Por Cibele Maciet, de Paris

Olá, caro leitor da BAZAAR. Entre arte que reabre igrejas esquecidas, exposições que revisitam séculos e fragrâncias que se transformam em escultura, a temporada confirma: tradição e reinvenção nunca caminharam tão juntas. De Paris a Londres, de Versailles à Suíça, passando pelo México e por Los Angeles, o luxo contemporâneo deixa de ser apenas objeto de desejo para se tornar experiência. Seja na luz que atravessa um celeiro alpino, no crocodilo que ganha café ou na alta joalheria que vira patrimônio, há um fio condutor invisível ligando tudo. Porque, no fim das contas, o que realmente nos encanta não é só o novo, mas a maneira como ele conversa com o que já foi. E quando isso acontece com inteligência, sensibilidade e um certo “oh là là”, a gente sabe: é assunto para ficar de olho. Conto tudo isso diretamente do Marais, na capital francesa, que chamo de casa há dezessete anos. Porque, afinal, tout commence à Paris. Curieux(se)? Écris-moi: @cibelemaciet.

 

San Carlo Cremona: quando a arte reabre igrejas abandonadas

Massimo Bartolini, 100 Giorni, 2025, Luminária e néon / Foto: Divulgação / Form Group – Andrea Rossetti

Achei incrível o projeto San Carlo Cremona, que nasceu na cidade de Cremona, na Lombardia, a partir do desejo de criar um diálogo entre arte contemporânea, território e comunidade. A antiga igreja desconsagrada de San Carlo, fechada por anos e marcada pela memória local, foi transformada em um espaço vivo de pesquisa e intercâmbio. Agora, reaberta ao público, funciona como plataforma dedicada à promoção de artistas nacionais e internacionais. Assim, a arte deixa de ser contemplação passiva e passa a estimular novas formas de participação cultural.

A última exposição, “100 Giorni, de Massimo Bartolini, explorou a luz como metáfora entre ausência e revelação. De um lado, uma luminária siciliana apagada, símbolo de festa. De outro, um néon vermelho inspirado em inscrições carcerárias. Assim, a obra criou um espaço suspenso entre celebração e limite, espiritualidade e tensão social. Bravo, gostei da atitude, Cremona! Um jeito sensível e inteligente de reativar espaços históricos.

 

Boucheron leva a luz ao Victoria and Albert Museum

Broche da Boucheron montado em ouro rosa, cravejado em cristal de rocha holográfico e diamantes / Foto: Divulgação

Mais uma peça da Maison Boucheron entrou para o acervo do Victoria and Albert Museum. Trata-se do broche Faisceaux, da coleção Carte Blanche “Holographique”, de 2021. É a primeira criação da linha a integrar um museu. Cravejada em diamantes e esculpida em cristal de rocha holográfico, a peça foi estruturada em ouro rosa. Assim, tradição e inovação se encontram em um mesmo gesto.

Como isso foi feito? O cristal foi cuidadosamente esvaziado para abrigar, em seu interior, um motivo Jack cravejado de diamantes. Esse detalhe, ampliado pelo efeito lupa da pedra, cria profundidade e transparência. Além disso, o véu holográfico intensifica a difração da luz, revelando reflexos iridescentes em constante movimento. Resultado: tecnologia aliada ao savoir-faire de quase 170 anos. Merece museu!

 

Século 18 em alta: Palais Galliera revisita o passado 

Exposição “La mode du 18e siècle. Un héritage fantasmé”, em cartaz no Palais Galliera a partir de março de 2026 / Foto: Divulgação

Mais uma exposição que promete fazer vibrar os fashionistas de plantão: no Palais Galliera, “La mode du 18e siècle. Un héritage fantasmé” entra em cartaz de 14 de março a 12 de julho de 2026, revisitando o século das Luzes como matriz estética que atravessa o tempo e influencia o imaginário contemporâneo. Entre espartilhos, silhuetas exuberantes e tecidos opulentos, o percurso revela como a elegância daquele período moldou não apenas o vestuário feminino, mas a própria ideia de aparência.

O lendário corset de Maria Antonieta surge como ponto alto, tão frágil quanto simbólico. Da nostalgia do Segundo Império às releituras do pós-guerra, passando por criações de Chanel, Christian Dior, Louis Vuitton e Vivienne Westwood, o século 18 deixa de ser apenas referência histórica para se afirmar como linguagem contemporânea, algo entre o camp e o couture. Mais atual que isso? Só dois disso!

