colaborações, aniversários simbólicos e endereços que merecem a visita, esta coluna propõe um olhar atento sobre o presente, onde criação, memória e emoção caminham juntas. Um convite a deixar o acaso agir e permitir que a vida, simplesmente, se produza. Conto tudo isso diretamente do Marais, na capital francesa, que chamo de casa há dezesseis anos. Porque, afinal, tout commence à Paris. Curieux(se)? Écris-moi: @cibelemaciet.

 

Laisser la vie se produire: o olhar livre de Frank Horvat

Frank Horvat / Foto: Divulgação

O Château La Coste, na Provença, apresenta de 15 de fevereiro a 12 de abril a exposição Laisser la vie se produire, dedicada à obra do fotógrafo Frank Horvat. Produzida em colaboração com o Studio Frank Horvat, a mostra reúne 46 fotografias realizadas entre as décadas de 1950 e 1980, revelando um olhar livre, atento ao acaso e ao instante. O percurso vai das cenas noturnas do Paris do pós-guerra ao trabalho inovador de Horvat na fotografia de moda, quando rompeu com o estúdio e levou a moda para as ruas, em um estilo próximo do fotojornalismo. Instalada na Galeria des Anciens Chais, a exposição dialoga com o espírito do Château La Coste, onde arte, arquitetura e paisagem coexistem em harmonia. Laisser la vie se produire propõe uma reflexão atual sobre imagem, tempo e a importância do imprevisto no processo criativo. Para quem ainda não conhece o Château La Coste, a visita, por si só, já vale a viagem!

Mirror Gate II ocupa a Place du Louvre

Mirror Gate II / Foto: Divulgação

A Place du Louvre recebe, de 16 de janeiro a 15 de fevereiro, Mirror Gate II, obra monumental da artista Pilar Zeta, apresentada em colaboração com a casa egípcia de pedra natural Marmonil. Esculpida a partir de pedras ancestrais, a instalação se ancora em uma tradição milenar e propõe um portal simbólico entre Cairo e Paris. Inicialmente apresentada diante das Pirâmides de Gizé, a obra chega agora ao coração de Paris, estabelecendo um diálogo potente entre o legado do Egito antigo e a criação contemporânea.  Conhecida por explorar portais, arquétipos e estruturas meditativas, Pilar constrói experiências que convidam à contemplação e à reconfiguração do olhar. Instalada em frente ao Louvre, Mirror Gate II transforma o espaço público em lugar de passagem simbólica, onde passado e futuro se encontram em escala monumental.

Walter Van Beirendonck cria PLAYGROUND para o C-mine

Playground / Foto: Divulgação

C-mine, polo cultural e criativo instalado em uma antiga mina de carvão reconvertida, em Genk, na Bélgica, inaugura no dia 7 de fevereiro o PLAYGROUND, espaço lúdico em grande escala concebido pelo criador belga Walter Van Beirendonck. Intitulado Welcome Little Stranger, o projeto marca a primeira incursão do estilista, membro dos Antwerp Six, no universo dos espaços de jogos interativos. Inspirado pelo imaginário da vida extraterrestre, o ambiente convida crianças a explorar, se movimentar e brincar livremente, sem o uso de telas, em um espaço onde arte e jogo se estimulam mutuamente. Desenvolvido no âmbito do programa PLAY, criado pelo C-mine em 2023, PLAYGROUND dá continuidade a uma proposta cultural que valoriza o jogo como forma de expressão, criatividade e convivência.

Hidden Order transforma a fachada da Casa Batlló em 2026

A Casa Batlló, que já tive o prazer de visitar em Barcelona, inaugura um novo espaço dedicado à arte contemporânea e apresenta Hidden Order, obra monumental criada por Matt Clark, fundador do estúdio United Visual Artists. A intervenção audiovisual será revelada nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, como um evento público e gratuito, projetado na icônica fachada do edifício de Antoni Gaudí. Esta quinta edição do Mapping da Batlló transforma a fachada do monumento em um espetáculo de luz, som e movimento, explorando ciclos de ordem e caos, conceitos centrais na pesquisa artística de Matt Clark. Pela primeira vez, o projeto se estende também para o interior do edifício com Beyond the Façade, exposição site-specific que inaugura o novo espaço expositivo no segundo andar, propondo uma experiência mais contemplativa e imersiva. As apresentações marcam o início das celebrações internacionais de 2026, ano do centenário da morte de Gaudí, reforçando o diálogo entre patrimônio histórico, tecnologia e criação contemporânea.

