A modelo paraibana Jullie Marrie em editorial da Bazaar Arábia
A modelo paraibana Jullie Marrie em editorial da Bazaar Arábia

Quando tinha por volta dos 4 anos, Jullie Marie, paraibana de Campina Grande, conta que sua mãe percebeu que ela tinha a voz um pouco abafada e procurou ajuda. Recebeu diagnósticos errados de autismo a retardo mental. Até que, um ano depois, um tio que a visitava levantou a hipótese de que a menina poderia ter problema auditivo. Assim a modelo descobriu ter perda bilateral severa moderada e severa profunda e passou a usar aparelho auditivo. Jullie não lembra ao certo qual foi a primeira coisa que ouviu, mas recorda a emoção de ouvir o barulho da chuva inédito para ela.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

A surdez não impediu a modelo de trilhar uma carreira internacional. “Nunca sofri preconceito na moda. Só lembro de sofrer um pouco de bullying quando criança, me chamavam de mudinha”, afirma. Aos 27 anos, ela já estampou diversos editoriais – incluindo um para a Bazaar Arábia –, e trabalhou em países como Dubai, China, Índia, Turquia, África do Sul e Alemanha.

O encontro com Bazaar aconteceu em São Paulo, uma semana antes de seu embarque para uma nova temporada na África do Sul. “Tenho uma beleza bem democrática, acham que sou de vários países, inclusive da Índia”, diz ela, antes de contar um dos seus planos para o futuro. Autodidata  em libras, inglês e espanhol, ela revela que sua próxima meta é aprender híndi. “Quero fazer teste em Bollywood”, dispara. Outro desejo é ser chef de cozinha. “Sou vegetariana desde os 13 anos e penso em estudar gastronomia e abrir um restaurante.”

Deficiente auditiva, Jullie Marie levanta a bandeira da surdez na moda
Deficiente auditiva, Jullie Marie levanta a bandeira da surdez na moda

Jullie é daquelas que arregaçam as mangas por aquilo que deseja. Em 2008, após ser uma das seis finalistas do concurso Meninas Fantásticas, da Rede Globo, e ver que a carreira de modelo não deslanchou de imediato, ela decidiu ficar um ano e meio no Rio, onde morava parte da família. “Trabalhei com a minha prima como auxiliar de cabeleireira para pagar o meu novo aparelho auditivo. Também tentei ser manicure, mas não deu muito certo”, relembra.

Com saudades da cidade natal, voltou para Campina Grande, onde participou de um curso de modelo, recebeu alguns ‘nãos’, mas as portas finalmente se abriram. “Cheguei a ouvir que eu era uma manga verde. Mas fruta sempre amadurece”, ri.

A brasileira Jullie Marie sonha em atuar em Bollywood
A brasileira Jullie Marie sonha em atuar em Bollywood

Madura, ela dá passadas largas na moda – “não nas passarelas porque sou baixa, tenho 1,75 m” –, segue sonhando e levantando bandeiras. Inspira-se na modelo carioca Brenda Costa, que nasceu com surdez profunda e, em 2007, fez implante coclear, técnica conhecida como ouvido biônico. Casada com Karim Al-Fayed, herdeiro da Harrod’s e também surdo severo, Brenda escreveu o livro “Bela do Silêncio”.  “Admiro muito o trabalho e o ativismo da Brenda e gostaria de conhecê-la pessoalmente”, diz Jullie, que ainda luta pela causa animal. Ela cuida de 25 gatos abandonados e maltratados que ficam na casa da mãe.

Leia mais:
Emma Watson  e sua trajetória feminista
Anitta quer atuar: “Se envolver estudar e aprender coisa nova, eu topo”
Oprah entrevista Michelle Obama sobre infância difícil