Day Mesquita – Foto: Adri Lima

Considerada pela crítica especializada como uma das maiores atrizes de sua geração, Day Mesquita vai muito além de suas oito novelas, três filmes, seis peças teatrais e duas séries. Consciente e preocupada com o coletivo, a atriz, que já deu aulas voluntárias de balé, usa sua voz para levantar debates importantes sobre o meio ambiente, sustentabilidade, upcycling, feminismo e violência contra a mulher.

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Militante também da causa animal, a atriz que adotou recentemente Ayla, um filhote abandonado e debilitado, tem feito cada vez mais questão de falar também sobre adoção responsável. Segundo uma matéria publicada no início deste ano pela Agência de Notícias de Direitos Animais, mais de 4 milhões de animais vivem em abrigos, sob tutela de famílias carentes ou em situação de rua no Brasil. A população de animais do Brasil é a terceira maior do mundo, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

“Não basta incentivar a adoção, há de se disseminar o compromisso e responsabilidade ao cuidar de uma vida, o não abandono!  É essencial pensar que você terá aquele serzinho ao seu lado talvez por mais de 10 anos e que é totalmente dependente de cuidados, carinho… Que o bichinho traz sim muitas alegrias para a casa, mas que ele também pode destruir chinelo, fazer necessidades fora do lugar, ficar doente. É necessário entrega, amor, paciência e muita responsabilidade!”, ressalta Day.

Por trás de papéis de prestígio, ela mostra que, além de talento e muito profissionalismo, tem uma alma que não consegue se calar com injustiças. “Quando dei aulas de balé para crianças e adolescentes ficou ainda mais evidente o poder de transformação da arte, o quanto oportunidade e inclusão podem mudar a vida das pessoas, trazer incentivo e motivação, e fazer do nosso País um pouco menos injusto”, e completa, como diria Paulo Freire: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”.

Day praticamente eliminou o consumo de carnes no dia a dia há oito anos, e busca dividir iniciativas sustentáveis com seus seguidores e entendimento sobre o impacto positivo de algumas atitudes em todo o ecossistema. Se tornou também embaixadora do movimento “Segunda Sem Carne”, da Sociedade Vegetariana Brasileira, que mostra o impacto positivo dessa campanha não apenas para os animais, mas também ao meio ambiente.

Todo este despertar para a consciência ambiental, não foi do dia para a noite, adepta hoje do upcycling, slow fashion e consumo consciente. Ela segue ligada às tendências, já que moda é um assunto que sempre gostou, e um mundo que pôde conhecer de perto quando modelo, mas hoje pesquisa a fundo as marcas em que investe, e tenta saber um pouco mais dos modos de produção, incentivando que todos façam o mesmo.

“Se todo mundo começar a cobrar, e as empresas perceberem que só vão vender se tiverem um modo de produção mais sustentável, todos nós ganhamos muito com isso e o planeta agradece. Devemos estar atentos também à produtos que não testam em animais”, pondera.

Outra realidade triste que temos constatado foi o aumento do número de casos de violência contra as mulheres em momentos de isolamento social. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), foram registrados 648 feminicídios no primeiro semestre de 2020, 1,9% a mais que no mesmo período de 2019. Para a atriz, que nunca passou por isso mas teve suas duas últimas personagens sendo vítimas de violência e/ou abuso, é importante falar cada vez mais sobre para que as mulheres que passam por alguma situação semelhante se identifiquem, se sintam encorajadas a denunciar, e saibam como procurar ajuda.

“Minhas duas últimas personagens foram vítimas de violência e abuso, a pesquisa de campo e estudos me aproximou ainda mais de assuntos tristes desse tipo. Falar sobre isso em uma novela, ou em redes sociais, e em qualquer lugar onde possamos alcançar o maior número de pessoas é essencial. O público muitas vezes se identifica com as personagens e com as situações que elas vivem, e acredito que por isso recebi alguns feedbacks de pessoas que já passaram pela mesma situação. Estamos vivendo um momento atípico no mundo por conta da pandemia e os dados mostram que os casos de violência contra a mulher que já eram muitos, aumentaram absurdamente, e nada justifica isso, não se pode relativizar ou humanizar motivação pra isso. O que temos que buscar são meios para proteger essas pessoas que agora estão confinadas com seus agressores. A principal forma de criarmos uma consciência nas pessoas sobre esse assunto é a disseminação de informações, o diálogo para que as vítimas se sintam acolhidas e se sintam encorajadas (e protegidas) para denunciar. É preciso mudar a forma de pensar, para que elas identifiquem cada vez mais rápido um comportamento que é inadmissível nos seus parceiros que cometem atos abusivos, sejam eles de violência física ou mesmo psicológica.”

“Além do 180, número de telefone da central oficial de apoio e denúncias também existem outras formas de apoio como algumas plataformas que ajudam juridicamente e psicologicamente (ex. mapa do acolhimento, tamo juntas), e até alguns aplicativos que disponibilizam um local indicado para denúncias de forma disfarçada caso o agressor esteja próximo. O Magazine Luiza, por exemplo, disponibilizou uma área onde a vítima, em uma tela fake de compra de produtos, é direcionada às redes de apoio. Que mais empresas façam o mesmo! Pessoas que vivem em situação do tipo e ainda não conseguiram buscar ajuda, que ao menos se estabeleça com algum amigx próximo algum tipo de código em situação de emergência. São algumas formas em que a vítima talvez possa se sentir um pouco menos insegura e mais acolhida. Precisamos todxs apoiar a vítima, sem julgamentos, sem preconceitos e especulações e mais empatia. Sonho com o tempo que nenhuma mulher passe por isso, mas como ainda me parece algo não tão próximo, infelizmente, que ao menos exista amparo, não apenas no momento de formalização mas depois também, que esse problema tenha a urgência que merece”, comenta Day.

Por fim, falando um pouco mais sobre seu lado profissional, vale destacar que a atriz está sempre buscando aperfeiçoamento e se atualizar das diversas técnicas para seu trabalho. Durante a quarentena, por exemplo, ela, que tem o desejo de trilhar uma carreira também fora do País, e tem aprimorado seu inglês e espanhol, aproveitou a brecha de trabalhos para fazer o curso de interpretação sobre a Técnica Chubbuck. Ministrado aqui no Brasil por Marina Rigueira, atriz e coach oficial do método aqui no País. A técnica foi criada por Ivana Chubbuck, autora do livro “The power of Actor“, que já teve como alunos Brad Pitt, Charlize Theron, Halle Berry, Sylvester Stallone, Eva Mendes, Jessica Biel, Beyoncé e Ian Somerhalder.

Vale lembrar que Day é formada em artes cênicas, jazz e balé clássico, e tem também em seu currículo participações nas séries “O Negócio“, da HBO, e “(Des)Encontros”, do Canal Sony. Além dos trabalhos na TV, ela atuou em cinco peças sendo uma delas o drama “Gota D’Água“, texto de Paulo Pontes e Chico Buarque.

Otimista incurável, como ela mesma se define, tantos questionamentos são colocados sempre em pauta justamente porque o mundo pode ser muito melhor. “Tem que se acreditar (e lutar), E será!”