Cleonice Antunes Quaresma – Foto: Arquivo Pessoal

A Cleonice Antunes Quaresma de 46 anos trabalha como agente líder de Cargas para a Azul Linhas Aéreas Brasileiras no aeroporto de Guarulhos em São Paulo. Ela é uma das “Vitoriosas” da companhia, que hoje, depois de vencerem a doença, alertam os passageiros em voos sobre a importância da realização dos exames durante o mês do Outubro Rosa. A Cleo foi diagnosticada pela primeira vez com câncer de mama em 2011, aos 36, justamente depois de um “check up” de rotina. Ela não tinha ninguém na família que já tinha passado pela doença.

“Eu comecei a procurar blogs e sites de maquiagem para poder aprender a chamar atenção para o meu rosto e me ajudou muito”

No início, de acordo com a Cleo, era muito difícil precisar lidar com os olhares das pessoas curiosas que tentavam entender o motivo dela estar careca, então ela preferia usar peruca. Mas foi depois de um episódio em uma viagem para Minas Gerais que ela resolveu aposentar o acessório. “Eu fui pra Minas, lá era muito quente e eu não conseguia ficar com a peruca. Foi quando resolvi não usar mais. Tirei, lavei e sequei. Postei uma foto nas redes sociais pra todo mundo ver de uma vez que eu estava careca e uma coisa que me perturbava, logo deixou de ser um problema. Foi libertador.” E depois veio o segundo passo da autoaceitação, com a procura de maquiagens que a ajudavam a ressaltar outras partes de sua própria beleza. “As vezes eu ia pra quimioterapia colocava brincão, ia toda maquiada, aí minha irmã vinha e dizia: ‘você tá indo pra quimioterapia’ e eu respondia: mas essa é a minha balada. É onde garanto a minha vida”.

E mesmo depois do tratamento e de vencer o câncer, quando o cabelo dela voltou a crescer, a Cleonice passou por uma outra redescoberta, que talvez não se permitiria caso não tivesse perdido todos os fios: “tinham muitos anos que eu fazia procedimentos no cabelo. Depois do câncer, quando meu cabelo cresceu de novo, descobri que eu era crespa e aceitei meu cabelo crespinho”.

“Cicatriz só dá em quem tá vivo e isso passou a ser meu seguro de vida”

Apesar de ter se recuperado, em uma nova batida de exames, agora ainda mais recorrentes, em 2015 a Cleo descobriu que o câncer havia voltado e, dessa vez, mais agressivo – o que fez com que ela precisasse fazer uma cirurgia de retirada das mamas. “Eu acho que aí a gente descobre que o cabelo é o de menos. A mastectomia toca a gente em outro lugar, toca na nossa sexualidade”.

A partir disso, além da queda dos cabelos e da possibilidade de antecipação da calvície e da menopausa pelo câncer, ela precisou mais uma vez redescobrir a própria imagem e ressignificar as cicatrizes, que incomodam tanto as mulheres que têm a retirada das mamas como única saída para se curar da doença. “Eu só usava biquíni grande pra esconder a cicatriz, e aí chega uma hora que você fala assim: cicatriz só da em quem tá vivo. Então isso passou a ser meu seguro de vida. É uma mudança de olhar”.

Para ela, inclusive, que não teve alternativa para lutar contra a doença, a mastectomia preventiva deveria ser mais naturalizada: “Eu vejo a Angelina Jolie que tirou as mamas por prevenção. Só critica quem não sabe o que é o câncer. Se eu tivesse, lá atrás, a oportunidade de saber que eu passaria pelo câncer, eu tirava as mamas na mesma hora. O teste genético tinha que ser uma coisa mais natural mesmo pra mulher. A cicatriz teria sido menor”.

Nota às leitoras

Verdadeiramente, como você se sente falando sobre câncer? Tem gente que não gosta nem de ouvir falar a palavra, diz que atrai. E é compreensível. Ninguém quer ter que passar por isso. Confesso que eu mesma me encaixo nessa situação, que relendo esse texto, me faz sentir envergonhada. Detesto fazer o exame de ultrassom de mamas e meu coração dispara enquanto sinto o gelzinho ajudando o aparelho a deslizar pelos meus seios. E eu, assim como a própria Cleo, não tenho predisposição para ter câncer. Inclusive, não consigo nem mesmo me lembrar de nenhum diagnóstico na minha família, nem entre os parentes mais distantes. O que não me impede de desenvolver a doença.

Mas, se tem uma coisa que aprendi escrevendo essa matéria é que o autoexame e todos os outros exames de rotina são muito importantes. Pode ser pelo simples medo de constatar uma possibilidade pouco provável, como o meu, ou o de entrar para as estatísticas em uma família em que que todas as gerações de mulheres enfrentaram a doença. Se você é uma das mais de um milhão de mulheres que, segundo o Data Sus, não fizeram seus exames preventivos em 2020, pare e faça. Em tudo na vida, encarar as situações de frente nos dá a chance de ter opções para lidar com a realidade. E quando se trata do câncer, o diagnóstico precoce eleva as chances de cura para 95%.