Earphone ring Hector Albertazzi e pulseiras Talento – Foto: Bruna Castanheira, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Helder Rodrigues, tratamento de imagem de Philipe Mortosa, produção executiva de Bruno Uchôa, produção de moda de Maria Flevy e Larissa Romano

Por Felipe Stoffa

A tradição dos domingos silenciosos tem se tornado mais forte durante o isolamento. Acontece que, pela manhã do dia 7 de fevereiro, um barulho se dissipava na internet: uma nova rede social ganhava adeptos, posts, matérias em sites e jornais pelo mundo. Tratava-se do aplicativo Clubhouse, criado em 2020 pelos empreendedores do Vale do Silício Rohan Seth e Paul Davidson. Com mais de 6 milhões de perfis inscritos na rede, o app chegou ao País no início do mês com força o suficiente para virar um dos assuntos mais citados e procurados na internet, mesmo que limitado aos usuários de iOS (iPhones e iPads). A versão do aplicativo para Android é uma promessa sem data, com previsão de lançamento ainda neste ano.

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Durante a semana mais atípica de um Brasil pré-carnaval, a febre aumentava. A cada dia, usuários abriam contas, procuravam formas de ganhar convites (ou comprá-los em mercados paralelos) e se cadastravam na esperança de que algum contato já inscrito pudesse “puxá-lo” para dentro. De acordo com Nana Maia, uma das embaixadoras da plataforma, o País está em quarto lugar no ranking dos maiores usuários cadastrados para as salas de bate-papos que rodam, literalmente, 24 horas.

A ideia é simples: proporcionar inclusão e diversidade de opiniões que você não encontraria tão facilmente por aí. O mote da rede é você contribuir para os mais distintos assuntos, querer falar, trocar experiências e contatos. Mas, também, escutar o outro. O protagonista é o áudio. Não à toa, o aplicativo chegou em um momento propício. Já se notava uma grande procura por podcasts e apps de ligações. A própria Netflix, nos últimos meses, vem trabalhando para que seus assinantes possam escutar uma série ou filme da plataforma. Uma vez inscrito no Clubhouse, você encontra salas que discutem todo tipo de assunto, e o leque vai ampliando na medida em que o usuário passa a seguir mais pessoas. A saudade de se aglomerar pode ter contribuído para o buzz, além da excepcional participação do big boss Elon Musk, que aderiu ao app para comentar sobre o descontrole das ações da GameStop.

E a semana começou agitada: lá pelas 22h do mesmo 7 de fevereiro, personalidades, como Marina Person, Gregório Duvivier, entre outras, debatiam sobre as melhores táticas para fotografar uma nude. Em certo momento, as fotos de órgãos sexuais foram tema de análise e resenha críticas. Pulando para outra sala, uma conversa tão quente quanto acontecia em um espaço em que todos participavam com objetivo de paquerar. Batizado de “salas de Tinder”, cada usuário indicava alguém dali que desejasse conhecer. Se a indicação fosse recíproca, o match estava feito. Os cansados do flerte online podiam seguir as noitadas em “bares virtuais”, ou na sala organizada por Preta Gil.

Durante as manhãs, assuntos mais sérios. Astrid Fontenelle debate, todos os dias, as notícias dos jornais. A sala já teve participação da jornalista Silvia Poppovic e Manuela d’Ávila, além de mestres e doutores das mais distintas áreas do saber, analisando temas desde o próprio Clubhouse como o cenário político do País. O dia é abastecido nas rodas sobre marketing de influência, mercado financeiro, empreendedorismo, tecnologia, sustentabilidade, esportes, entre tantos outros assuntos. Uma grande rede de trocas e novos negócios nasce ali, com potencial bastante promissor.

De empreendedorismo a BBB: uma semana no Clubhouse
Foto: Reprodução/Instagram/@join.clubhouseapp

Ao cair da noite, CEOs, diretores e gerentes de importantes empresas encerram suas salas e o ambiente muda um pouco (só um pouco, já que papo descontraído rola solto em qualquer horário). Pode-se fazer uma pergunta ao tarô, descobrir sobre os astros, receber uma análise numerológica e mergulhar no delicioso papo holístico. Interessados em reallitys tiveram suas dúvidas respondidas por ex-participantes de shows como “De Férias com o Ex”, “A Fazenda” e “Big Brother Brasil”. Uma imitação da Xuxa agitava os usuários, que pediam músicas de sucesso e até cantavam junto (o perfil oficial de Xuxa está no app também). Se quiser cantar, basta entrar em uma sala de karaokê

Pessoas que não necessariamente gostam de transar, dúvidas sobre poligamia e relacionamento aberto, debates intermináveis sobre ‘Big Brother Brasil” são algumas das opções no cardápio Clubhouse. Cansou de escutar tanta coisa? Não tem problema, o retiro acontece no próprio aplicativo, basta entrar em alguma sala com objetivo de “ficar em silêncio”. Quem sabe para se renovar, tomar uma água, se alimentar (em algum momento você precisa almoçar e jantar) e seguir para uma nova sala. Aquele clássico fear of missing out foi atualizado à máxima potência. Ninguém quer perder nada.

Especialistas da tecnologia declararam “o fim do Linkedin”; “o fim” das tradicionais panelinhas de marketing; uma disrupção em torno do cultuado “mercado de influência”; um novo espaço para cobertura ao vivo de festivais, cerimônias e outros eventos. Ainda não se sabe como monetizar no aplicativo, mas o assunto é debatido pela própria equipe do Clubhouse, que procura angariar o alcance da plataforma a partir destes influenciadores que nascem nas salas de conversa. Perfis no Instagram e Twitter mudaram a lógica da produção de conteúdo para divulgar suas contas no Clubhouse, publicar análises e pedir follows. Com ciúmes e medo da concorrência, estas redes sociais mais “antigas” já estão elaborando um sistema de bate-papo dentro de suas próprias plataformas (existem até boatos de que usuários estão sendo penalizados ao publicar sobre Clubhouse).

Em apenas uma semana, que já foi agitada o suficiente, imagina-se o futuro da plataforma. Liberdade de opiniões e discussões quentes ainda seguem pacíficas. E não se sabe ainda o quanto esse agito em torno do app pode durar, principalmente no momento em que a população voltar às ruas (com vacina, claro). Mas, por enquanto, encerramos em clima de carnaval: durante uma madrugada, Preta Gil declarou que vai promover um bloquinho no Clubhouse, com participação inédita de Daniela Mercury e Ivete Sangalo. A data certa para o evento? Bom, só escutando para saber.