Les Grands Âges no Musée de l’Homme

“Pas vus, pas pris” / Foto: ©Nikos Aliagas / Divulgação

O Musée de L’Homme apresenta, de 8 de abril de 2026 a 3 de janeiro de 2027, a exposição Les Grands Âges, dedicada às grandes idades da vida humana. A mostra reúne fotografias de Nikos Aliagas e a pesquisa científica do biodemógrafo Samuel Pavard, professor do Muséum e especialista em envelhecimento. Resultado do diálogo entre arte e ciência, a exposição propõe uma reflexão sensível e rigorosa sobre a velhice como realidade biológica, social e demográfica. As imagens de Aliagas, que há décadas fotografa os rostos do tempo que passa, dão forma visual a temas como dignidade, transmissão entre gerações e memória incorporada, em ressonância com as análises científicas sobre longevidade. O percurso aborda a presença histórica da velhice nas sociedades humanas, o papel fundamental dos idosos na transmissão de saberes e cuidados, e os desafios contemporâneos ligados ao aumento da expectativa de vida. Ao final, a exposição se projeta para o futuro, questionando como nossas sociedades poderão proteger as pessoas idosas diante das crises climáticas, sanitárias e ambientais. Instalada no Foyer Germaine Tillion, Les Grands Âges convida o público a repensar nossa relação coletiva com o tempo, o envelhecimento e o lugar que damos aos mais velhos no mundo de hoje e de amanhã.

Le Trésor retrouvé du Roi-Soleil: exposição no Grand Palais

Le Trésor retrouvé du Roi-Soleil / Foto: Divulgação

O Grand Palais apresenta, de 1º a 8 de fevereiro, a exposição Le Trésor retrouvé du Roi-Soleil, dedicada a um conjunto excepcional de obras e objetos ligados ao reinado de Louis 14. Resultado de pesquisas recentes e de um trabalho minucioso de redescoberta, a mostra reúne pinturas, objetos preciosos, elementos decorativos e peças simbólicas que ajudam a compreender a construção da imagem e do poder do Rei Sol. O percurso revela não apenas o luxo da corte francesa do século 7, mas também o papel central das artes como instrumento político, cultural e diplomático. Ao longo da exposição, o visitante é convidado a revisitar o universo estético e ideológico de Louis 14, em que a magnificência servia à afirmação do Estado e à projeção internacional da França. Mais do que apresentar tesouros raros, Le Trésor retrouvé du Roi-Soleil propõe uma leitura contextualizada desse patrimônio, lançando nova luz sobre a herança artística e histórica de um dos reinados mais emblemáticos da Europa.

Sessùn Alma celebra seis anos em Marselha

Alix Hardy / Foto: Divulgação

A Sessùn Alma, espaço que reúne moda, objetos, livros e gastronomia em Marselha, celebra seis anos de existência reafirmando seu compromisso com o art de vivre, o artesanato e a criação contemporânea. Inaugurado em 2019, o projeto tornou-se um dos símbolos do posicionamento da marca francesa Sessùn, concebido como um ambiente dedicado ao encontro, à troca e à partilha. Na cantina solar, a grande novidade é a inauguração de um novo formato de residência: pela primeira vez, a cozinha passa a ser confiada a uma única chef, Alix Hardy, por um período de dez meses, dando continuidade a uma abordagem precisa, viva e profundamente conectada aos produtos e às estações do ano. Com uma cozinha de base vegetal, engajada e artesanal, Alix privilegia ingredientes locais, circuitos curtos e produtores comprometidos, propondo uma experiência que valoriza o sabor, o tempo e o gesto.

Casey/Casey apresenta sua casa parisiense

Casey/Casey / Foto: Divulgação

A marca francesa Casey/Casey apresenta sua casa parisiense, localizada no 6 rue de Solférino, no 7º arrondissement, o único flagship da marca no mundo. Mais do que uma boutique, o endereço foi concebido como um verdadeiro lar, um espaço para desacelerar e experimentar o universo da marca de forma íntima e sensorial. Fundada em Paris em 2008 por Gareth Casey, a Casey/Casey constrói seu vocabulário entre o utilitário e o poético. Cada peça é pensada como um gesto cotidiano transformado em emoção, resultado de um trabalho artesanal minucioso que valoriza o tempo, a matéria e o uso. No interior da loja, as coleções femininas e masculinas se revelam em um ambiente depurado, onde texturas, volumes e detalhes falam antes da forma. Objetos encontrados em leilões, móveis marcados pela intervenção manual do próprio Gareth Casey e obras escolhidas ao longo do tempo criam um cenário vivido, carregado de presença e memória. “Chez Casey/Casey”, como define o criador, é o reflexo de uma filosofia que privilegia o ritmo lento, a durabilidade e a relação sensível com a roupa, um convite a repensar o vestir como experiência, não como tendência.

