Foto: reprodução
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Por Alexandra Forbes

Quando você quer pedir um bom vinho em um restaurante, chama o sommelier para te aconselhar? Provavelmente, não. No Brasil, só gente muito ligada no assunto tem esse costume. As pessoas ficam meio sem graça de fazer perguntas ou não se importam tanto com a escolha. O sommelier, portanto, quase sempre passa despercebido.

Há pouquíssimas exceções: profissionais cujo talento e carisma lhes trouxe fama no meio e reconhecimento na mídia. E dentre esses nomes – não passam de seis no País – nada menos do que quatro são mulheres.

Trabalhar em restaurante geralmente é coisa para homens por um motivo simples. Já imaginou ser mãe tendo que chegar em casa à uma ou às duas da manhã, cinco dias por semana? Gabriela Monteleone viveu isso no D.O.M., do chef Alex Atala, onde trabalhou de 2011 a 2015. Pediu demissão cinco meses depois de nascer Francisco, seu filho com Manoel Beato, do Fasano (o sommelier mais reputado do Brasil) –, mas nem por isso perdeu o posto de grande embaixatriz brasileira do vinho. Reformou um espaço com o marido onde organizam jantares e degustações, e presta consultorias a restaurantes.

Cecilia Aldaz, a melhor sommelière do Rio e também mãe de primeira viagem, era quem comandava o serviço de vinhos no extinto Oro, de seu marido e chef Felipe Bronze, até poucos meses depois de nascer Antonio, quando decidiram fechar para mudar de endereço. Agora, com o filhote já grandinho o bastante para visitar o pai na cozinha, ela está a mil, montando a adega da nova encarnação do Oro, prevista para abrir este mês. “Com a alta do dólar, nunca foi tão difícil achar bons custos-benefícios para os clientes, mas continuo tentando”, diz a bela argentina de Mendoza.

Daniela Bravin completa o trio de supersommelières. Não faz muito tempo, tinha seu próprio restaurante e bar de vinhos, o Bravin, em Higienópolis. Lá, em vez de ter carta de vinhos, preferia aconselhar os clientes verbalmente, mesa a mesa – nunca caía no óbvio. Proposta ousada que fez muito sucesso até ela se desentender com os sócios. Saiu em dezembro e logo assumiu o posto na hypada Casa do Porco, do casal de chefs Jefferson e Janaína Rueda. “Me formei na ABS (Associação Brasileira de Sommeliers) com a Bravin e ela sempre foi a mais dedicada da turma. Não importa o gênero, importa se a pessoa dedica sua vida a sua paixão, que é o caso dela”, diz Janaína. “É sommelière de alma, mesmo.”

Outra que dá 100% de si ao trabalho é Rejane Kawano. Neta de japoneses, trabalhou muitos anos em restaurantes de Barcelona até fazer um curso de saquês por lá e se apaixonar pelo assunto. Mudou- se para o Rio e se tornou a especialista do Mee, melhor restaurante asiático da capital fluminense, localizado no Copacabana Palace. Equivalente japonês do vinho, o saquê, um fermentado de arroz, é tão ou mais difícil de ser decifrado, há inúmeras categorias e os nomes confundem – e, no entanto, quase nenhum restaurante de sushi tem alguém como ela para ajudar o cliente a navegar pelo desconhecido…

Apesar de parecer clichê, o que elas todas têm em comum é a paixão sobrenatural pela especialidade que escolheram. Essa paixão levou a muito estudo, que levou a se tornarem sabidíssimas e a conquistarem posições de destaque no meio. Paixão sem suor não resolve – coisa que essas bebedoras profissionais sabem melhor do que muito marmanjo por aí.