 

Alexandre de Betak transforma celeiro suíço em experiência imersiva na Gstaad Art Week

Chashitsu Hikari Schürli, de Alexandre de Betak / Foto: Jack Orton / Divulgação

Durante a Gstaad Art Week, Alexandre de Betak apresenta “Chashitsu Hikari Schürli”, uma instalação de luz concebida dentro de um celeiro tradicional no Bernese Oberland, na Suíça. O projeto dá continuidade à sua pesquisa sobre arquiteturas imateriais e propõe a luz como material central de construção espacial. Instalada em uma estrutura rural pré-industrial, a obra estabelece um diálogo entre a arquitetura alpina e o chashitsu japonês, espaço cerimonial do chá.

Espelhos, madeira e luz natural reorganizam a percepção do visitante, criando um percurso em dois níveis que explora profundidade, reflexão e escala. Mais do que um exercício formal, a instalação valoriza a arquitetura vernacular local e aproxima tradição e contemporaneidade por meio de uma linguagem artística que privilegia contemplação e experiência sensorial. A instalação vai até dia 1° de março de 2026.

 

Penhaligon’s transformou fragrância em escultura na Zona MACO 2026

Projeto “Whispers of Halfeti”, da Penhaligon’s / Foto: Divulgação

Entre perfume e escultura, mon cœur balance! A britânica Penhaligon’s se uniu ao Sten Studio para lançar *Whispers of Halfeti*, projeto que traduziu a icônica fragrância Halfeti em forma mineral. Inspirada na intensidade da rosa negra, nas notas cítricas, amadeiradas e especiadas do perfume, a coleção apresentou quatro totens de pedra e um objeto aromático escultórico. Verticalidade, contornos orgânicos e composições minerais em camadas ecoaram a arquitetura do frasco e a profundidade olfativa da criação.

Unindo a tradição narrativa da maison inglesa à pesquisa do estúdio sobre fenômenos naturais em pedra e cristal, a iniciativa posicionou perfumaria e design colecionável como artes sensoriais paralelas. *Whispers of Halfeti* estreou simultaneamente na Zona MACO 2026, na Cidade do México, e na flagship da marca na Regent Street, em Londres, marcando um encontro global entre fragrância, arte e design contemporâneo. Tá aí um jeito interessante de conectar arte com perfume.

 

Astier de Villatte revela incensos, cerâmicas e papelaria inspirada em Wes Anderson 

Novidades de Astier de Villatte / Foto: Divulgação

Uma de minhas marcas preferida em Paris acaba de lançar as novidades da temporada. Entre incensos, cerâmicas e papelaria cinematográfica, a Astier de Villatte mais uma vez reafirmou seu universo criativo onde artesanato, perfume e edição convivem sob o mesmo teto. Destaque para o incenso Sao Tomé, inspirado na ilha africana conhecida como “Ilha do Chocolate”, com notas intensas de cacau tostado, cedro Atlas, âmbar defumado e sândalo cremoso, produzido segundo a tradição milenar japonesa da ilha de Awaji.

Na cerâmica branca, surgem novos queimadores de incenso em forma de animais sobre pedestais monumentais, além da coleção Istanbul, da caneca Adélaïde e da delicada saboneteira Baigneuse. A marca também lança um bloco de papel de carta inspirado nos filmes de Wes Anderson, impresso em tipografia tradicional, reunindo oito longas do diretor em um único caderno de 128 páginas. Um encontro preciso entre nostalgia, design e savoir-faire parisiense. As novidades chegam nas lojas em abril desse ano. E eu já estou de olho!

 

Celine amplia sua linha de balms

Linha Le Rouge da Celina / Foto: Divulgação

Para quem já é fã de Celine, a marca ampliou sua linha de beleza Le Rouge com oito novas tonalidades. Os balms, que têm 94% de ingredientes de origem natural, ainda são enriquecidos com extrato de rosa negra e esferas de ácido hialurônico, garantindo conforto total para nossas bocas fashion. Quanto à fragrância, ela retoma o acorde de rosa fresco e levemente açucarado que assina a coleção haute parfumerie da maison.

Mas o ponto alto é o estojo facetado em metal prateado e gravado com o emblemático Triomphe. Que tal?  Entre o classicismo francês do fim do século 18 e o minimalismo Art Déco, o balm se posiciona como extensão natural do universo couture da marca. Essas belezinhas chegam nas lojas da marca em abril.

 

Fenaison: quando o feno se torna perfume

Fenaison, novo perfume da Sujet / Foto: Divulgação

Com Fenaison, a marca de perfumes francesa Sujet aprofunda sua investigação olfativa em torno do feno. Após a frescura vegetal de Le Foin, a marca apresenta agora sua metamorfose: o feno seco na sombra dourada do celeiro, aquecido pelo tempo até revelar uma faceta quase gourmand. Uau, deu vontade de sentir! Essa preciosidade será lançada em edição limitada só no mês que vem, mas já embala corações por aqui.