Pandora lança coleção inspirada no universo de Bridgerton

Rules to Love By, da Pandora / Foto: Divulgação

A Pandora apresenta uma colaboração inédita com Bridgerton, série fenômeno da Netflix. Batizada de Rules to Love By, a coleção exclusiva reúne 14 joias inspiradas no universo romântico e ousado da era Regency, cenário icônico da família Bridgerton. Pensada como uma celebração do amor, da amizade e da expressão individual, a coleção combina elegância e leveza em criações marcadas por flores delicadamente trabalhadas, pérolas, laços e tons pastel, com destaque para o lilás emblemático da série. Símbolo forte do universo Bridgerton, a abelha aparece como elemento central das peças, evocando o espírito de comunidade e o toque irreverente associado a Lady Whistledown. A coleção Pandora x Bridgerton está disponível desde o de 15 de janeiro, no e-commerce e nas boutiques da Pandora.

Paris Perfume Week celebra a cultura olfativa no Palais Brongniart

Paris Perfume Week / Foto: Divulgação

A Paris Perfume Week acontece de 9 a 11 de abril de 2026, no Palais Brongniart, em Paris, consolidando-se como um dos principais encontros internacionais dedicados ao perfume e à cultura olfativa. Idealizado pelo movimento cultural Nez, o evento chega à sua terceira edição reunindo profissionais, criadores e o grande público em torno de um programa que cruza saberes, narrativas e transformações contemporâneas da perfumaria. Durante três dias, a Paris Perfume Week propõe uma imersão na perfumaria contemporânea por meio de conferências, encontros e experiências sensoriais. As Smell Talks colocam em diálogo perfumistas, pesquisadores, artistas e empreendedores para discutir temas como inovação, transmissão de saberes, sustentabilidade e o papel do sensível na sociedade atual. Em paralelo, o programa Behind the Scent revela os bastidores da cadeia do perfume, da matéria-prima ao produto final. Com cerca de 150 expositores internacionais, exposições, instalações olfativas, workshops e uma livraria especializada, o evento reafirma sua ambição de posicionar o perfume como objeto cultural e campo de reflexão contemporânea, fortalecendo Paris como um dos grandes polos globais da cultura olfativa.

Monogram faz 130 anos e inspira nova coleção da Louis Vuitton

Monogram Anniversary / Foto: Divulgação

A Louis Vuitton celebra os 130 anos de seu icônico Monogram com o lançamento da coleção Monogram Anniversary. A novidade reúne peças exclusivas de marroquinaria e três perfumes em edição limitada, que reinterpretam o Monogram em um design contemporâneo. A linha Monogram Origine revisita o primeiro motivo criado em 1896 por meio de uma nova tela Monogram, desenvolvida em uma paleta de tons pastel. Essa leitura cromática se desdobra em três fragrâncias emblemáticas da Maison: Imagination ganha a tonalidade Lin, Attrape-Rêves surge em Rose Ruban, enquanto eLVes Louis Vuitton é representado pelo Bleu Courrier. Completam a coleção dois novos estojos de viagem, apresentados nas cores Rose Ruban e Bleu Courrier, combinando funcionalidade e a elegância característica da Maison. Mais do que uma reedição, Monogram Anniversary estabelece um diálogo entre passado, presente e futuro, reafirmando os valores fundadores da Louis Vuitton por meio de uma linguagem renovada.

L’objet du désir – a escolha que faz oh là là!

Half Moon Soft Triomphe, da Celine / Foto: Divulgação

Estou numa fase de bolsas, e a Half Moon Soft Triomphe, da Celine, me conquistou logo de cara. Há um charme imediato em sua silhueta de meia-lua, fluida e alongada, que parece resolver o look sem esforço. Confeccionada em couro de cordeiro com acabamento levemente brilhante, ela se destaca pelo fecho Triomphe, discreto e preciso, e pela alça ajustável, que acompanha o corpo com naturalidade. Um equilíbrio raro entre minimalismo e assinatura de maison: elegante, atual e irresistivelmente bem resolvida.

O personagem extraordinaire do mês

Angela Klinke e eu num café em Paris / Foto: Arquivo pessoal

O personagem extraordinário do mês é uma colega jornalista muito querida: Angela Klinke. Alguém que muita gente já conhece, e que eu tive o prazer de reencontrar no ano passado, aqui em Paris. Da Angela, eu já ouvia falar havia muitos anos, desde os meus tempos de frila para a Abril e para a Globo Condé Nast, lá pelos anos 2000. Ela passou por redações como O Globo, IstoÉ, Caras, Veja, Playboy e Valor Econômico, onde atuou como editora, colunista, articulista e blogueira. Excelente escritora, é ainda melhor ao vivo. Posso dizer, sem exagero e com alegria: Angela é minha amiga. Inteligente, bem-informada, engraçada, afiada, daquelas presenças que iluminam qualquer conversa. Ela está passando um ano em Paris e, em breve, vai embora. Vou sentir falta da presença, mas não da amizade, que vai perdurar. Encontrar brasileiros brilhantes que vivem (ou passam) por Paris é uma das minhas maiores alegrias, e, cada vez que isso acontece, minha admiração só cresce. Quanto à Angela, é um privilégio tê-la por perto. Mesmo que por tempo limitado.