Ning Li, fundador da maison, resume a filosofia: aprofundar em vez de multiplicar, explorar uma única matéria até extrair suas dimensões invisíveis. Na abertura, um acorde de frutas secas energizado pelo brilho da canela. No coração, o feno revela nuances tabacadas e couro macio, envolvidas pela cremosidade da fava tonka e do cacau. Patchouli e labdanum sustentam a base com sensualidade resinosa e persistente.

 

Lacoste inaugura seu primeiro Café em Paris 

Café Lacoste / Foto: Divulgação

A Lacoste inaugurou nesse mês seu primeiro café em Paris, na avenida Franklin D. Roosevelt, ampliando seu art de vivre para o universo lifestyle. Desenvolvido em parceria com o Groupe Giraudi, o espaço nasce como extensão do universo do crocodilo, a poucos passos do flagship da marca. Com 100 m² e 65 lugares, o café revisita os códigos da maison em uma atmosfera que mistura verde profundo, branco cassé e terracota, com linhas inspiradas no universo do tênis.

A proposta “all day” acompanha os novos ritmos urbanos, com opções para consumo no local e para viagem. Sob a direção do chef Thierry Paludetto, o menu apresenta clássicos revisitados como club sandwiches, saladas e sobremesas assinatura, além dos “Polo Iconiques”, pensados como objetos gourmand para compartilhar. Entre cafés e lattes criativos, a bebida “L’Eau de Croco” combina água de coco, matcha e gengibre. Deu água na boca!

 

Versailles em gala: o Bal Royal celebra tradição e filantropia franco-britânica

Château de Versailles / Foto: Divulgação

Após o sucesso da primeira edição em 2022, o Bal royal de Versailles retorna no dia 23 de maio no Château de Versailles, celebrando os laços históricos entre França e Reino Unido. Inspirado no baile oferecido por Napoleão III à rainha Vitória em 1855, o evento reúne membros da realeza, aristocratas e filantropos em uma noite de gala dedicada à gastronomia francesa, à música e à solidariedade. Entre os patronos e parceiros desta edição estão Bonhams, Bvlgari e a maison de champagne De Lossy, além de personalidades como Alan Titchmarsh e o conde e a condessa de Carnarvon. Chique!

A programação inclui jantar na Orangerie, recital privado na Galerie des Glaces, baile e espetáculo pirotécnico. Toda a arrecadação será destinada a três instituições: The King’s Foundation, Room to Read e a Fundação Franco-Britânica de Sillery, que atuam nas áreas de educação, saúde mental e desenvolvimento sustentável. Aqui, finesse pouca é bobagem, meu bem.

 

L’objet du désir – a escolha que faz oh là là!

Nova linha de joalheria da Byredo / Foto: Divulgação

Amei essa novidade: a Byredo acabou de lançar Virasaat Jumbo & Mini,  evolução de sua coleção de alta joalheria concebida sob o conceito de herança, “virasaat”, em hindi. Para 2026, a maison revisita a linha permanente ao explorar o tamanho como linguagem, propondo duas expressões que ampliam ou condensam suas formas elementares.

Produzidas na Itália em prata 925 ou em vermeil de ouro 24 quilates, as peças preservam a arquitetura original da coleção, mas redefinem proporções. A versão Jumbo afirma presença escultórica, com colares, pulseiras, brincos e anéis que ocupam o espaço com clareza estrutural. Já a versão Mini privilegia intimidade e precisão. Disponível em byredo.com e em lojas selecionadas da marca. Já quero!

 

O personagem extraordinaire do mês

Eu e Ana Garmendia / Foto: Arquivo pessoal

O personagem extraordinário do mês é minha querida amiga Ana Garmendia. Até estranhei ainda não ter feito uma coluna com ela, de tão extraordinária que é, achei que já fizesse parte do rol. Ana é escritora, jornalista, fotógrafa, relações públicas, mãe de gato, amiga leal, além de irmã e filha dedicada. Mora em Paris há muitos anos, como eu, e por mais de uma década dividimos as maratonas de fashion week em Paris. Sob chuva, sol, frio ou lama, sempre ali, companheira incansável, com sua voz doce e seu olhar atento.

Talentosa, escreve para a ELLE Brasil, além de publicar livros e crônicas com a mesma sensibilidade afiada que leva para a vida. Conversar com ela é sempre sair com uma frase que fica, uma ideia que ecoa. Engraçada, sagaz, profunda. E viajar com ela? Melhor companhia impossível. Agora ela passa uma temporada em Los Angeles ao lado da mãe e da família. Mas conhecendo a Ana, sei que Paris continua sendo sua casa, e que, como toda personagem extraordinária, sempre encontra o caminho de volta.